quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal Branco

Sempre quis ter o gostinho de ter um "Natal branco", como dizem os alemães. Como a gente vê nos filmes. Um tapete branquinho e macio se estendendo no jardim onde a gente pode modelar as formas mais variadas possíveis. A sensação de estar quentinho em casa, a árvore acesa, as ruas escuras, e os flocos de neve caindo mansinho lá fora. Um Natal onde o Papai Noel não precisa inventar desculpas pra andar tão agasalhado. E que a árvore é um pinheiro de verdade, buscado na floresta. Tudo parece fazer mais sentido assim.

Esse ano, porém, o clima de Natal veio um pouco antes do esperado. Há uma semana, as ruas estavam branquinhas, as crianças saíram no quintal e bombardeavam os adultos desavisados com a munição branca e gelada, os adultos se reuniram na praça para tomar vinho quente com canela, as famílias assaram mais biscoitos de natal para deixarem as casas ainda mais aconchegantes. E a esperança de todo mundo era que essa semana se prolongasse por mais alguns dias, e que a troca de presentes, a ceia, as músicas ao piano pudessem ser coroada por alguns floquinhos de neve dançando pela janela.

Mas não foi possível. Alguns dias depois dos dias mais frios da minha vida, que chegaram a cerca de -15ºC, o sol voltou, o vento parou, o tempo esquentou e a neve, ah! a neve... não resistiu ao calor repentino de +9ºC. Quase verão.

Agora, no Natal, está frio, sim. Mas da neve só ficaram algumas poças rasas, alguma sujeira nos sapatos e a vontade de um Natal branquinho, que ainda não passou.

Mas, já que eu não posso ter neve agora, pelo menos que meus leitores tenham. Por isso os floquinhos caindo daí de cima.

Então, aproveito o clima aconchegante pra desejar a vocês um ótimo Natal (e um bom ano novo também, mas eu acho que escrevo antes disso).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Perdida no meio dos preparativos de Natal... Assunto pra escrever não falta. O problema é tempo mesmo.

Desejo a vocês todos, leitores e não leitores, família e não família, amigos e não amigos (porque inimigos eu acho que não tenho - ou ao menos espero) um feliz Natal e um ano novo repleto de realizações e muitas, muitas novas batatas.

Abraço,

Carol

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Surpresas da noite

Hoje* aconteceu uma coisa completamente inesperada.


*E claro que hoje nesse texto significa, assim como no da nuvem, que foi há muito tempo, mas só agora eu consegui digitar o texto escrito há mais de um mês. Mas vamos lá contar o que aconteceu.


Um amigo me pediu o cesto da minha bicicleta emprestado. A bicicleta dele não tem cesto nem garupa pra pôr o cesto, porque "isso é coisa de menina". Apesar de a metade das bicicletas aqui, até de meninos, terem cesto. E acho realmente prático ter um cesto, seja pra colocar a bolsa, pra fazer compras ou pros outros jogarem lixo dentro. E mesmo que a última finalidade não seja nada desejada, todas as outras compensam essa desvantagem. Meu amigo reconhece todas essas vantagens. Mas aparentemente elas não são suficientes para convencê-lo a deformar a imagem "máscula" de sua bicicleta (ainda que ela seja vermelha com acessórios combinando). Tudo pela aparência. E como não adiantaria muito eu dar o cesto pra ele, já que ele não teria lugar para colocá-lo na bicicleta sem garupa, fui com ele fazer compras. Bom também, para assegurar que ele não teria só cenouras em casa quando resolvêssemos cozinhar outra vez.


O único supermercado que fica aberto depois das 10 fica dentro de uma espécie de shopping. Eu queria entrar pelo fundos, que era mais perto, mas ele disse que podia estar fechado. Não estava, dava pra ver. Mas fomos pela entrada principal. Questão de costume. O chato de usar a entrada principal àquela hora é que ela fica rodeada de mendigos bêbados, adolescentes bêbados, turcos bêbados e toda a sorte de seres que recorrem ao único lugar da cidade onde é vendido álcool na versão engradado até meia-noite. Tranquei a bicicleta depressa, prendendo a respiração. Era o máximo que eu podia contra a nuvem de cigarro que envolvia o ambiente. E tentando desviar de uma segunda nuvem que vinha em minha direção, entrei correndo no supermercado, seguida por meu amigo. Meu amigo aproveitava a oportunidade e comprava mais do que precisava. mais do que ele conseguiria carregar sozinho. Depois de comprar mais cenouras, passar cerca de uma hora só resolvendo o que levar,  enfrentar no mínimo mais meia hora de fila no único caixa aberto, dividir as compras entre mochila do amigo e a sacola que iria no cesto, nos preparamos para mais uma lufada de cigarro na cara.


Já tinha até levantado a sacola para colocar no cesto quando percebi:


- Cadê o cesto?


Sabe aqueles momentos que você acha que não está enxergando direito? O cesto devia estar lá, o problema era com meus olhos.


- Como assim, cadê o cesto?


- O cesto da minha bicicleta. Sumiu.


- Tem certeza?


- Claro que eu tenho certeza! Eu estou vendo a bicicleta, não estou vendo o cesto, que devia estar onde eu deixei. Logo, o cesto sumiu.


- Que merda!


Eu que devia dizer isso. Tinha ido lá só por causa do cesto pra ficar justamente sem ele. Ironia do destino? Olhei para os lados e vi alguns bêbados remanescentes. Até procurei por algum sinal dele, talvez abandonado em algum canto escuro da rua, depois de perceberem que ele estava estragado.


No Brasil eles teriam dado um jeito de levar a bicicleta toda. Talvez o cesto (ou eu mesma, considerando o trânsito de BH) não durasse um dia. Mas na Alemanha, onde normalmente pode-se deixar até a bicicleta inteira sem cadeado, foi realmente inesperado, mas (só pra rimar) roubaram meu cesto quebrado.


O amigo disse que deve ter sido um dos bebuns adolescentes: "Olha, que legal! Agora temos lugar pra pôr as bebidas". A maior sacanagem foi o lugar onde aconteceu: na porta de um supermercado, justamente quando as pessoas precisam do bendito cesto, que mesmo quebrado costuma quebrar um bom galho.


Resultado da brincadeira: Tivemos que nos virar com sacolas penduradas no guidão ou no pescoço, desequilibrando até em casa. E eu me virei sem o cesto por bastante tempo, até a semana passada, quando comprei um maior do que o outro e um bom cadeado. Por via das dúvidas, agora eu sempre tranco.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Nas nuvens

Hoje pousou uma nuvem na minha cidade. E eu morei por um dia dentro de uma nuvem. Tudo muda, de repente. O ar fica mais frio, mais denso, mais embaçado. A cidade toda se modifica. Os olhares mudam. Para mim, que moro no alto da cidade, é ainda mais intenso. E pra ver isso de perto (ou de longe) fui ainda mais alto, na floresta que fica perto da minha casa. Normalmente, de lá dá pra ver a cidade inteira com suas casas, ruas e rio. Mas hoje não. Hoje o máximo que eu podia era ouvir o barulho dos carros passando lá embaixo. Não tinha mais casa, não tinha mais rio nem ruas. Só o ruído contínuo de uma cidade que ainda vive. Estava sozinha. De quando em quando, parecia se aproximar alguém, um ser, um vulto. Mas eles evaporavam antes de chegarem perto o suficiente. Nesse dia tudo era possível. Os contornos se misturavam, se diluíam na branquidão. O mundo só existia num raio de 10 metros. Em torno de mim, apenas árvores e uma imensidão de neblina, que me fazia perder-me em mim mesma. Estava frio. A minha respiração não estava apenas visível: todo o ar era a minha respiração. Eu respirava e via nitidamente todo o ar à minha volta se movendo, como se o simples movimento dos meus pulmões tivesse o poder de fazer ventar.  E eu caminhava mais e mais para dentro. Não conseguia ver o que vinha a seguir. Não podia ver o que se passou. Eu só existia ali, naquele lugar, naquele presente. Embaçado como um sonho do qual tentamos nos lembrar. Ou em que tentamos existir. Nada parecia ser real. Nada parecia ser concreto. E eu virei de repente personagem de um filme. Ou de um livro. Ou de um blog. Em um mundo quase só meu, feito de neblina e sonhos. Não havia medo. Não havia nada além do que eu queria. Ou enxergava. E tudo o que existia eram as árvores, suas folhas alaranjadas, o chão repleto de folhas. Uma melodia doce e distante, vindo de algum ponto incerto da minha imaginação. Uma folha de papel e uma caneta. E neblina suficiente para embaçar até os textos mais concretos. Ou os mais abstratos.


Hoje eu morei num mundo feito de nuvem e sons. E gostei.

sábado, 21 de novembro de 2009

(Des)contando

Sempre fez parte da minha política não contar as coisas antes de que elas aconteçam. Os motivos pra isso? Não sei bem ao certo. Mas sempre acho que as coisas perdem um pouco da sua força quando a gente conta antes o que pretende fazer. Lembro de quando eu ainda estava no Ensino Médio e comentei com alguns amigos que eu iria cortar o cabelo naquele dia. Resultado: Sabe-se lá porque, não cortei. No dia seguinte, mais decidida (ou com o cabelereiro marcado, não lembro) comentei de novo "Hoje eu corto!". E não cortei. E só no terceiro dia, sem comentar nada é que fui conseguir o bendito corte. Pode ser que tenha sido coincidência, diria o leitor incrédulo. Mas pode ser que não. Sempre penso o que teria acontecido se eu não tivesse contado. Teria sido diferente? Ou isso é só mais uma das minhas neuroses?


Uns dizem que quando se conta algo, principalmente quando é algo bom, que ainda não aconteceu para certas pessoas, essas pessoas podem, ainda que inconscientemente ter uma certa inveja e mentalmente boicotarem o tal projeto. Outros dizem que a fala possui energia e quando você expressa um planejamento em palavras, a energia mental se transforma em energia sonora e o planejamento perde o potencial que tinha antes de ser pronunciado. Outros acham exatamente o contrário e dizem que quando você fala você realiza sonoramente o que existia apenas no plano mental e por isso torna maiores as chances de seus projetos se realizarem. Bla-bla-blás à parte, sempre achei melhor não contar nada. Só conto depois que já aconteceu ou quando as coisas já estão certas o suficiente pra não se perderem em qualquer teoria. Por isso prefiro não contar nada antes de fazer uma prova, de prestar um concurso. Só conto depois de ter passado. Por isso minha família só ficou sabendo que eu queria ir pra Alemanha depois de eu ter passado na prova do programa de intercâmbio da UFMG (que foi antes de eu resolver vir como au-pair, longa história...). Por isso meus leitores só ficam sabendo das minhas viagens depois de eu já ter voltado. E porque eu adoro deixá-los curiosos. Mas isso não é novidade. Mas, depois de um longo tempo semeando a curiosidade e a angústia entre meus queridos leitores, resolvi que não faria mal compartilhar um pouquinho do que eu estava planejando. E foi assim que no último post eu contei que iria pra München - que na verdade se chama Munique  em português.


