domingo, 11 de novembro de 2012

Quando viver é doloroso

No dia seguinte, depois de ter sido levada para a escola pelo diretor, que fazia as vezes também de motorista de van - acredito que para assegurar o número já reduzido de alunos que frequentavam a escola, fui buscada pelo pai da Sandra. Mas não para fomos casa. Ele me levou junto com a Sandra para a casa da filha dele, mais velha do que a Ola. A Elisa já era casada e tinha duas filhas no jardim de infância da escola. A Sandra já tinha tentado me falar sobre isso, mas de um jeito mais ou menos assim:

- My sister... Elisa. Mother children little, ahn ahn... kindergarten.


O que ela tinha tentado me dizer era que a irmã Elisa tinha duas filhas, a Ella e a Basia, que estavam no jardim de infância. Eu já conhecia as duas desde o primeiro dia, em que fomos soterrados por abraços. A Basia era a mais velha, com seis anos e era a única criança do jardim que sabia alguma coisa de inglês. Ela contava de um a dez no mínimo, sabia cantar o alfabeto, sabia cores e nomes de animais. E falava de cinco em cinco minutos no meu curto período de aulas no jardim: 


- Carolina, Carolina! I like you.

E me abraçava, não me deixando outra alternativa a não ser retribuir o abraço e responder pra ela "I like you too", além de tomar cuidado com as outras crianças, que podiam gostar também da ideia. E eu realmente gostava dela. 


A Basia tinha morado com a família na Inglaterra por algum tempo e no período chegou a frequentar a escola, e ainda lembrava das lições. Ao contrário da irmã mais velha, a Ella não se lembrava de nada e era mais do tipo das outras crianças do jardim, que pulavam de um lado para o outro e não tinha a intenção de ficar sentada por mais de cinco minutos. Mas também abraçava de vez em quando. 


A mãe das duas, aparentemente a única integrante da família desconhecida para mim até o momento, era totalmente diferente delas. Quando cheguei a sua casa acompanhada do pai e da Sandra, ela me pareceu um pouco desorganizada, nem abriu a porta direito e foi fazer alguma coisa na cozinha. A impressão que me deu é que ela nem sabia da visita ou não queria que ela acontecesse naquele momento. Fui pra sala acompanhada pela Sandra esperando pela anfitriã. Meu imã para crianças devia estar ligado no momento, porque nem bem me sentei e veio a Sandra e se sentou ao meu lado, grudando em meu braço direito. A Basia vendo isso deve ter ativado o seu abraço magnético e sentou do lado esquerdo. Pra completar, a Ella, vendo que eu não tinha mais braços disponíveis, veio correndo. Temi que ela fosse se jogar em cima de mim ou algo assim, mas ela só abraçou as minhas pernas. Teria sido lindo e cuti-cuti se eu não tivesse sido privada dos meus movimentos. Mas foi isso que aconteceu. E sem poder libertar um braço ou uma perna sem que eu jogasse uma criança pela janela ou, pior, fizesse com que elas se sentissem ofendidas e começassem a chorar, levantando todo o tipo de suspeitas de maus tratos infantil contra mim, fiquei lá, contando com o fato de que a demonstração de afeto por tempo prolongado seria tão entediante pra elas como era pra mim. Elas se mostraram incrivelmente resistentes nesse ponto. Mas depois de alguns minutos, em que tudo o que se ouvia eram barulhos vindos da cozinha e nenhum sinal da mãe, elas pareceram se cansar. A Ella foi a primeira. Largou minha perna e começou a pular de um lado para o outro, mais ou menos como ela fazia no jardim de infância depois de ficar muito tempo sentada. Depois a Basia disse mais uma vez "I like you" e se levantou, me olhou com uma cara de que iria aprontar alguma e saiu correndo da sala. Até fiquei um pouco preocupada, mas me lembrei de que não era mais au-pair e deixei pra lá. Só restava a Sandra. Olhei pra ela e ela me deu um sorriso que parecia dizer "me ame, por favor, me ame!". Mas era difícil amar uma pessoa quando o seu braço está dormente. Depois de admitir que a resistência dela era maior que a minha e antes de permitir que a Ella se cansasse dos pulos e agarrasse o outro braço, tive uma ideia para me libertar sem ferir os sentimentos dela e ao mesmo tempo me livrar da dormência do braço. Me levantei e fui até a janela. Olhei em direção à cozinha e a mãe não dava sinal de vida. A Sandra me olhava sem entender. Como pode uma pessoa preferir ficar em pé a se aconchegar no abraço tão carinhoso dela? Ou eu era muito cruel ou havia algo errado com ela. Antes de ela começar a chorar por qualquer um dos dois motivos, perguntei se ela sabia aquela brincadeira cabeça-ombro-joelho-pé. Eu tinha visto a professora de inglês fazendo isso com uma turma no dia e achei que podia ser uma boa desculpa para estar em pé e manteria ao mesmo tempo as mãos dela ocupadas. Ela me mostrou empolgada como era em inglês. Aí perguntei como era em polonês e ela mostrou, mais empolgada ainda. Treinamos um pouco e quando eu mostrei em português ela parecia querer sair pulando pela casa, imitando a sobrinha que agora estava desaparecida junto com as outras moradoras. 