Não sei se as coisas teriam acontecido de outra forma se eu não tivesse contado. Já estava tudo certo, tudo planejado. Mas eu não contava com um certo vírus, o mesmo que contaminou todo o jardim de infância, 70% da minha família e provavelmente a metade do corpo docente da minha faculdade (único motivo que explicaria o fato de metade das minhas aulas não tenham acontecido por motivo de doença). Eu não imaginava que esse vírus que aparentava ser tão inocente resolveria me atacar justo na sexta-feira. Normalmente eu acharia bom ficar a sexta-feira sem trabalhar. Em condições normais eu poderia até mesmo prolongar minha estadia em Munique. Mas o fato é que eu não consegui fazer muita coisa na sexta além de ficar deitada o dia todo. Até levantar o copo d'água se tornou uma tarefa difícil. Mas pelo menos o tal vírus tinha uma certa vantagem: duração curta. 24 horas, na maioria dos casos observados, talvez até menos. Ou seja, ainda dava pra ir pra Munique. Eu, que comecei a passar mal de manhã, só fui ter fome à noite (o que considerando que estamos falando da Carol, é no mínimo preocupante). A dor de cabeça, só passou de madrugada, quando eu não consegui mais dormir. E só fui me sentir realmente bem há algumas horas, quando os planos pra Munique já tinham ido por água abaixo.


Não sei o que aconteceria se eu não tivesse contado. Pode ser que no fim das contas eu tenha leitores invejosos. Pode ser que tudo aconteceria do mesmo jeito tendo eu contado ou não. Não sei. Mas devo dizer que, por via das dúvidas, vocês podem morrer de curiosidade: da próxima vez, eu não conto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

É chato isso, mas a verdade é que tô sem tempo nem pra digitar os textos que já tenho prontos... E o tempo que eu tenho aproveito para ir em todas as padarias que tenho direito. Afinal, preciso de assunto pra escrever, mesmo que não escreva aqui.

Esse fim de semana vou pra München!!!

domingo, 15 de novembro de 2009

Férias de batatas

A Alemanha é provavelmente o país que mais tem férias nesse planeta de deus. Na escola, além das férias de verão, que duram de dois a três meses, as crianças têm até duas semanas de férias a cada mês e meio de aula. As últimas férias, de uma semana, foram em outubro. Assim, enquanto os professores no Brasil inventam aulas extras o ano inteiro para garantir a tão esperada e criticada semana de outubro, os alemães ganham-na de graça. Mas aqui os motivos das férias são outros. Hoje essa semana se chama algo como férias de outono (Herbstferien). Mas antigamente, para honrar o nome de Terra da Batata, as férias tinham o aclamado nome de Kartoffelnferien, ou seja, Férias das Batatas. Quando descobri isso, me interessei bastante pela origem desse nome tão peculiar e resolvi pesquisar a fundo o que levou a Terra da Batata a ter uma semana com esse nome. Seguem abaixo os resultados da minha pesquisa.

Depois de trabalharem longos meses no campo nessa vida cansativa de fazer fotossíntese, sugar água, pegar nutrientes do solo, entre outras atividades, os pés de batatas finalmente ganham suas merecidas férias em outubro. As batatas são retiradas dos campos frios e selvagens, onde correm o perigo de serem devoradas por porcos ou pisoteadas por crianças e são levadas para galpões, despensas e panelas para serem devoradas de forma mais decente e civilizada, com no mínimo uma oração antes das refeições. Antigamente, para comemorar a semana das batatas, as crianças em vez de irem pra aula iam pro campo ajudar os pais a proporcionar mais conforto e alegria para os queridos tubérculos. Hoje, que a maioria das batatas já nasce empacotada no supermercado, as férias continuaram, mas o nome mudou. E agora é o outono que tira férias para virar inverno nas férias seguintes.Sem as tão esperadas férias, os pés de batata são obrigados a fazer muito mais fotossíntese do que antigamente. O stress e o excesso de trabalho tem propiciado o aparecimento de manchas de coloração esverdeada bem como de deformações genéticas, o que gera aberrações nunca antes vistas e pode propiciar inúmeros problemas sociais e psicológicos entre as batatas.



batata complexada 1
E.K.

O Instituto de Proteção à Batata (Kartoffelschutzinstitut) tem recebido um número cada vez maior de batatas com problemas de inadequação social. É o caso de E. K., mostrado na foto à direita. E.K., que preferiu não ser identificado, começou a apresentar problemas de relacionamento com outros vegetais depois de ter sido rejeitado por uma criança no supermercado. Em seguida, não conseguiu mais permanecer no compartimento de batatas e migrou para o compartimento de abobrinhas, pimentões e tomates, mas foi expulso de todos eles. Totalmente traumatizado, foi recolhido por psicólogos do instituto, que tentam integrá-lo novamente à sociedade. E.K. já considera a possibilidade de se submeter a uma operação, embora especialistas afirmem que as incrustações na sua pele sejam absolutamente normais. "A maior realização para uma batata hoje é servir de alimento para os seres humanos. Elas são plantadas e cultivadas com esse fim e quando não conseguem cumprir o objetivo para o qual foram designadas, como no caso de E. K., isso gera um quadro depressivo dificilmente reversível.", diz Hans Backfisch, supervisor do Instituto. A maior parte dos pacientes do Instituto reclama da ausência das férias de outubro, que antes eram tão esperadas.


batata lisa
Lisa

"Sempre ouvimos dos nossos avós como era feliz a época em que as crianças ajudavam na colheita. As batatas eram tratadas com muito mais carinho e respeito. Hoje somos friamente empacotadas para os supermercados e ouvimos cada vez menos agradecimentos antes de sermos devoradas. Eu tive a sorte de ter um outro destino, mas a maioria das batatas tem o mesmo fim", diz Lisa, uma batata doce que foi adotada por uma menina de 6 anos e hoje ajuda na recuperação de outros tubérculos no Instituto. "O caso de Lisa é bastante diferente dos outros", diz Johannes Meier, psicólogo voluntário do Instituto, "enquanto as outras batatas sofrem com a rejeição humana, Lisa sente-se mais próxima dos humanos e tenta até mesmo se passar por um deles. Mas não é capaz de admitir que também foi rejeitada pela criança que a adotara". Johannes diz que uma das causas dos problemas observados nas batatas também pode ser fruto da larga utilização de agrotóxicos e das experiências para melhoramento genético a que as batatas são submetidas.

Na última reunião do Kartoffel-Gewerkschaft, organização sem fins lucrativos em prol dos direitos das batatas, foi determinado que, caso as condições de trabalho não sejam melhoradas, os pés de batata de toda a Alemanha pararão de produzir batatas e o país, famoso pelos seus tubérculos corre o risco de perder o tão estimado título de Terra da Batata. Também foi exigida pela organização a supressão dos experimentos genéticos com os vegetais, que pode colaborar para o aparecimento de deformações, gerando inúmeros problemas sociais para os tubérculos atingidos. A utilização de produtos inseticidas também foi colocada em pauta, mas as opiniões quanto à sua proibição são divergentes. Alguns integrantes do Kartoffel-Gewerkschaft alegam que os produtos serviriam para a proteção dos pés de batata e que por isso devem ser mantidos. Outros membros preocupam-se com o impacto ambiental de tais produtos e a influência indireta que exercem nos pés de batata.

A crise das Batatas é vista como uma das mais graves da história da Alemanha, sendo comparada até mesmo com a crise econômica mundial e a gripe suína. A sociedade também se preocupa e se empenha na realização de diversos protestos em defesa das batatas. O estudante de biologia Stefan Winke, um dos integrantes do movimento, declarou em entrevista: "Conheço as batatas desde pequeno. Sempre ajudei no plantio e na colheita delas e me preocupo com a situação. Estou disposto a lutar para que elas tenham uma melhor qualidade de vida. "

Só resta esperar que as autoridades tomem as providências cabíveis para que a Alemanha possa manter o seu título de Terra da Batata com a honra e dignidade de um país do seu porte. Afinal, como diz o lema do Kartoffelschutzinstitut, "os tubérculos são nossos amigos e merecem respeito".


batata coração

Demonstre você também o seu amor pelas batatas!


terça-feira, 10 de novembro de 2009

É o seguinte...

Sei que vocês estão esperando pela continuação da saga... Mas eu não imaginava que ela ficaria tão grande. Nem que eu teria tão pouco tempo pra escrever. A primeira parte foi mais rápida, porque já estava escrita, mas eu precisaria de uns três ou quatro posts pra terminá-la e infelizmente não estou tendo esse tempo agora. Mas em compensação já tenho tantos outros textos escritos! Textos que eu queria de verdade publicar, mas não faço por causa da saga. E acho que não tem muito sentido escrever sobre uma coisa que aconteceu há mais de dois meses quando tenho tantas notícias tão mais frescas, espalhadas pelos meus cadernos. Espero que vocês sejam os leitores compreensivos que eu sei que tenho e não cortem as relações com meu blog por causa dessa bobagem. Pelo menos vocês poderão ler vários outros textos dentro de (espero) pouco tempo. Não quero deixar que as batatas fresquinhas de agora já sejam batatas velhas quando eu publicar. Afinal, tem coisa mais gostosa que uma batata quentinha, douradinha, tirada do forno na hora? É pensando nisso e desconsiderando a fome que a última frase me causou, que espero que vocês saboreiem com gosto as próximas batatas. Bom apetite!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Nas Garras da Máfia - Parte IV

Leia a Parte III aqui

Hotel Residenzia


Prezzo massimo della camera 207: 120 €


Prezzi per persona e giorno con buffet di prima colazione


Li duas ou três vezes, antes de ter certeza do que estava escrito. Até recorri ao meu manual de italiano, mas não era tão necessário para entender o que estava escrito ali. Já tinha visto alguns hotéis colocarem o preço na porta dos quartos, mas o preço afixado costumava coincidir com o que era realmente pago pelo quarto. Naquele caso, o preço afixado era 12 vezes mais alto do que eu teoricamente pagaria. E depois de já ter assinado o termo de compromisso contendo o número do quarto e de noites, o que segundo a moca da recepcao seria  praxe do hotel, depois de ter deixado um documento pessoal  como "garantia", até que eu fizesse check-out, depois de já estar relativamente instalada no quarto que por sinal era o mesmo do Brédi é que fui me dar conta de que ela não tinha me dado nenhum comprovante, nenhuma conta, nada que comprovasse o preço que ela disse que eu pagaria. Como eu não tinha reserva, não tinha também nada que confirmasse o valor que eu tinha conseguido pelo site. Isso somado à história do hotel inexistente e à facilidade com que o preço abaixou só de mencionar o preço da internet gerava supeitas preocupantes. Antes de começar a viagem, tinha lido algumas histórias de turistas que não eram nada convidativas. Histórias de pessoas que foram a restaurantes que cobraram taxas absurdas, inexistentes no cardápio. Caso os clientes se recusassem a pagar ou reclamasse da conta, o garçom trazia dois seguranças no melhor estilo lutador de jiu-jitsu, que sugeriam sutilmente que era melhor o cliente pagar sem reclamar. E fiquei imaginando se isso seria o caso daquele hotel. Não tinha a menor idéia do que eles poderiam fazer caso  eu me recusasse a pagar. E não era tao divertido ficar imaginando isso. Comecei automaticamente a pensar em todas as rotas de fuga possíveis caso eu precisasse fugir - provavelmente um resquício da minha época de polícia. Já começava a gerar planos mirabolantes e provavelmente a falar sozinha quando ouvi uma voz atrás de mim. Me preparei para virar depressa e sair correndo gritando uma daquelas coisas que a gente só ouve em filmes do sbt: "Você não vai me pegar com vida!", mas me lembrei de que o Brédi ainda estava lá. E consegui me recompor da síndrome 007 a tempo de responder sem que ele achasse que eu estou louca. O que seria pior do que não escapar com vida. E além de constatar que eu preciso rever minhas prioridades, percebi que ele ficou preocupado quando viu o papel, ainda que não quisesse deixar transparecer.


- Estranho, não?


- O que você acha que pode ser isso?


- Sei lá... Mas eu diria que esse hotel não parece ser nenhuma instituição de caridade.


- Parece ser fachada...


- O que a gente faz? Avisa a polícia?


- E se a polícia for cúmplice?


- Avisa o consulado alemão? - a cena do 007 com o homem sendo perseguido dentro da embaixada não saía da minha cabeça. (não, eu não assisto só Amélie Poulain)


- Nem sei se aqui tem consulado... Grande a cidade não é. E não sei em que isso ajudaria também. Até onde eu sei, aqui ainda é União Européia.


- Você leu alguma coisa sobre esse hotel na internet?


- Pouca coisa. Parecia bom. Barato de qualquer forma.


- E você fez reserva?


- Não. Até tentei, mas as reservas pela internet estavam bloqueadas.


- Então você também não tem um comprovante do preço? - começava a ficar mais preocupada.


- Não.


- Você acha que a gente deve perguntar na recepção, qual é o preço de verdade?


- Não sei se isso ajudaria em alguma coisa...


- O que a gente faz então?


- Quer dar uma volta?


E assim, feliz por ter uma companhia (e que companhia, diga-se de passagem) pra passear na cidade, saímos do hotel fantasma e deixamos as preocupações de lado. Ainda que não por muito tempo.


Continua...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Nas garras da Máfia - Parte III

Leia a Parte II aqui


Não é exatamente normal que homens bonitos tenham muita influência em mim. Na verdade o mais comum é que aconteça o contrário. Todas as amigas reunidas em um típico encontro a la Luluzinha e uma solta uma dessas:


- Mas o Fulano é um gato, não é?


E entre as minhas reações mais prováveis estão:


1. Quem??? (seguida naturalmente de protestos de todas as outras, por eu não conhecer quem está arrasando os corações femininos nas novelas da vida, que eu naturalmente não assisto)


Depois de reconhecido o assunto do dia, fingir que foi reconhecido ou na hipótese mais improvável de eu saber de quem estão falando, a reação pode ser assim:


2. Ah... Mais ou menos, né? (acompanhada de uma cara de muxoxo por minha parte e caretas de indignação de todas as outras, que se levantam das cadeiras sem acreditar como pode um ser humano do sexo feminino classificar o Fulano como "mais ou menos". Não pode. E sinto que está ficando perigoso quando elas começam a enumerar todos os motivos que fazem do fulano o bambambam do momento, incluindo na descrição a cena tal ou a foto tal que toda fêmea do planeta teria a obrigação civil, moral e religiosa de ter visto. "Você não acha, Carol?" E é nesse momento, com todas as cabeças voltadas para mim, sem coragem de admitir que o único homem quase famoso cujo dia-a-dia eu acompanho tem cerca de 1,60 de altura, é careca e azarado, e sentindo que a minha resposta pode determinar a sobrevivência ou não de muitas amizades, respondo:


3. Tá bom, tá bom, nessa foto ele tá bonitinho sim - e sentindo a respiração profunda que antecede as batalhas verbais mais perigosas, corrijo a tempo - Bonito. Eu quis dizer bonito (e consigo assim acalmar um pouco os ânimos, mesmo que muitas vezes eu não tenha nem mesmo uma idéia muito clara de quem elas estão falando).


Já aconteceu muitas vezes também o contrário: eu acho um certo homem bonito e comento com uma ou mais amigas, que têm ao mesmo tempo uma reação semelhante a que as pessoas têm quando se imaginam comendo um limão. Com casca. Foi assim que eu descobri toda a minha dificuldade em determinar o grau de beleza masculino. Demorei consideravelmente para descobrir, por exemplo, que meu namorado era bonito. Tive que pedir diversas consultorias e só quando uma dúzia - no mínimo - de pessoas concordou comigo, é que pude ter certeza. São realmente raras as vezes em que minha opinião sobre esse assunto converge com a da maioria da população. E é exatamente esse o caso de  fenômenos da natureza como Brad Pitt e o rapaz do hotel, que vamos chamar aqui de Brédi. Isso explica o estado de espírito em que eu fiquei quando o vi na recepção do hotel. Era como ter encontrado o próprio Brad. O Brédi seria sem sombra de dúvida a reunião de todos os requisitos luluzísticos para determinar se um homem é bonito.


E imaginem agora que, ainda sob o efeito dessa visão, sem ter muita certeza de que aquilo tinha realmente acontecido, eu abro a porta do quarto e vejo, sentado em uma das camas, como se fosse uma miragem, ele, o Brédi, ocupado em esvaziar a mochila. Entro no quarto e ele se vira, me dando um sorriso de boas vindas que apagou por um momento qualquer preocupação relacionada a máfia e hotéis. Já estava valendo a pena ficar hospedada ali. Conversamos um pouco no meu inglês de boteco, até que eu descobri, depois de meia dúzia de palavras, que ele era alemão. Respirei aliviada por não precisar mais queimar meus neurônios no território bretão. E só fui voltar a me preocupar com essa história mal-contada do hotel que não existe quando descobri atrás da porta algo que despertou preocupações muito mais sérias que a determinação do grau de beleza masculina...


Continua...

sábado, 31 de outubro de 2009

Nas garras da Máfia - Parte II

Leia a Parte I aqui


Lá estava ele, no topo da montanha (ou no último andar do prédio, como preferirem). Uma mão na cintura, um braço apoiado no balcão e um charme digno de qualquer galã hollywoodiano. Sozinho, meu Deus, sozinho. Passaram várias coisas pela minha cabeça. Provavelmente eu não tinha resistido à escalada, ao peso e à fome reunidos e meu corpo inerte se encontrava em algum ponto da escada. Eu estava sonhando, estava em outra dimensão, estava no céu, mas aquele homem não tinha condições de pertencer à realidade. Uma voz sutil soprava na minha consciência qualquer coisa sobre um namorado no Brasil enquanto eu caminhava em direção ao balcão, meio abobada, meio flutuando, tentando disfarçar enquanto esperava ser atendida. Vi ele pegando a chave e até tentei ver o número (claro que só por curiosidade), mas não consegui. E a moça do balcão teve que me dar bom dia duas vezes (ou talvez até mais) pra eu perceber que tinha chegado minha vez.


Seguindo o esquema de "viagem flexível", eu tinha apenas olhado na internet se o hotel tinha vagas e o preço, para decidir depois se eu iria ficar mesmo lá. E só descobri a duras penas que é pura perda de tempo deixar para decidir depois se eu acabo invariavelmente escolhendo o mais barato, algumas vezes a altos custos. E pedi uma cama em um quarto para 4 pessoas.


- Custa 15.


- 15? Mas eu olhei na internet e o preco era 10...


- Ah, tudo bem, 10 então.


Achei estranha a rapidez com que o preço abaixou. Até pensei em pechinchar mais um pouco. Você faz por 5 então? Mas ela não parecia gostar muito de brincadeiras. E achei ainda mais estranho quando ela informou que o café da manhã seria servido naquele andar. Dez euros já era barato. Com café da manhã, era ridículo. Não devia ser verdade. Devia ser, no máximo um copo de café. Sem açúcar. Mas isso eu descobriria no outro dia. Resolvi perguntar então porque a recepção estava sendo feita no outro hotel.


- Ah, os dois hotéis são a mesma coisa...


Se eles fossem a mesma coisa, um não chamaria Residência e o outro Darcy. Se eles eram a mesma coisa e a recepção do hotel Residência, em que eu ficaria hospedada, era sempre feita no Darcy, era como se o Residência não existisse. Não estava cheirando muito bem. E não sei porque, a música tema do Poderoso Chefão não parava de tocar na minha cabeça. Mas eu não imaginava que as coisas só estavam começando.


Continua...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nas garras da Máfia - Parte I

Não fazia parte dos meus planos visitar Florença. Mas sempre que eu falava com quem quer que seja dos meus planos de viajar pra Itália, diziam na hora que eu nao podia deixar de ir pra lá. As amigas italianas, ao mesmo tempo que disseram que pra Viterbo eu deveria reservar nada mais que duas horas, quando eu perguntei quanto tempo eu deveria passar entao em Florença, a resposta imediata foi:


- Um ano!


E eu que estava querendo mais fazer uma espécie de escala lá, entre Roma e Veneza...


- Mas é melhor ter passado um dia em Florenca do que passar pela Itália sem conhecê-la.


Bom, se vocês colocam as coisas nesses termos... Entao vamos pra Florenca!


O chato de ir pra lá é que a cidade é considerada uma das mais caras da Itália. E como um dos princípios de ser au-pair é nao ter muito dinheiro (pra nao dizer nenhum), tinha que fazer alguns malabarismos pra economizar. Em Florença nao foi diferente. Assim, quando encontrei um hotel pela metade do preco dos outros, nao hesitei em ir pra lá. Tudo bem se a entrada do prédio era em uma rua no melhor estilo centro de Belo Horizonte. Tudo bem se eles nao tinham nem uma placa decente indicando o nome do hotel e eu tive que passar por ele cerca de 3 vezes até entender que era ali. O que importava era o preco. E carregando 50 kg nas costas, eu nao estava com a menor vontade de perambular pela cidade à procura de outros hotéis. Vai esse mesmo.


Toquei a campainha e me atendeu um homem com cara de indiano e roupas de pedreiro, resmungando qualquer coisa em qualquer língua (e sendo indiano, as opcoes eram muitas), apontou uma portinha perto da escada e sumiu pelo prédio adentro. Analisei bem a portinha e achei que podia ser um armário de vassouras ou coisa do tipo. Mas uma plaquinha me indicou que era o elevador. Mas juro que depois de abrir a porta, comecei a pensar se nao seria mesmo um armário de vassouras. Mas era pequeno demais pra esse fim. E nao tinha vassouras. E pra usá-lo com o fim de elevador, eu teria que escolher se entrava eu ou minha mochila. Ou a mochila subia de elevador e eu subia de escada correndo pra evitar que alguém a encontrasse antes de mim, ou eu subia de elevador e deixava a mochila subir de escada sozinha. Mas alguma coisa me disse que nao ia dar certo e cansada demais para pensar em qualquer outra alternativa, optei pelo que me deixaria ainda mais cansada: subir de escada com a mochila.