Elas ainda estiveram desaparecidos por um bom tempo, o que me permitiu aprender várias partes do corpo em polonês, o que sei até hoje graças à Sandra. Quando a minha anfitriã finalmente chegou, parecia ter feito um dos trabalhos de Hércules pela sua expressão cansada. Mas o que trazia nas mãos era só uma bandeja com chá. Pelo tempo que ela tinha ficado na cozinha poderia no mínimo ter acrescentado alguns biscoitinhos. Ela teria tido tempo de comprar os ingredientes, preparar e assar os biscoitos, mas a preparação do chá parecia ter sido suficientemente penosa para ela. Pediu desculpas e se sentou. 


Elisa era magra, estatura média, cabelos pintados de vermelho e curtos, o que parecia acentuar ainda mais a sua palidez. Tinha uma expressão constantemente preocupada e a boca, resignada, nunca sorria. A voz era arrastada e baixa, como se o simples ato de falar representasse um esforço monstruoso. Ela perguntava sobre a minha experiência na Polônia quase com pesar, como se tivesse pena de mim por estar ali. Tentei contar da forma mais animada possível, contando um pouco mais da minha vida e inserindo alguns fatos que eu considerava engraçados ou interessantes.

-- Então eu fiquei por um ano na Alemanha como Au-pair, cuidando de crianças...


Ela me olhou com as sobrancelhas franzidas e balançou a cabeça vagarosamente para frente e para trás, como se eu tivesse acabado de contar que eu perdi minha família em um acidente:


- Imagino que deve ter sido muito difícil para você. As crianças alemãs... - fechou os olhos por alguns segundos e balançou novamente a cabeça, dessa vez de um lado para o outro. 


Longe de querer estimular a discórdia dos vizinhos, eu disse:


- Não, as crianças eram ótimas! Eu realmente gostava muito delas. 

- É mesmo?

- É claro que a educação era bastante diferente, né? As crianças tinham mais limites do que as crianças no Brasil pelo menos... - e vendo que ela ainda parecia à beira do choro, acrescentei - Mas tinha algumas diferenças engraçadas também. No banho por exemplo: as crianças de lá não tomam banho todos os dias! Olha só, não é engraçado?

Esperava que a reação dela fosse no mínimo de espanto. Mas ela me olhou da mesma forma, condolente, interpretando aquilo como uma confirmação de que os pais alemães maltratavam os filhos e que isso era muito difícil e por isso deveríamos todos chorar pelo resto de nossos dias.


Mas o meu diagnóstico final de um quadro grave de depressão veio ao ver como ela lidava com as crianças. Ella estava pulando como sempre fazia nas horas vagas. Era uma criança alegre com um nível altíssimo de energia. Pilha nova, minha tia diria. Ao ver que a menina pulava na sala com o risco de destruir todos os móveis presentes, Elisa disse algo em polonês, no mesmo tom arrastado em que me deu os pêsames por ter sido au-pair e que eu interpretei como algo assim:


- Ella, pára de pular sobre os móveis...


Claro que a Ella não parou. E que não houve consequência nenhuma para o fato de ela não parar. Teria sido muito custoso. Mas Elisa fechou os olhos por um segundo, acentuou a expressão resignada da sua boca e me disse:


- Você vê? Ela nunca me escuta...
 