A minha primeira surpresa foi que a recepcao nao era mais no 3° andar, como indicado na plaquinha do prédio, mas no 5°. Curiosamente, provavelmente porque plutao estava alinhado com saturno naquele dia, a recepcao seria feita em outro hotel, que ficava no mesmo prédio. A história estava mal contada. Mas nao é exatamente uma coisa muito fácil mudar os planos quando se carrega 100 kg nas costas (porque é claro que depois de 3 andares a mochila ficou muito mais pesada). Entao, sem alternativas, continuei a escalada.


Chegando no topo do prédio, pronta para no último fôlego fincar a bandeira na neve, avistei algo que me fez perder todo o fôlego, bandeira e qualquer outra coisa que eu tivesse e nao tivesse no momento.


Continua...

Fatos

O fato é que eu tenho algumas centenas de posts rabiscados em pedacos de papel, que eu sempre levo comigo pra quando eu tiver tempo no trabalho, mas nessa correria em que me encontro de acordar cedo, muito cedo, ir pra faculdade, voltar de bicicleta correndo, trabalhar até tarde, ir pro curso de tango, acordar cedo, muito cedo (nao, eu nao durmo mais), eu nao arranjo tempo pra digitar tudo (nem pra arrumar meu quarto, mas isso já é patológico). O fato é que eu nao contei nem da metade da viagem e agora já tenho outra pra contar, mas como a primeira já está ligeiramente escrita, vou dar preferência a ela. O fato é que vao surgindo outros assuntos e eu vou falando de tudo ao mesmo tempo e as datas vao ficando uma bagunca e vocês nem devem mais saber por onde estao andando as coisas. Mas eu prometo arrumar, assim que eu acabar de contar a primeira viagem. O fato é que  eu comeco a ficar com medo de esquecer do que é que eu ia falar ou o que tem de importante pra contar das coisas que já aconteceram há mais de dois meses. O fato é que eu já comeco a achar que o wordpress é uma droga e queria um blogger da vida pra poder brincar de verdade de mudar template. Mas isso já é outro assunto.


O fato é que vocês vao ter que esperar pra eu contar pra onde eu fui na última semana... Embora até lá talvez alguns já saibam. E espero que aproveitem a próxima saga em Florenca, que aconteceu no comeco de setembro e que entra no ar dentro de alguns instantes...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Volta às aulas

Sei que vocês estão querendo saber mais da minha viagem, que não chegou nem na metade ainda. E sinto informar que eu não vou conseguir atualizar os posts antes de viajar de novo. O que acontecerá dentro de algumas horas. Mas vou deixar sendo surpresa também. E antes que vocês comecem a pensar que vida de au-pair é só viajar, vamos para um tema mais concreto. As viagens? Sim, sim, prometo contar depois.


As férias acabaram. Depois de quatro meses na mesma rotina acordar tarde - trabalhar - ficar até tarde no computador - acordar tarde, resolvi viver para algo mais além de criancas e cama. E comecei a preencher meu tempo livre com toda a sorte de aulas que eu conseguisse freqüentar. Nao só de alemao, mas algumas mais ousadas como didática, psicologia e até inglês (que eu realmente preciso). E no comeco da semana, tendo acordado espantosamente às 7:30, sem direito à qualquer efeito soneca, fui pra minha primeira aula. Retórica da Fala ou qualquer coisa assim. Coisa de Letras. Chegando lá, o que mais me espantou na sala de aula foi que:


1- Eu era a única mulher;


2- Eu era a única estrangeira;


3- Eu era a única da área de Letras.


Num curso em que o perfil dos interessado deveria obrigatoriamente cumprir um dos requisitos acima, é no mínimo surpreendente que apenas uma pessoa se encaixasse em todos eles. Os outros quatro alunos se dividiam entre as áreas de sociologia, egiptologia, matemática e física. O que físicos e egiptólogos procuram num curso desses é realmente uma boa pergunta. Se fosse no Brasil, eu diria que o povo da exatas queria só melhorar a nota, freqüentando um curso em que nota abaixo de 80 já é considerada ruim. Mas na Alemanha nao é o caso. Perguntando pros da Exatas no intervalo, o por quê do interesse no curso:


- Sabe como é... Esse povo que faz Física fica o dia inteiro em casa no computador e acaba esquecendo como se fala. Daí a gente resolveu que tinha que fazer alguma coisa antes de comecar a grunhir coisas sem sentido pelos corredores. E as mulheres já aprenderam a falar direito, vocês nao precisam de curso.


Eu, que estava lá mais por motivos cronológicos do que qualquer outra coisa - esquema pegue-qualquer-matéria-da-área-que-encaixe-no-seu-horário e que nao consegui inventar nenhum motivo mais bonito para frequentar aquela matéria, como os outros fizeram quando perguntados, também nao consegui muitos resultados com a escolha de um tema. Explico: A aula consiste basicamente em uma conversa em grupo, com todos os alunos, cuidadosamente observada pela professora. Depois da discussao, fazemos uma outra discussao, dessa vez sobre a própria discussao, analisando como ela transcorreu. Mas para discutir tanto, precisamos de um tema. E por isso cada aluno deveria pensar em um tema que seria discutido nao próxima aula. Ela comecou no outro lado da sala, entao eu seria a última a falar. E fui observando os temas que surgiam: Percepcao seletiva em diferentes mídias, A influência de novas tecnologias no desempenho escolar, A reacao do público em relacao ao prêmio Nobel para Obama... e por aí vai. Enquanto isso, o único tema concreto que martelava na minha cabeca era primeiro encontro. E fui ficando cada vez mais tímida para falar meu tema, depois dos títulos que surgiram. E chegando minha vez, até tentei ensaiar qualquer coisa no sentido de propaganda, influência de propagandas ou algo assim, mas nao ia prestar. E falei:


- Como os casais se comportam no primeiro encontro.


A professora disse que era um bom tema. Mas eu nao imaginava como seria na votacao. Cada um deveria votar em 3 temas . E enquanto os outros tinham dois, tres votos no máximo, quando chegou a vez do meu, olhei pro lado e vi todas as maos para cima. E o meu tema, por mais simplório que possa parecer foi o escolhido.


Parece que apesar da pose toda, de todos os temas pomposos e rebuscados, os alemaes também querem saber é desses assuntos de mulher...

sábado, 17 de outubro de 2009

Mudaram as Estações












[caption id="attachment_562" align="alignleft" width="300" caption="Outono em Heidelberg"]Outono em Heidelberg[/caption]


Ontem eu remarquei minha passagem. Como nao era possível marcar um vôo com antecedência maior que 10 meses quando eu comprei a passagem no Brasil, tive que marcar a volta pra novembro. E agora, em outubro, depois de ter certeza de que eu nao vou mesmo mudar de família de novo, achei que já era hora de remarcar. Pra fevereiro, como planejado. E me veio, pela primeira vez, a sensacao de que eu vou embora. Agora, quando faltam mais de três meses pra isso acontecer. Mesmo que isso sempre tenha sido planejado, nunca tinha percebido tao claramente que um dia eu ia voltar. Agora que as árvores se tingem desse alaranjado que eu sempre achava tao bonito nos filmes e que anuncia a chegada do inverno. Agora que eu nao posso mais usar saias e vestidos e preciso de cachecol e luvas e protetor de orelha pra andar de bicicleta. Agora que as lojas já se enchem de guirlandas e renas e velas de canela e que as criancas aguardam ansiosas pela primeira neve. Para mim, que cheguei aqui no inverno, isso tem um significado muito maior. E sempre que eu esqueco minhas luvas em casa me vem a lembranca nítida de todo o frio que passei nas minhas primeiras pedaladas antes de comprar um par de luvas decentes. E eu nao posso deixar de sentir (literalmente) na pele que o fim está chegando. Nao posso deixar de pensar que mais cedo ou mais tarde eu vou largar a família, a bicicleta, a cidade e todos os amigos e hábitos que eu conquistei durante esses meses. E que vou voltar pra família, pra bicicleta, pra cidade, pros amigos e hábitos que eu deixei no Brasil.


O chato é que eu ainda nao descobri até agora se isso é bom ou ruim.


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Carol em Viterbo - Adendo




[caption id="" align="alignright" width="140" caption="Brasao da cidade"]Brasao da cidade[/caption]

Leia também Carol em Viterbo

As minhas buscas genealógicas nao foram muito além das pesquisas nas pracas e museus. Alguns parentes vao perguntar se eu nao perguntei a nenhum nativo sobre o sobrenome... E antes que os leitores mais sensatos também perguntem, vamos esclarecer alguns pontos:


1 - Eu nao falo italiano além do suficiente pra comprar sorvete, embora ainda tropecando em nomes como Straciatella.


2 - Eu nao falo inglês sem que a cada dez palavras doze saiam em alemao.


3 - Os italianos nao falam inglês e mesmo que falem, nao falam alemao para entender a língua híbrida que surge quando eu tento falar.


4 - Eu nao aprendi línguagem de sinais suficiente para me comunicar sem que me achem louca.


Só nesses quatro itens podemos perceber sérios problemas de comunicacao. E se tais problemas se manifestam na simples compra de um sorvete, imagine em assuntos mais complexos como pesquisar a genealogia da minha família? E o que eu deveria perguntar? Se a pessoa conhece alguém que supostamente morava em Viterbo e que há dezenas, talvez centenas de anos se mudou ganhando o nome da cidade como sobrenome e acabou se procriando no Brasil, gerando entre vários descendentes uma menina curiosa que estava agora fazendo perguntas sem cabimento sobre sua ascendência? E mesmo que eu conseguisse expressar isso em alguma língua que a pessoa entendesse, o que vocês acham que ela iria responder? Que conhece? Outra coisa, pra quem eu deveria perguntar isso? Um assunto de tamanha importância deveria ser tratado no mínimo com o prefeito, que certamente tem o registro de cada pessoa que um dia morou na cidade, para onde se mudou, qual o sobrenome adquirido e todos os descendentes por ela fabricados, com os respectivos dados dos descendentes até a minha geracao. Claro. Mas como o prefeito devia estar ocupado demais com a festa da cidade que ocorreria em dois dias e todos os preparativos e pré-preparativos que isso implica, talvez nao fosse uma idéia tao boa. Entao, deveria abordar alguém na rua? Se o prefeito tem um livro com o registro genealógico de todos os habitantes da cidade, é claro que todos os cidadaos de Viterbo têm a obrigacao moral de sabê-lo de cor. Entao nao custa tentar...


Carol: Oi! [longa pausa para se lembrar como se diz boa tarde em italiano]Buona sera!


[Considerando a hipótese de que a pessoa abordada ache que vale a pena falar com alguém que diz boa noite quando o sol ainda está tao forte que a pessoa tem vontade de voltar para a sesta]


Pessoa abordada: Oi.


[Considerando a hipótese de que eu decorei o manual de conversacao de italiano nos segundos entre o Buona sera e o oi da pessoa abordada]


Carol: Eu me chamo Carol de Viterbo


Pessoa abordada: Valentina Rossi. Muito prazer.


Fim do diálogo.


[Considerando agora a hipótese de que a pessoa abordada considere no mínimo curioso o fato de o meu sobrenome ser o mesmo nome da cidade que ela mora]


Pessoa abordada: Seu sobrenome é Viterbo? Que interessante! Você sabe porque?


Carol: Nao.


Fim do diálogo


[Considerando agora a hipótese de que eu falo italiano fluentemente]


Carol: Boa tarde! Eu estou fazendo uma viagem em busca dos meus ancestrais e gostaria de saber mais sobre a origem do sobrenome Viterbo, que por acaso é o meu sobrenome. Eu tenho a teoria de que esse sobrenome pode ter tido origem quando um morador de Viterbo se mudou da cidade e passou por isso a ser conhecido pelo sobrenome "de Viterbo". Isso pode ter acontecido há algumas dezenas, talvez centenas de anos. Você sabe de alguma família que se mudou da cidade nessa época e provavelmente depois para o Brasil, onde teve vários descendentes, entre eles eu?


Pessoa abordada: Nao.


Fim do diálogo.


[Considerando a hipótese de que a cidade de Viterbo é realmente mágica e que se abra um portal de luz no momento em que eu piso na cidade, fazendo com que todas as minhas vontades se realizem]


Pessoa abordada: Você se chama Viterbo? Mas era exatamente quem eu estava procurando! Eu sou pesquisador e passo o meu tempo livre tracando a árvore genealógica das famílias mais antigas da cidade e acabei descobrindo um antigo morador que se mudou daqui há muito muito tempo e passou a ser conhecido pelo sobrenome de Viterbo. Ele se mudou para a cidade de Sabará, no Brasil, na época da corrida do ouro em Minas Gerais e conseguiu uma boa fortuna, além de muitos filhos. Anos mais tarde ele largou a família, pegou todo o ouro que tinha conseguido e voltou para Viterbo, o que fez com que a família no Brasil nunca mais mencionasse qualquer ascendência italiana, apesar do sobrenome que foi mantido. Em Viterbo ele construiu uma casa, mas nao gerou mais descendentes. No fim da vida, amargurado com sua solidao, ele escreveu um testamento deixando toda sua fortuna enterrada na casa para o primeiro descendente com esse sobrenome que visitasse a sua cidade. E eu passei toda a minha vida esperando que alguém com essa descricao aparecesse na cidade. Finalmente posso me livrar de todo o ouro que foi mantido sob minha responsabilidade! E nao é só isso! Por você ser descendente de um italiano em 53° geracao, recebe ainda o título de cidada italiana, além da chave da cidade!


Fim do sonho.


Mas, voltando pra realidade e considerando a hipótese de que o portal de luz nao foi aberto e de que eu nao conseguiria passar do buona sera com meu italiano, que acabaria tentando em inglês e alemao, com resultados ainda mais desastrosos, que faria até mímicas para me fazer entender, pegando por fim meu passaporte e apontando o meu nome, o mais provável de acontecer, caso a pessoa nao fugisse com medo de mim antes de entender, seria o seguinte.


Pessoa abordada: Ah, sim, seu sobrenome é Viterbo. Meus parabéns.


Fim do diálogo.


Portanto, considerando que ninguém precisa enfiar o dedo na tomada pra saber que dá choque e que focinho de porco nao é tomada, me recuso a enfiar o dedo em qualquer nariz de porco pra ter certeza da meleca que seria caso eu tentasse.


Fim do post.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Carol em Viterbo

[caption id="attachment_555" align="alignleft" width="150" caption="Vista do palácio do Papa"]Vista do palácio do Papa[/caption]

Leia também Carol de Viterbo


Quando avistei os portoes da cidade de Viterbo, percebi que já tinha valido a pena ir até lá. Andar pelas ruas da cidade já davam a sensacao de estar em uma espécie de sonho. Talvez por eu realmente estar realizando um sonho, ou talvez por as casas tao antigas transmitirem uma sensacao de viver uma cena de filme. Medieval. Dava pra imaginar os cavaleiros e damas e clérigos andando pelas pracas da cidade. Ou os feirantes que certamente existiam em algumas ruas estreitas. A cidade parecia ainda carregar sua história e sua magia em cada uma das pedras que compunham suas calcadas e casas. E cada passo parecia me transportar a um mundo diferente, em que eu podia ser o que eu quisesse, vivenciar o que eu sonhasse. Era isso ou o sol estava realmente muito forte.


Àquela hora, a cidade parecia nao ser habitada por mais ninguém além das damas e cavaleiros da minha imaginacao. Todas as portas fechadas, nao se ouvia nada nem ninguém nas ruas, cujos contornos pareciam se dissolver na tarde. Igrejas fechadas, portoes trancados e as sorveterias que eu jurava ver pelo caminho e desapareciam quando eu olhava mais atentamente, nao podiam ser nada além de miragens. Os italianos, que conhecem o próprio sol, faziam exatamente o contrário dos turistas insensatos que resolviam viajar nas horas mais impróprias. As lojas traziam afixado na porta o horário de atendimento: 8:00-12:00/16:00-20:00. E esse é um horário que os italianos realmente respeitam. A cidade dormia sob o ar tépido da tarde. Nenhum mosquito ou banca de jornal se arriscava a permanecer acordado. O único ser vivo que se aventurava pelas ruas de Viterbo era a turista de mesmo nome, em sua busca incessante por estátuas e cartoes postais. E à medida que eu andava, que o sol andava, que o tempo andava, foi-se notando aqui e ali um movimento, até que as casas se espreguicaram, as portas se levantaram e em um bocejo toda a cidade se abriu, como se o sol acabasse de nascer.


Nao tinha tanto tempo na cidade... Nao daria de qualquer forma para descobrir meus antepassados. Mas era de certo modo divertido imaginar onde que eles teriam vivido - se é que realmente viveram lá. E comecei a procurar nos nomes de estátuas e retratos alguma referência ao sobrenome Viterbo. Porque claro que se é parente meu, tem que ser famoso. No mínimo tem que ter uma estátua na praca da cidade. Acabei descobrindo que todas as referências a Viterbo - que nao eram tao difícieis assim de se encontrar, uma vez a cidade tem esse nome - pertenciam a santos e clérigos. Porém, considerando que eram santos e clérigos, acho pouco provável que tenham tido descendentes, a menos que nao fossem tao santos assim. Mas mesmo com essa hipótese, acho que dificilmente os supostos filhos bastardos conservariam os supostos sobrenomes, ainda mais se supostamente morassem em Viterbo. Acho que eu podia entao parar de procurar nas igrejas. E encontrei em uma praca a única estátua fora das igrejas com uma que se assemelhava a um sobrenome: A Mazzini Viterbo ou qualquer coisa assim. Mas a probabilidade de esse nome ser meramente uma referência à cidade era tao grande que resolvi pesquisar no Google antes de ficar empolgada e contar pra vocês. E se o Google nao conhece ninguém com esse nome, é porque nao existe mesmo.


Seguindo a recomendacao da Quel, fui ao museu da cidade e lá descobri que o nome da cidade vem de Vetus Urbs, que significa Cidade Antiga. O que leva a pensar que, se quando foi batizada a cidade já era velha, a possibilidade de encontrar meus antepassados era ainda mais remota. E fiquei feliz pela mudanca de nome. Chamar Carol da Cidade Velha nao seria lá tao interessante. Mas sinceramente a cidade é muito mais do que um campo de pesquisas genealógicas. E acho que foi muito mais interessante passear por ela sem me preocupar tanto com o fato de ela ter o mesmo nome que eu. E aproveitando o fato de que o sorvete em Viterbo era incomparavelmente mais barato do que em Roma, pude apreciar as paisagens da cidade, todos os prédios históricos, todas as ruas que nos trazem a sensacao de estar viajando no tempo. Por alguns momentos eu nao era mais apenas uma turista curiosa com a origem do nome. Eu era o meu próprio nome e tinha encontrado nao a minha origem, mas a mim mesma.


Mas isso já está filosófico demais. O fato é que eu fiquei feliz de ter perdido o penúltimo trem que saía da cidade e de poder desfrutar mais algum tempo, ainda que fossem duas horas, dessa atmosfera um tanto quanto mágica. Fiquei apenas um pouco triste por nao ter ido às fontes termais, pelas quais a cidade é conhecida. Mas ainda há tempo pra isso. Nao acredito que essa tenha sido minha única visita à cidade. Afinal de contas, ao contrário de tudo que possa ser dito, um dia é decididamente muito pouco para conhecer uma cidade que se chama Viterbo.


Continua...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Receita para fazer um bolo de cenoura na Terra da Batata

Ingredientes:

2 amigos alemaes com fome interessados na culinária brasileira
Uma república com cozinha
Uma família alema responsável pela sua alimentacao
Vontade de cozinhar