Eu sei que eu deveria ser mais paciente e compreensiva, principalmente com todo o meu conhecimento de psicologia e psiquiatria que me habilita a fazer um diagnóstico tão acurado nos primeiros minutos de contato. Mas a verdade é que eu preferia ser soterrada por crianças que limitavam meus movimentos do que manter aquela conversa. Achei que teria sido mais interessante até pelo fato de ela ter morado fora. Imaginei que teríamos experiências para trocar e tudo o mais. Mas tudo o que ela falava do tempo que passou na Inglaterra era como a língua era difícil e como criar as crianças era difícil e como a comida e o trabalho e o clima eram difíceis. E estava sendo difícil pra mim continuar sorrindo e tentando mostrar o lado positivo do que para ela era um eterno sofrimento. Assim fiquei feliz quando ela anunciou que ia preparar o almoço e me deixou sozinha com as crianças. Dessa vez eu desejei que ela demorasse mais tempo do que levou com o chá. E foi com uma vitalidade renovada que eu brinquei novamente de cabeça-ombro-joelho-e-pé-joelho-e-pé-cabeça-ombro-joelho-e-pé-joelho-e-pé-olhos-ouvidos-boca-e-nariz-cabeça-ombro-joelho-e-pé-joelho-e-pé ou głowa-ramiona-kolana-pięty-kolana-pięty-kolana-pięty-głowa-ramiona-kolana-pięty-oczy-uszy-usta-nos ou qualquer outro jogo que a Sandra soubesse. Assisti a apresentação de balé que a Basia tinha preparado para mim, vestida com uma fantasia de princesa por cima da outra roupa e vi a Ella pulando de um lado para o outro como de costume. Em um segundo que eu pisquei ela tinha derrubado o pote de açucar da mesa e pegava o açúcar com a mão e colocava na boca. Em algum momento depois disso a mãe chegou dizendo:
 

- É, ela é assim mesmo...
 

E fomos almoçar.
 

Depois de terminarmos de almoçar, irmos passear com as crianças e o cachorro e assistirmos as crianças brincando no parquinho enquanto a mãe me perguntava sobre os meus sofrimentos na vida e me contava sobre os sofrimentos dela e da família, fiquei feliz de chegar em casa. Tudo o que eu queria era alguns momentos sozinha ou no mínimo longe da irmã depressiva. Mas a Sandra queria assistir um filme junto comigo, a Ola queria conversar. Acabamos no meu quarto que era também o quarto de televisão e a Ola me perguntou sobre todos os assuntos possíveis, sobre a minha família, sobre o Brasil, sobre futebol, ela adorava futebol e contou que era fã do Brasil e do Barcelona e que queria assistir ao jogo entre Brasil e Japão que ia ser em Wroclaw. A Ola era completamente diferente das duas irmãs. Ela conseguia perguntar sem parecer que estava sofrendo por isso e se mostrava interessada e empolgada com cada resposta minha. Era carinhosa e atenciosa, mas não era sufocante como a irmã mais nova. Ela também já tinha feito um intercâmbio na França por pouco tempo e tinha um interesse enorme na cultura latino-americana, o que fazia com que sempre tivesse alguma pergunta ou algum outro assunto. Depois de algum tempo conversando e achando que eu já tinha falado para uma vida inteira, fomos à pizzaria. Como no dia da minha chegada não tínhamos ido, esse foi o dia escolhido. Fomos apenas eu, Ola e Sandra, porque segundo ela os pais não poderiam ir. Ela me falou para escolher, fez o pedido e não permitiu em hipótese alguma que eu contribuísse nem com um centavo sequer da conta. O que estava se tornando hábito em todas as famílias. Comemos a pizza enquanto conversávamos sobre música e filmes e fomos pra casa.
 