Modo de preparo:
Vá à despensa da sua família enquanto eles nao estiverem em casa e se muna de todos os ingredientes de que eles nao vao sentir falta e que um dia podem ser necessários para sua alimentacao quando você resolver se aventurar por outros territórios. Junte os ingredientes e deixe-os descansarem no armário de sua cozinha até que você sinta vontade de usá-los. Quando chegar a fome vontade, perceba que sua família está em casa e que você nao tem todos os equipamentos necessários para cozinhar naquele momento. Leve em consideracao que é o seu único dia de folga na semana e que se você falar com sua família que vai cozinhar, vai ter que cozinhar para todos eles. Constate que fazendo isso você estará trabalhando e nao terá tido portanto nenhum dia de folga na semana. Abandone a idéia. Pegue o telefone e ligue para alguns amigos alemaes. Pergunte se eles têm uma cozinha que você possa usar estao com vontade de cozinhar. Escute eles respondendo que nao. Diga que eles nao precisam cozinhar, que você cozinha e eles lavam as vasilhas nao precisam fazer mais nada. Junte os ingredientes na sua mochila e pedale até a república onde um deles mora. Suba cinco andares de escada carregando cinquenta quilos nas costas. Tire os sapatos. Tire a mochila. Vá até a cozinha. Volte pra pegar a mochila. Tire os ingredientes da mesma. Volte com a mochila para o hall de entrada. Volte para a cozinha. Coloque a farinha, o acucar, o leite sobre a mesa. Peca para os amigos mostrarem os ingredientes que têm disponível. Observe eles colocando ovos, 4 maçãs e 50 cenouras sobre a mesa. Decida fazer uma torta de maçã. Lembre-se de que você também trouxe canela. Volte para o hall de entrada, abra a mochila, procure a canela. Nao encontre. Volte para a cozinha. Decida que torta de maçã precisa ter canela. Decida ir ao supermercado para comprar canela. Calce os sapatos. Coloque a mochila. Desça as escadas do prédio e ao chegar no térreo, lembre-se de que é domingo. Constate que domingo na Alemanha nao tem nem padaria aberta. Amaldiçoe a vida. Suba novamente os cinco andares de escada. Tire os sapatos. Tire a mochila. Encontre a canela no chao do hall de entrada. Amaldicoe novamente a vida. Entre na cozinha e descubra que seus amigos comeram duas das maçãs disponíveis. Amaldiçoe seus amigos. Resolva que as duas maçãs restantes nao sao suficientes para fazer uma torta. Lembre de que está com fome. Coma uma maçã. Observe os ingredientes restantes. Decida fazer um bolo de cenoura. Lembre-se de que você nao tem a receita. Decida improvisar. Mande um dos amigos descascar as cenouras. Escute ele reclamando que você tinha dito que ele não precisaria fazer nada. Diga que a culpa é dele, por ter comido as maçãs. Pegue uma vasilha de plástico e coloque a farinha dentro dela. Adicione açúcar e ovos. Lembre-se de que a receita tinha que ter óleo. Pergunte ao amigo que nao está fazendo nada se eles têm óleo em casa. Explique pra ele que azeite de oliva nao combina exatamente com um bolo de cenoura e que você precisava de um óleo sem sabor. Escute-o falando que azeite nao tem gosto e discorde. Tem gosto de azeite. Ignore o comentário dele de que o único óleo disponível além daquele é óleo de banho. Decida que manteiga deve produzir o mesmo efeito e materialize a manteiga na geladeira deles. Lembre-se de que a receita original era feita no liquidificador e pergunte a eles onde fica aquele objeto grande com lâminas que giram em um copo para triturar alimentos e que você não sabe como se chama. Escute um deles respondendo "helicóptero?". Reúna os restos mortais de sua paciência e explique novamente. Balance a cabeca enquanto eles mostram a batedeira, o mixer, um espremedor de laranjas e um ralador giratório que nem eles sabem como se usa. Constate que nao tem liquidificador.  Lembre-se que sua família alema também nao tem liquidificador. Reflita por alguns momentos como as pessoas conseguem sobreviver sem um objeto de tanto valor nas nossas vidas. Amaldicoe os alemaes. Leve em consideracao que cozinheira que é cozinheira consegue fazer um bolo até se faltar farinha ou o forno. Nem que seja de areia.  Pegue o mixer e observe-o com atencao. Uma laminazinha mixuruca pensada inicialmente apenas para misturar líquidos. Ignore o grupo de neurônios que grita "nao vai dar certo! nao vai dar certo!". Lembre-se de que você já triturou legumes com um mixer na casa da sua família. Ignore o fato de que eles estavam cozidos e cortados em cubos pequenos. Pegue as cenouras. Decida que o mixer nao é tao fraco assim e corte as cenouras em pedacos grandes. Mande seus neurônios calarem a boca. Pegue o mixer e comece a misturar os ingredientes. Observe a nuvem de farinha de trigo que se forma em volta da sua cabeca e pousa na sua roupa que ocasionalmente é preta. Desligue o mixer. Amaldicoe mais uma vez a vida. Ignore os neurônios que agora riem da sua cara. Lembre-se de que se sua mae visse isso, sairia balancando a cabeca e falando "só podia ser a Carol na cozinha". Nao comente isso com seus amigos. Continue misturando os ingredientes tomando mais cuidado com a farinha de trigo. Resolva encarar o primeiro pedaco de cenoura. Veja que ele te encara também e que o mixer comeca a tremer na sua mao. De medo.  Lembre-se que sua fama de cozinheira está em jogo e decida ir em frente com a receita. Distraia-o e quando ele menos esperar, atire-o em cima da cenoura. Prepare-se para ver os resultados do massacre e perceba que a cenoura, além dos neurônios rebeldes, ainda está rindo da sua cara. Nao desista e persista com os ataques. Depois de 10 minutos, observe os resultados e constate que, se continuar nesse ritmo você nao vai comer bolo de cenoura antes de voltar pro Brasil. Ataque as cenouras agora com mais ferocidade. Olhe o resultado. Comece a chorar. Amaldicoe a vida, os alemaes, os seus amigos que te largaram sozinha na cozinha. Jogue o mixer dentro da vasilha e observe partes da massa grudando nas paredes, chao e teto. Pense em se jogar pela janela. Vá até a parede e bata a cabeca nela até os neurônios pararem de rir da sua cara. Seja surpreendido pelos seus amigos que entram na cozinha nesse instante. Diga a eles que você estava praticando uma técnica milenar chinesa para evitar o suicídio. Olhe para as expressoes assustadas deles enquanto examinam a cozinha e perguntam "você tem certeza que nao usou um helicóptero para fazer isso?". Mande-o à merda. Observe o outro se aproximar da vasilha e dizer "Putz! Que pessoa normal tentaria triturar cenouras desse tamanho com um mixer?". Atire a colher nele e diga que os normais entao que se quiserem continuem a fazer o bolo. Saia da cozinha e comece a arrumar suas coisas pra ir embora. Espere. Perceba que eles nao vao atrás de você. Mude de idéia. Ouca os barulhos da cozinha e veja que eles, ao contrário de todas as expectativas, resolveram aceitar o desafio e atacam as cenouras armados com o mixer e uma faca. Espere mais um pouco. Quando os ruídos do combate indicarem a vitória dos humanos sobre as cenouras, pense que talvez sua fama como cozinheira ainda nao esteja totalmente derrotada e entre na cozinha. Assista aos últimos momentos da batalha, em que o mixer à beira da exaustao tritura um pedaco de cenoura que tenta fugir pedindo piedade. Nao consiga disfarcar o sorriso no rosto depois de ver as cenouras derrotadas. Finja que nao aconteceu nada e, sem esperar muito tempo, reassuma o comando. Prove a massa e veja que falta acucar. Vire a metade do pacote de acucar. Misture mais um pouco. Coloque mais farinha e misture novamente. Repita o processo cerca de dezenove vezes. Prove mais uma vez e coloque mais acucar. Misture novamente e prove. Pegue o pacote de acucar e escute os alemaes protestando. Vire o resto do pacote e diga que eles nao entendem nada de bolo. Ignore os risinhos de deboche deles. Tente lembrar o que pode estar faltando. Continue misturando. Ligue o forno a 180°C. Continue misturando e tente combater a sensacao de que está faltando alguma coisa. Unte a forma e por via das dúvidas, enfarinhe. Já deu coisa errada demais até agora. Vire a massa na forma untada e enfarinhada e depois de colocá-la no forno, fechar a porta e dar gracas a Deus por nao ter acontecido mais nada, escute um grupo de neurônios gritando das profundezas do seu cérebro: "o fermento!!!". Bata a mao na testa com toda a forca que conseguir reunir. Comece a chorar. Vá até a parede e bata a cabeca nela até que seus neurônios aprendam a nao esquecer das coisas desse jeito. Tire o bolo do forno. Pergunte pelo fermento. Escute eles dizendo que nao tem. Nao acredite e procure você mesma. Constate que realmente nao tem. Sente-se com as pernas cruzadas, feche os olhos, respire fundo e mentalize que um pacote de fermento está aparecendo nas suas maos. Veja as cores dele. Sinta a textura dele. Abra os olhos. Veja que nao funcionou. Chegue a conclusao de que com manteiga é mais fácil. Considere a possibilidade de fazer um bolo sem fermento. Descarte a possibilidade. Nao se dê por vencida e pense que ao menos uma pessoa nesse prédio vai ter um pacote de fermento. Desca as escadas até o andar mais próximo, bata a campainha, faca a melhor cara de cachorro sem dono que você conseguir e pergunte "moça, voce tem um pacote de fermento pra me arrumar?". Veja-a balancando a cabeca e batendo a porta na sua cara. Repita o processo cerca de três vezes. Antes de desistir de tudo e resolver fazer em vez disso a torta de maçã, chegue no primeiro andar do prédio quase sem esperancas e pergunte pelo fermento. Prepare-se para ir embora e fique surpresa ao ver que ainda nao bateram a sua cara na porta a porta na sua cara. "Tenho sim", escute a mocinha respondendo. Pegue o pacote de fermento, prometa um pedaco de bolo pra ela e volte para o quinto andar. Pergunte-se porque é que a única pessoa no prédio que tinha um pacote de fermento morava justamente no primeiro andar. Amaldicoe quem inventou as escadas antes de existir o elevador. Volte pra cozinha. Tire a massa da forma, outrora cuidadosamente untada. Mande um dos amigos lavar a forma. Mande o outro untá-la. Misture o fermento à massa. Vire a massa novamente na forma. Coloque a forma no forno e reze para no fim de tudo ainda nao acabar o gás. Enquanto aguarda, prepare a cobertura de chocolate, aguentando mais uma dose de protestos "chega de acúcar!". Sinta o cheiro de bolo pronto e retire-o do forno. Usando uma luva, peloamordedeus, já chega de acidentes. Desenforme, cubra com a calda de chocolate e chame os amigos para ver que afinal de contas deu alguma coisa que preste comer. Perceba que você colocou farinha demais, mas que no fim das contas acabou faltando acucar. Nao admita que eles falem nada. Receba os elogios e veja que sua fama nao está tao abalada assim. Ouca a sugestao de um dos amigos de que devia ter pedacos maiores de cenoura e vire o bolo na cabeca dele. Mas separe alguns pedacos antes disso. Coma tudo, para mostrar pros seus neurônios que você pôde tirar alguma coisa boa disso tudo. Fique com dor de barriga.

Cozinha depois de conhecer a Carol

Repita todos os passos uma vez por semana até chegar à conclusao de que:

1 - Nem tudo na sua vida dá tao certo como uns e outros pensam;

2 - Mesmo nao dando certo, acaba dando certo;

3 - Nao existe bolo tao ruim que nao acabe em pizza.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Todos os caminhos levam a Roma - Parte Final

Leia a Parte III aqui


Deixei pra visitar o Vaticano no meu último dia em Roma. Seria o dia mais religioso, com direito à Basílica de Sao Pedro e todas as capelas famosas a que eu tinha direito. E nada como vestir trajes adequados para a ocasiao (O quê, a Carol vestida de freira?? Pergunta-se o leitor, confuso). Explico: No Museu do Vaticano e na Basílica, é vetada a entrada de pessoas trajando camisetas regatas ou mostrando mais da metade das pernas - ou seja, a maioria dos turistas sensatos para suportar o calor de Roma. Mas sabendo das regras, tive o cuidado de me vestir de acordo, sem ombrinhos de fora e com uma saia até o joelho. Ninguém precisava saber, é claro, que minha saia tem uma abertura que faz com que ela levante vôo ao menor sinal de vento, deixando muito mais do que metade das minhas pernas à mostra. Até procurei um alfinete pra deixar a coisa mais segura. Até fita crepe tava valendo. Mas eu nao tinha incluído os itens na minha mochilinha de 20 quilos. Ia ter entao que, literalmente, segurar as pontas. Mas era isso ou usar calca, o que com o calor italiano seria quase suicídio. E é melhor morrer apedrejada pelo uso de roupas indecentes na Casa do Papa do que derreter no meio da rua, antes de alcancar os portoes.