O dia não foi ruim, como eu posso ter feito parecer aqui, mas me deixou com muita vontade de ter mais tempo para mim, o que procurei fazer nos dias que se seguiram...

domingo, 21 de outubro de 2012

Olhos vermelhos no escuro

O plano do intercâmbio era ficar uma semana em cada cidade, exceto na primeira, onde ficamos duas semanas. Quando soube disso fiquei feliz com a ideia de não ter de mudar de casa, mas não foi bem assim que aconteceu. Segundo a minha primeira família, havia umas dez famílias que queriam ter a honra de hospedar uma brasileira em suas casas. Como morar em dez famílias diferentes em um período tão curto não seria possível, eles resolveram me dividir ao meio dividir o tempo que eu ficaria em cada casa. Isso significava que a família com que eu estava tão acostumada e feliz depois de uma semana de convivência teria de ser abandonada e eu partiria para uma outra família, nada desconhecida. Desde o primeiro dia em que pisei na escola pela primeira vez, um menino sorridente e carinhoso me abordou e com a ajuda da professora, e com uma quantidade exagerada de gestos demonstrando toda a sua ânsia de falar inglês e principalmente de falar comigo, disse alguma coisa como:

-- Ahn... Carolina... ahn ahn... you... me.. ahn... together... ahn...

Achei que ele estava tentando me chamar pra sair ou algo do tipo e comecei a ficar preocupada. Mas ele parecia achar que eu deveria gostar do que estava tentando me falar, porque depois disso me olhava e sorria como se esperasse que eu o abraçasse e fôssemos felizes para sempre. E como eu não esboçava nenhuma reação, ele me abraçava, emitindo um ruído semelhante ao que alguns filhotes fazem quando querem atenção. Comecei a achar que ele era um pouco afeminado. Só andava com meninas, o que é muito incomum pra idade, e essa coisa de ficar abraçando o tempo todo não era exatamente algo que os meninos de doze anos fariam, ainda que estivessem apaixonados. Talvez tenha sido por isso que o Simon falou depois de ver o garoto me abraçando: 

-- Ela gosta mesmo de você.

Fiquei chocada. Esperei para ver a reação da professora, reprimindo Simon e falando para ele que era um garoto e não uma garota. Era compreensível que ele não visse a diferença, afinal, os chineses eram muito diferentes dos europeus e devia ser mais fácil para ele identificar chineses do que poloneses. Ainda assim, alguém devia falar com ele, o garoto podia ficar traumatizado antes do tempo. 

Mas nada aconteceu. Todos pareciam achar perfeitamente normal que o garoto fosse tratado por "ela". Foi nesse momento que eu percebi que ele usava um tênis com corações cor de rosa e uma calça mais apertada do que a que os garotos normalmente usam. É legal que a pessoa use a roupa que acha melhor e não tenho nada contra isso. Mas ainda assim havia alguma coisa errada. Foi só quando a professora de inglês tratou-o também por ela que eu tive certeza: o menino era menina. Literalmente.

O nome dela era Sandra, tinha 10 anos e era a pessoa mais apegada a mim naquela escola, a ponto de abraçar e não permitir que eu fosse embora. E o que ela estava tentando me dizer não era nenhuma declaração de amor platônico, como fui entender depois:

-- You now ahn... house her. Ahn... next week... you... my house.

Foi assim que fiquei sabendo, logo no início, qual seria minha próxima família.

Confesso que com todo o amor que ela demonstrava, fiquei um pouco receosa dessa segunda semana e segunda família. Se no intervalo das aulas ela já estava tentando me contar sobre toda a família e me abraçava a ponto de não permitir nenhum movimento, imaginei o que seria quando me mudasse para a casa dela. Até tentei  atrasar a minha mudança pra lá de alguma forma, mas o máximo que eu consegui foi atrasar por um dia. Mas nessa época eu não podia imaginar o que estava me esperando e que seria ao mesmo tempo melhor e pior do que o que eu imaginava. 

A mudança foi no meu aniversário, a meu pedido, no começo da segunda semana. Depois de uma pequena reunião de aniversário com pratos brasileiros, fui para a outra família, pronta para ser sufocada por abraços. Por conta da comemoração do meu aniversário, estávamos um pouco atrasados, o que ocasionou ligações incessantes de Sandra. O primeiro pai me levou até a segunda casa. Era um apartamento no centro da cidade, longe da escola por um lado, mas mais perto da civilização por outro. Sandra esperava na porta, andando nervosamente de um lado para o outro, como se não tivesse feito mais nada no dia inteiro. No último piso e sem elevador, fiquei realmente feliz por ter alguém para carregar a mala para mim. 

Em comparação com minha primeira  casa, era extremamente pequena, com um corredor e uma cozinha apertados, um quarto dividido em dois por estantes cheias de livros. O quarto da Sandra e da sua irmã de 15 anos, Ola, era mais ou menos dois terços do meu quarto anterior, com a diferença de que continha não só uma cama, mas duas, além de duas escrivaninhas e estantes também cheias de livros. O lugar onde eu dormiria porém era grande, na sala de jantar e televisão e minha cama era um sofá cama.

Logo que eu cheguei, fui recebida com presentes, um par de brincos e um pingente com a letra C, que pareciam ser de prata, além de um quadrinho com uma imagem da cidade. O plano era sair para comer pizza juntos quando eu chegasse na nova casa e Sandra já tinha perguntado pelo menos umas cinco vezes durante a semana se eu gostava de pizza e o que eu comia. Já tinha perguntado o sabor da pizza, e já sabia que eu não comia carne. Isso não seria um problema nessa família. O único problema é que ao chegar lá eu já tinha comido pão de queijo, brigadeiro e sorvete na outra família e comer pizza significaria um certo risco de explodir. Eles pareceram um pouco decepcionados por eu não jantar com eles no dia, mas adiaram para o dia seguinte e ficou tudo bem. Apesar de não termos ido comer a pizza, Sandra e sua irmã ficaram no meu quarto por algum tempo, conversando e contando histórias.

As histórias do dia foram sobre fantasmas, pessoas mortas e guerra, os temas perfeitos para dar as boas vindas a hóspedes recém chegados e cansados. As meninas contaram sobre a sua irmã que tinha morrido quando ainda era um bebê e que tinha a pintura de um retrato (pela aparência falado), pendurada na parede do que agora era o meu quarto. Na mesma parede, outras fotos penduradas, algumas de parentes já falecidos, outras parecendo ter sido tiradas na guerra ou antes dela, com pessoas que provavelmente já estavam mortas há muito tempo. A parede me lembrava uma coleção de fotos antigas, organizadas de forma a não deixar nenhum espaço entre si. As fotos continuavam em um parapeito logo abaixo dos quadros e acima da minha cama, de forma que ao olhar para cima tudo o que eu via eram retratos. Depois de apresentar a família nos retratos e todos os seus membros, mortos ou vivos, Ola perguntou:

-- Você acredita em fantasmas?

Eu não sei. Conheço várias histórias de pessoas que viram espíritos e tudo o mais, mas eu pessoalmente nunca vi um nem tive nenhuma comprovação concreta da sua existência, então prefiro afirmar que não sei se eles existem. Mas a Ola não só acreditava como tinha histórias de pessoas que já tinham visto fantasmas para acrescentar ao meu repertório:

-- A minha vó via fantasmas. Quando ela acordava, via dois olhos vermelhos olhando para ela e só depois que rezava um pai nosso e uma ave maria eles iam embora. 

Ela deixou um silêncio para ver o efeito da afirmação. Eu não tinha muito o que dizer além de me mostrar impressionada:

-- É mesmo? 

Ela continuou:

-- E o meu pai não acreditava nela, mas um dia, ele foi dormir e quando ele apagou a luz ouviu um barulho como se houvesse gente andando pelo quarto. Quando acendeu de novo, todos os sapatos estavam bagunçados e espalhados. Ele arrumou os sapatos e apagou a luz de novo. E novamente quando acendeu todos os sapatos estavam bagunçados. Então ele arrumou os sapatos novamente, mas amarrou-os com um barbante. Quando apagou a luz, ouviu um grito e um barulho e ao acender, o barbante estava cortado e todos os sapatos espalhados. Desde então ele acredita na minha vó.

Achei que ela fosse dizer "Desde então ele não arruma mais os sapatos". Talvez fosse um aviso para que eu acreditasse nela, ou teria meus sapatos bagunçados na calada da noite. Na verdade, eu achava que um fantasma deveria ter mais o que fazer do que bagunçar os sapatos dos outros, mas quem sou eu para discutir? Ninguém também poderia discutir com o pai caso os sapatos estivessem bagunçados. Mas eu não falei isso. Ela parecia gostar de histórias de terror e estava fazendo um esforço para me impressionar, então apenas concordei novamente, esperando um assunto mais amigável. Mas ela não tinha terminado. 

-- Depois que minha vó morreu, também costumava me visitar quando eu era pequena, quando morávamos na outra casa, mas agora não visita mais. 