Depois de identificar para onde eu tinha que ir e notar a quantidade de turistas que rumavam para a mesma direcao, nao pensei duas vezes antes de acelerar a marcha e brincar de quem-chegar-por-último-é-a-mulher-do-padre com eles. Tentando, é claro, fazer isso discretamente, antes que os outros percebessem minha idéia e resolvessem entrar na brincadeira. E lembrando de segurar a barra da saia. Depois de várias ultrapassagens, esperava encontrar ainda uma fila no mínimo bem gordinha. Mas nao. O dia da visita era um domingo, um dia de visitacao normal, segundo meu guia de viagem, exceto pelo fato de que o museu fechava mais cedo. O que eles nao fizeram o favor de informar é que ele ficava normalmente fechado aos domingos. E eu teria tido muito azar se eu tivesse comecado a viagem em qualquer outra semana. Mas no último domingo do mês, além de eles abrirem nao só uma excecao como o museu também, a entrada era gratuita. E depois de saber que o Panteao já tinha sido mandado pra conta do Papa - em todos os sentidos - fiquei feliz de nao precisar engordá-la ainda mais. E em uma fila com cerca de 10 turistas na minha frente andando surpreendentemente rápido, fiquei tao feliz com a notícia que até esqueci de segurar a saia por alguns momentos. O vento, que parecia estar só aguardando por um momento oportuno, nao se fez de rogado. Vuuch! E lá se foi a saia pro alto. Os turistas que tinham sido ultrapassados sorriram com um ar de vinganca, enquanto eu tentava domar novamente o pedaco de pano rebelde. Olhei receosa pro seguranca que devia estar ali pra inspecionar as roupas dos visitantes e me perguntei se ainda poderia entrar com uma roupa tao instável.


- Fica tranquila que lá dentro nao venta nao - disse ele sorrindo.


E fui apressada em direcao ao abrigo seguro. Só nao imaginava ser tao seguro assim. Equipamentos dignos de qualquer alfândega. E acredito que eles realmente revistem as pessoas e olhem minuciosamente pelo raio-x à procura de bombas, canivetes, camisinhas e quaisquer outros artefatos perigosos à integridade física e moral da Igreja. Mas nao naquele dia. Os funcionários, aparentemente desacostumados a trabalhar no domingo, preferiam bater papo, tomar café ou ficar observando os ponteiros do relógio se movendo do que efetivamente fazer um controle dos visitantes. E todos os italianos que aguardaram ansiosamente o domingo livre para visitar o Vaticano puderam entrar impunemente com todos os seus artefatos terroristas. A falta de rigor do controle fez com que se permitisse a entrada nao só de saias rebeldes, mas de shorts no melhor estilo É o Tchan e camisetas que deixavam bem mais que os ombros de fora. Os guardas pareciam apreciar a bela manha de domingo enquanto caminhavam tranquilamente pelos corredores. E nao se importavam muito se os turistas tiravam fotos abracados com as estátuas.


E que estátuas! Os corredores estavam repletos delas, enfileiradas, como se aquilo fosse na verdade um depósito, nao uma exposicao. Cada centímetro das paredes, teto e piso estavam cobertos por obras de arte, de mosaicos a afrescos, numa intensidade e quantidade que faziam com que deixassem de ter valor artístico para se tornar no máximo objetos de decoracao. E era preciso um olhar muito mais cuidadoso para que tudo isso permanecesse obras de arte. E nao fazer como os outros turistas que tiravam fotos com qualquer uma (abracados de preferência) sem ter a menor nocao do que aquilo realmente era além de uma estátua. E é claro que eu nao analisei cuidadosamente cada uma delas. Precisaria de muito mais do que as poucas horas que estive lá pra isso. Mas certamente a impressao que elas e todos os outros objetos me causaram foi a de que o Papa tem muito, mas muito mais que o Panteao em sua conta. Cada centímetro do Vaticano parece falar pro visitante: - Está vendo o tanto que eu sou rico? Enquanto os turistas boquiabertos se curvam perante a soberania de uma instituicao que conquistou todo o seu poder às custas dos fiéis.


Sei que tudo o que eu digo tem resquícios muito nítidos de uma época em que eu odiava a Igreja. Hoje nem tanto. Já consigo entrar nelas. Embora assistir a uma missa seja pedir demais. Apesar de tudo, valeu a pena essa visita. E recomendo pra qualquer um que vá a Roma e tenha o mínimo de interesse por história e arte. Só lembre de deixar para o final da viagem. Porque depois de ver tantas estátuas (incluindo a Pietà, na Basílica), tantos objetos arqueológicos (incluindo uma múmia de verdade sem as bandagens no museu egípcio), tantas pinturas e afrescos (incluindo o teto da Capela Sistina, que parece que vai realmente cair sobre você), você acaba achando que todo o resto é apenas resto.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Todos os caminhos levam a Roma - Parte III

Leia a Parte II aqui


Ver o Coliseu da janela do aviao foi bem diferente do que vê-lo de perto. Vendo de cima nao pude deixar de compará-lo com o estádio de futebol que se erguia por perto. E meu único pensamento possível foi: É pequeno, né? Mas nao é. É realmente grandioso. E só nao posso compará-lo por dentro com um estádio porque minha única base de referência seria o Independência. E a última - ou foi a única? - vez que entrei lá, pra assistir ao jogo histórico Santa Tereza X Atlético, foi só porque o meu irmao estava jogando. Num campeonato mirim, é claro. E claro que nao pelo Atlético, como ele ia gostar que eu ressaltasse. E considerando que eu devia ter mais ou menos a metade do tamanho que eu tenho hoje, o estádio pareceu digamos, um pouco maior do que é na verdade. Nao, definitivamente isso nao é base de referência. Mas, como estudos recentes indicam que os antigos romanos nao jogavam futebol, a comparacao é mais do que dispensável.





Esse dia tinha sido reservado para visitar a Roma Antiga (quer dizer, a parte mais antiga dela, porque parece na verdade que cada construcao da cidade pertence a algum período histórico). Isso significa que eu vi uma quantidade de ruínas tao grande que comecei a achar normal. E descobri nesse dia, que a maior parte das ruínas de Roma se escondia ainda embaixo das casas atuais. O que significa que quando as casas anteriores eram destruídas os romanos apenas jogavam entulho por cima e construíam por cima desses restos suas novas casas. Pelo menos foi o que eu entendi. E a impressao que se tem, quando andamos pela cidade é de que a qualquer momento pode aparecer uma ou outra ruína. O que realmente acontece. Você está passeando tranquilamente pela cidade entre prédios modernos (ou no mínimo nao tao antigos), carros barulhentos e vendedores ambulantes e eis que de repente nao se sabe como nem porque, brotam no chao toneladas de resquícios da Roma Antiga. E você é obrigado, ainda que por poucos segundos, a parar o que estava fazendo e prestar atencao naquele pedaco de história jogado no meio da rua. Nem que seja pra tirar uma foto e continuar andando. A sensacao é de estar caminhando por um sítio arqueológico permanente, onde até as criancas devem precisar de uma autorizacao especial pra cavar buracos no quintal de casa.


Mas o que mais me daixava fascinada nessas ruínas eram os templos. Sempre adorei mitologia grega e romana e era louca para conhecer um verdadeiro templo antigo. Ficava imaginando todas as estátuas que deveria ter, como seria adornado, se havia ainda alguém que cultuasse esses deuses, se eles seriam realmente ainda deuses além de personagens da mitologia. E fiquei feliz de saber que ainda existia um templo antigo inteirinho em Roma. O Panteao, como o nome diz, foi construído para a adoracao de todos os deuses e é segundo a Wikipedia o único edifício antigo que se encontra em perfeito estado de conservacao. Pelo menos era o que eu achava antes de entrar nele. E me deixou realmente chateada descobrir que, independente da história de um monumento, independente do seu significado e simbolismo, independente de tudo o que ele representou e poderia representar, ele pode ser friamente reduzido a mais uma propriedade da Igreja Católica. Assim, ao entrar no Panteao, me vi cercada nao por estátuas dos deuses, mas de santos. No lugar de todo o simbolismo histórico foram pendurados crucifixos. No altar onde eram realizadas as oferendas aos deuses hoje sao rezadas missas. E percebi que todos os antigos devotos tinham morrido junto com a Roma Antiga. No seu lugar ficaram apenas velhas beatas e iludidos que como eu achavam que as antigas crencas eram imunes à ruína. Mas depois de ficar sabendo que nem o Panteao escapa do domínio eclesiástico, resolvi descobrir finalmente o que mais se escondia por trás das posses da Sua Santidade.


[Continua...]






sábado, 19 de setembro de 2009

Todos os caminhos levam a Roma - Parte II

Leia a Parte I aqui


Saindo de tardezinha do camping, resolvi ir aos lugares de Roma que se podia visitar à noite, como as pracas e fontes.


- É bom que tem menos gente - pensava eu com meus botoes.


Chegando na Piazza Spagna, famosa por sua escadaria onde os turistas gostam de se sentar, o que, sabe-se lá porque é uma tradicao do lugar, fiquei assustada ao constatar que nao existia mais escada. No lugar dela resolveram empilhar dezenas, centenas de pessoas que se espremiam e se acotovelavam para disputar o que talvez um dia tenham sido os degraus da escada, mas que estavam agora ao que parece irremediavelmente soterrados por corpos. Vivos, é claro. O que tornou minha escalada ainda mais difícil. Mas depois de passar por algumas dúzias de cabecas, consegui finalmente atingir o alto da escadaria, no pórtico de uma igreja que tinha uma bela vista de Roma e estranhamente, muito menos turistas do que a tal escada. Talvez eles fossem desistindo de subir no meio do caminho. Ou talvez sentar na escada fosse mesmo por si só um evento turístico. Ainda que os próprios turistas nao soubessem o motivo.


Fui fazer uma caminhada entao entre os muitos prédios históricos de Roma. Meu objetivo era chegar na Fontana di Trevi, retratada em um dos meus filmes preferidos, Elsa & Fred. Nesse filme, a personagem realiza seu sonho de se banhar na Fontana di Trevi, inspirada pelo filme La Dolce Vita. De madrugada, a fonte está deserta, contando apenas com a presenca de outro personagem que assiste à cena e um gatinho. E é engracado como as imagens dos filmes ficam na nossa mente. Nao era de madrugada naquela hora, mas já de noite, numa hora em que todos os alemaes sensatos já estariam na seguranca dos seus lares. Mas parecia que na Itália as coisas eram um pouquinho diferentes. E só de olhar para a fonte, pude perceber que as cenas mostradas nos dois filmes seriam impossíveis nos dias de hoje. Por alguns momentos tive a sensacao de que todos os turistas sentados na escadaria de Spagna resolveram pegar um atalho e sentar antes de mim na beira da fonte. E se a fonte nao fosse tao grande, tao maior do que aparenta ser nos filmes, também nao daria para vê-la. Mais tarde eu descobri que nem os cartoes postais conseguem fotos dos monumentos de Roma sem nenhum turista aparecendo. Só em producoes cinematográficas mesmo... Muitos turistas cumpriam o ritual de jogar uma moeda na fonte para assegurar que voltariam à cidade. Eu, que ainda nao sabia se queria voltar ou nao, achei melhor comprar um sorvete que jogar meu dinheiro na água.