Bom, pelo menos parecia que naquela casa eu estaria segura. Esperava não receber nenhuma visita de parentes falecidos. Já bastava o quadro mórbido da irmã com que eu tinha de conviver. Mas acho que comemorei cedo demais. Depois de falar dos entes falecidos da família, ela resolveu me mostrar o restante do quarto. Além das fotos acima da minha cama, havia outras em preto e branco em outra parede. Ela contou que era o seu bisavô, que tinha morrido na segunda guerra, pelos alemães. Também falou que achava que na sua família havia judeus no passado que provavelmente também tinham morrido na guerra. Ela queria descobrir esses antepassados judeus e por isso colecionava algumas estatuetas judias, que estavam no mesmo quarto em que eu dormia. Mas as estatuetas não eram a única coleção presente no quarto. Também havia armas, colecionadas pelo pai, e bonecas de porcelana, colecionadas pela mãe. Todas as paredes estavam cobertas de objetos que pareciam estar lá há pelo menos um século. É como se não houvesse espaço para respirar. E esse seria o único problema do quarto se ela não tivesse se lembrado de acrescentar:

-- Eu sempre tenho medo de dormir nesse quarto por causa das bonecas. Você sabe aquele filme do Chuck? 

O único filme que eu tinha visto dessa série era mais engraçado do que de terror. Mas mesmo como comédia, não era uma boa lembrança para deixar para os hóspedes que dormiriam sozinhos no quarto... Até cheguei a pensar que toda sessão terror poderia ser uma estratégia para me persuadir a dormir no quarto delas. Mas considerando o risco de sufocamento amoroso por parte da mais nova, preferi ficar com as bonecas. 

As meninas pareciam muito assustadas por causa das bonecas e imaginei se não haveria nenhuma história de bonecas acordando à meia noite, bagunçando os sapatos alheios. Mas parecia ser o fim das histórias de terror. Como já estava tarde, a Ola perguntou se eu já queria tomar banho e fez questão de preparar a banheira para mim. Depois de tomar banho e de ser perguntada pelo menos cinco vezes se eu não queria realmente comer alguma coisa, pude ir dormir. Ou tentar.

Depois de apagar a luz e me deitar, tudo o que vi foram dois pontos vermelhos flutuando no escuro. Mas antes de me aterrorizar e mudar de quarto, quando estava quase partindo para a estratégia da avó e rezando um pai nosso para que eles desaparecessem, percebi que era só a luz de standby da tv e do dvd. Eles não desapareceram, mas pude dormir tranquila, sem chucks, fantasmas judeus ou poltergeists. Mas preciso confessar que meus sapatos nunca estiveram muito arrumados enquanto estive nessa casa...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Tolerância e amor cristão

Não sei se vocês sabem, mas a Polônia é um país extremamente católico. Eu não tinha ideia disso antes de chegar aqui, mas com alguns dias já pude perceber o quando isso é forte no país. O último papa, que era polonês, está estampado frequentemente em vários lugares, não só em lugares óbvios como igrejas, que têm até estátuas dele, como também em casas ou em escolas, como era o caso da escola em Olesnica. O curioso é que até agora eu só vi fotos do antigo papa, mas nenhuma do novo. Talvez por ele ser alemão. 

Mas saindo da briga de vizinhos e voltando à religiosidade, esse é um tema realmente impressionante na Polônia. Se você vai numa sala de aula no Brasil e pergunta qual a religião dos alunos, talvez a maioria vai responder católica, uma parte considerável evangélica, alguns espíritas e em casos mais raros um sem religião ou de religião não cristã. Aqui na Polônia, todos seriam católicos. Até agora somente duas pessoas com quem eu conversei não eram católicas: um universitário, que disse ser ateu e uma menina de ensino médio em uma das escolas que visitei que declarou em frente a toda a turma que não tinha religião. Ela não foi apedrejada, mas alguns coleguinhas olharam para ela como se ela fosse ainda mais exótica do que a brasileira que estava na frente deles. Só mudaram de ideia quando eu falei que também não tinha religião. Mas não, eles não me apedrejaram. 

Esse não era o caso da primeira escola. Sendo uma escola católica, era natural que todas as crianças fossem católicas, assim como as respectivas famílias, que iam à igreja no mínimo uma vez por semana, quando não eram muito religiosas. Porque as pessoas religiosas na Polônia vão à igreja todos os dias, o que nem a minha vó, que é o meu modelo supremo de religiosidade, faz. 

No nosso primeiro dia, depois de ter sido soterrados e pisoteados por polonesinhos extremamente adoráveis e cristãos, fomos chamados em uma sala no intervalo. Os alunos formaram um círculo, ocupando todos os cantos da sala, acompanhados por alguns professores. Nós fomos colocados no centro da sala. Com a experiência anterior, fiquei com medo de eles estarem planejando um abraço coletivo ou algo do tipo. Os mini poloneses não estavam presentes na sala, mas os alunos da escola primária poderiam ser um problema muito maior e mais pesado e mais católico do que o que tínhamos vivido alguns minutos atrás. 

Mas não parecia ser esse o previsto. Eles começaram a falar coisas em uma língua exótica chamada polonês e eu, que na época só sabia falar dzien dobry e umas outras palavrinhas para não morrer de fome, naturalmente não entendi nada. E claro que hoje eu também não entederia. Eles acenderam uma vela e colocaram na nossa frente e começaram a recitar novamente em polonês. Até temi que fosse algum ritual de conversão e que eles iam nos batizar à força ou algo do tipo. Mas daí lembrei que eu já tinha sido batizada em um passado remoto e parei de me preocupar. Em algum momento, depois de perceber que eles estavam apenas rezando, eles começaram a falar na língua estranha e a fazer referências às pessoas que estavam no centro do círculo. Em algumas religiões isso poderia significar algum tipo de oferenda, mas antes que eu voltasse a me preocupar, vi que algumas crianças traziam um cartaz nas mãos, onde davam as boas vindas aos mais novos e exóticos convidados. Tivemos que nos apresentar e dizer o quanto estávamos felizes com todo o calor humano que eles tinham nos oferecido até o momento, tentando ao mesmo tempo manter uma certa distância emocional para que eles não mudassem de ideia e fizessem sim um abraço coletivo. Acho que deu certo.

Depois de sermos formalmente apresentados à escola e às divindades presentes, voltamos ao trabalho. Mas dessa vez não fomos jogados numa sala infestada de poloneses perigosos. Fomos apresentados à professora de inglês que tinha acabado de ser contratada e estava tão apreensiva quanto nós por trabalhar com poloneses tão pequenos. Mas essa não seria na verdade, nossa tarefa principal. A maioria das aulas que damos foi para os alunos da escola primária. As aulas de inglês eram basicamente uma mistura de jogos aleatória que os alunos de alguma forma gostavam. E em algumas aulas apenas ficávamos sentados, assistindo a aula de inglês ou participando das atividades. Mas não era bom contar com um período de folga. Algumas vezes a professora, achando que estávamos aborrecidos de ficar apenas sentados ouvindo ou quando ela estava cansada de dar aulas, falava de repente, sem aviso prévio ou indenização: agora os nossos convidados estrangeiros vão continuar a aula. E éramos jogados no meio da sala, tendo apenas alguns segundos para pensar no que fazer. Perdi a conta de quantas vezes jogamos forca. Mas algumas vezes os alunos queriam apenas conversar. E faziam perguntas. 


Nunca vi alunos tão interessados quanto eles. Mas não perguntavam sobre o nosso país ou a situação econômica, como era de se esperar. Perguntavam qual a nossa cor favorita, o que a gente gostava de fazer, se tinhamos irmãos e irmãs ou bichos de estimação. E ficavam olhando com aquela carinha deslumbrada, como se nunca tivessem visto nada tão bonito ou tão interessante em toda a vida. E acenavam e diziam oi emocionados, como se estivessem frente a frente com seu ator favorito. Eles abraçavam também, mas os abraços não eram tão selvagens quanto no jardim de infância. Mas eram suficientes para nos manter ocupados em cada intervalo e impedir de comer o sanduíche que eu tinha trazido de casa. E isso durou toda a semana que estivemos lá. Fizemos algumas apresentações sobre nossos países, mas como o inglês deles não era exatamente bom, não acho que entenderam muita coisa. Mas ainda assim olhavam deslumbrados e sorriam e acenavam e diziam "I like you" e davam presentes. Ganhei pinturas, desenhos, origamis, chocolates, mas o mais importante nessa escola definitivamente foi o carinho dos alunos, ainda que algumas vezes fosse difícil respirar com tanto amor.