Eu sempre precisava pegar o metrô pra voltar pro Camping. E toda vez que eu chegava na estacao tinha a sensacao de estar indo na direcao errada. Sempre esperava que o metrô viesse de um lado e na verdade vinha de outro. Depois percebi que os metrôs de Roma sao no sentido contrário dos carros, ou seja, viajam sempre à esquerda, enquanto os carros, à excecao da Inglaterra e de algumas ruas estranhas de Curitiba, dirigem à direita. Eu tinha entao sempre que tomar cuidado pra nao entrar no metrô errado e acabar voltando pro lugar de onde eu tinha vindo. E juntando isso à hitória da moeda, comecava lentamente a entender porque é que costumam dizer que "todos os caminhos levam a Roma".


Continua...




sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pós Aniversário

Foi bom, no fim das contas. Apesar da manha cinza e vazia, o dia foi se preenchendo de muitas cores e sabores mais que coloridos. Um amigo, talvez o único aqui, me convidou pra tomar café da manha às 2 da tarde, às 4 minha família preparou uma festinha bem no estilo alemao pra mim, com bolo feito em casa, velinhas e suco de maca. Ganhei um curso de tango de 8 semanas, um romance sobre danca e dois ingressos para uma apresentacao do Cirque du Soleil em novembro, já com as passagens de trem. Conversei longamente com minha Gast, como amiga. Contamos histórias, trocamos confidências e ela me deu alguns conselhos que serao certamente úteis. Fui dancar à noite e, como tradicao da danca, ganhei uma "Valsa", que na verdade nao é valsa, é tango, mas uma música em que todos os homens dancam com a aniversariante. E apesar da vergonha de dancar na frente de todo mundo e da sensacao de estar errando todos os passos, foi bom. Cheguei em casa cansada e com a sensacao de ter aproveitado bem o dia.


Quanto às mudancas que o aniversário sempre me reserva, dessa vez nao foi diferente. E as mudancas que se alinham agora talvez mudem definitivamente o curso da minha história. Mas talvez seja melhor assim. E nao tenho como saber se nao tentar. Se eu vou contar? Aí já é outra história...


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

23

Queria escrever um post bonito e animado sobre o dia de hoje. Queria falar da festa que vou fazer, dos amigos que vou encontrar, dos presentes que vou ganhar, dos telefonemas que vou receber. Queria falar que apesar do frio que fez toda a semana e da chuva que caiu, o sol brilhou hoje mais forte e eu acordei com uma vontade imensa de abracar o mundo todo, tamanha a minha felicidade. Queria falar que meu amor me trouxe café da manha na cama e que me acordou cantando baixinho no meu ouvido. E que minha família me recebeu com abracos, surpresas e presentes. E que eu encontrei com cada um dos amigos de quem eu sinto tanta falta agora. Mas nao posso.

Hoje nao tem festa, nao tem amigos, nao tem presentes. Hoje o dia amanheceu nublado e feio como todos os outros dessa semana e nao tem nenhum indício de que hoje seja um dia especial pelo menos para uma pessoa nesse planeta. Hoje eu acordei triste e me senti sozinha e abandonada.


Os amigos que eu tanto queria encontrar nao existem aqui. E nao tem ninguém que eu pudesse convidar se resolvesse fazer uma festa. Mas nao tem festa. E sinceramente nao sei bem se quero comemorar.


Recebi várias mensagens de amigos meus que resolveram falar ao mesmo tempo o quanto gostam de mim, o quanto sentem minha falta e que perguntam quando eu vou voltar. E pela primeira vez em todo esse tempo, tenho vontade de responder: hoje. E de entrar no primeiro aviao para o Brasil só pra dar um abraco apertado em cada um deles. E poder dizer pessoalmente o quanto eu gosto deles também. Mas eu nao posso.


Vou ter que esperar cinco meses ainda até que isso possa acontecer. E usar, enquanto isso, as ferramentas que eu tenho pra falar com eles. E esse blog é talvez a principal delas.


Obrigada a todos vocês que me escreveram. Obrigada pelo carinho que têm demonstrado. Obrigada por serem sempre, apesar de toda essa distância, tao amigos. E obrigada acima de tudo por me lembrarem que eu tenho sim, afinal de contas, algo que comemorar. Amo vocês.



terça-feira, 15 de setembro de 2009

Todos os caminhos levam a Roma - Parte I

Roma nunca foi exatamente a cidade dos meus sonhos. Na verdade nunca tive tanta vontade assim de conhecê-la. Mas acho que seria quase criminoso se eu fosse pra Viterbo e nao conhecesse Roma, ja que as duas sao tao próximas. Assim, desde que eu decidi viajar pra Viterbo, Roma foi embutida no pacote, assim como algumas outras cidades italianas, de que ainda vou falar. Vista de cima, parecia uma cidade normal, à excecao de duas ou três ruínas que se destacavam dos outros prédios, mas nao tinha muita diferenca do que eu já vi aqui na Alemanha. Mas com os pés em chao firme, as diferencas em relacao à terra da batata já puderam ser percebidas nos primeiros minutos. Eu tinha resolvido viajar de calca e tênis, por causa do volume e peso que esses itens fazem na bagagem, rigorosamente controlada pela Ryanair. Mas foi só sair do ar condicionado do aeroporto pra nao desejar outra coisa além de poder tirar aquela roupa logo. Que calor! Eu, acostumada com o verao morno de Heidelberg, que até entao eu achava quente, quase derreti nas primeiras horas em contato com o sol italiano. Nem parecia brasileira. Mas como boa brasileira resolvi, pra economizar, pegar o transporte público pra ir pro centro de Roma.


- Tem três opcoes - falou a mulher do caixa - pegar um ônibus e depois um metrô, pegar um ônibus e depois um trem ou pegar um micro-ônibus que te leva direto.


- Qual é a mais barata?


Sentada na beira da calcada, os 15 minutos que eu deveria esperar pelo ônibus pareciam horas inteiras. E fiquei lá até perceber que mesmo pro tempo objetivo estava demorando demais. Depois de nova consulta ao horário dos ônibus vi que o ônibus que eu estava esperando já deveria ter chegado há 25 minutos e que eu devia esperar mais 40 para o próximo. E desiludida com o sistema de transporte italiano, acabei desistindo e comprando passagem pro micro-ônibus, que estava saindo naquele momento. E depois de entrar até evitei olhar pela janela pra nao ver o outro ônibus, tao esperado, chegando.


Chegando no centro de Roma, a primeira impressao que eu tive da cidade foi a mesma que eu tenho quando vou ao centro de Belo Horizonte. A de que ainda falta muito tempo até que os habitantes da regiao evoluam a ponto de aprender como se usa uma lata de lixo. Mas nao sei se minha comparacao foi justa... Talvez eu esteja apenas acostumada com a organizacao e limpeza alemas, a ponto de ficar chocada com um nível de sujeira que provavelmente é inferior ao de BH. Mas sei que a limpeza das ruas é uma das coisas que mais encanta os italianos que vao pra Alemanha, além da pontualidade dos ônibus.


E é claro que nao se pode ter uma impressao muito boa de qualquer lugar quando se carrega cerca de 20 quilos nas costas debaixo de um sol de 35 graus. Mas depois de pegar um metrô e mais um ônibus, chegar no camping onde eu fiquei hospedada, tomar um banho e vestir uma roupa mais adequada às condicoes climáticas da regiao, pude aproveitar melhor as belezas da cidade.


Continua...





segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Carol de Viterbo

De todas as cidades que planejei visitar, a única que tinha um motivo concreto era Viterbo. Sempre tive vontade de conhecer a cidade de onde vem meu nome. Carol de Viterbo. Como se fosse uma origem. O nome nao é nada comum no Brasil. Todas as pessoas com esse nome que eu conheco sao da minha família. E mesmo quando nao as conheco, é só conversar mais dois minutos pra descobrir tios e primos em comum. E que sao de Sabará. Belo Horizonte, no máximo. E acho engracado que nenhum desses parentes sabe ao certo a origem do nome. Sabem no máximo que é uma cidade italiana. Perto de Roma.


- Mas por que Viterbo e nao Nápole ou Florenca? O que tem nessa cidade?


- (...)


- E por que uma cidade italiana e nao mineira ou carioca?


- (...)


- A gente é descendente de italiano?


- (...)


- A gente nao tem nenhum parente italiano?


- Bem, o seu primo Fulano tem olho azul.


- Mas por que...


- Por que você nao vai ver se sua mae tá precisando de ajuda na cozinha?


- (...)


É por essas e outras que sempre tive vontade de conhecer a cidade. Mesmo que nao fosse pra descobrir a origem da minha família. Mas se o olho azul do primo Fulano realmente se justifica pela ascendência italiana, o que provavelemente aconteceu, nessa época incerta em que se formaram os sobrenomes, foi um morador de Viterbo se mudar da cidade e constituir família em algum outro lugar do planeta que nao se chama Viterbo, motivo pelo qual ele e os descendentes ficaram conhecidos pelo nome da cidade de origem. Afinal de contas, nao faria muito sentido alguém que mora em Viterbo se chamar "de Viterbo". Se fosse assim eu me chamaria Carol de Belo Horizonte, como todos os belo-horizontinos. Seguindo essa lógica, eu poderia procurar a família Viterbo em qualquer lugar do mundo, menos em Viterbo. Mas de qualquer forma eu queria conhecer a cidade. A questao é que Viterbo nao é exatamente uma cidade para onde as pessoas normais sem sobrenomes exóticos sonham em viajar. Nao é uma Paris ou Londres da vida que fazem as pessoas respirarem fundo, assumir um ar distraído e dizer displiscentemente, como se fizesse parte do seu dia-a-dia:


- Essa blusinha? Ah sim, eu comprei em Paris no ano passado... Ou será que foi em Londres?


Nao precisam contar, é claro, que ficaram no hotel mais barato que encontraram, que andavam de ônibus (algumas vezes até sem pagar passagem) e que estao até hoje pagando as prestacoes da viagem. O fato de terem ido a Paris já é impressionante o suficiente. Bem diferente das reacoes possíveis quando eu respondia para onde eu ia nas férias.


- Viterbo? O que tem nessa cidade??


Sinceramente nao sei. E era isso que eu queria descobrir quando planejei viajar pra lá. Mas considerando a quantidade de cidades potencialmente mais interessantes que existem nesse continente, resolvi nao fazer de Viterbo um destino principal, mas reservar um dia da minha viagem para conhecê-la.


- Pfff... Você precisa de no máximo duas horas.


Nao, nao daria tempo de descobrir meus antepassados ou requerer o título de cidada italiana ou receber a chave da cidade. Mas pelo menos eu realizaria um sonho para muitos da minha família. E seria sim, de certa forma, uma volta às origens.


Continua...