sexta-feira, 27 de março de 2009

Vinganca

Na sexta-feira, um dia depois de me mudar, fui me cadastrar na Prefeitura, informando meu novo endereco. Quando voce se muda de casa na Alemanha é obrigado a fazer isso. É também uma forma, no caso das au-pairs, de eles saberem se você mudou de família ou nao. E tem uma lei pras au-pairs que determina um limite de mudancas de família. Já ouvi dizer que sao três vezes, mas acho que isso varia de acordo com o estado. Uma outra lei diz que uma au-pair pode ficar até duas semanas sem uma família, senao nao pode mais ser au-pair. Eu estava um pouco preocupada com isso, porque nao sabia quando a Erika tinha me descadastrado. Eu tinha me cadastrado na casa da Cláudia, mas também nao sabia quando la teria me descadastrado. Provavelmente eu estava no momento oficialmente sem família e tinha medo de que isso causasse problemas com o visto.


Enfim, fui lá na prefeitura, me cadastrei e pra minha alegria, deu tudo certo. Ainda faltava resolver o visto, mas eu tinha que deixar pra semana que vem. Da prefeitura, como era tudo no mesmo bairro, acabei resolvendo fazer uma visita pra nossa velha amiga... Explico: Durante a semana a Erika tinha me ligado pedindo que eu devolvesse pra ela os livros que estavam comigo e que eram da biblioteca, porque ela tinha que devolver ou pagaria multa. Eu tinha ficado com eles pra estudar pra prova e até aquele momento nao tinha tido tempo pra pensar em devolvê-los. A última coisa que eu queria era voltar à casa branca, mas já que estava no caminho, resolvi passar lá e evitar que ela ficasse me ligando o resto da outra semana.


O plano era, como sempre, entregar os livros e ir embora, quase correndo. Mas ela, como da outra vez, me convidou pra entrar. Entreguei os livros e pra minha surpresa, ela também tinha algo pra mim. Minha mae tinha me mandado meu sapato de danca e algumas roupas que eu tinha pedido pelo correio fazia mais ou menos um mês. Como na época eu nao tinha saído da casa da Erika, ela mandou pro endereco de lá. E agora finalmente minha encomenda tinha chegado. Fiquei feliz nao só por poder finalmente fazer minhas aulas de danca com um sapato próprio pra isso em vez das sapatilhas velhas que eu costumava usar, mas também porque nao iria precisar voltar lá pra buscar depois.


A casa nao estava tao desarrumada como da outra vez. O clima também nao estava tenso. E a Erika parecia até feliz quando perguntou:


- E aí? Você vai se mudar?


Eu nao fazia muita questao de contar pra ela. Mas eu também estava feliz, entao respondi, tranquilamente:


- Ah, sim, eu já me mudei...


Ela fez cara de quem nao tinha entendido direito. Franziu levemente as sombrancelhas, mas se recompôs rapidamente. E perguntou, fingindo interesse:


- Ah é? E pra onde você foi?


Bem, eu teria que contar mesmo... Mas pude observar a reacao dela se transformando quando eu disse:


- Eu fui praquela família de Handschuhsheim mesmo...


Vi o sorriso dela se desmanchando e os lábios se contraindo numa raiva controlada, quando ela perguntou surpresa, quase que gaguejando:


- Ah... A-aquela família que você visitou na semana passada?


E o leitor já deve ter entendido o motivo da surpresa dela. Ela nunca poderia imaginar que depois de todas as coisas bizarras que ela com certeza falou de mim, alguma família em sa consciencia iria me aceitar como au-pair. Talvez a consciência da minha família nao seja tao sa assim. Ou talvez seja tao sa que questionou a sanidade da consciencia da Erika antes de julgar a minha. O fato é que ter dado certo pra mim apesar dos esforcos dela em contrário, foi como um balde de água fria. E o que eu podia fazer além de responder a pergunta dela? A verdade já era boa o suficiente:


- Sim, essa família mesmo... 


E acrescentei, ao me despedir, nao sem uma pitadinha de malícia:


- Talvez a gente ainda se encontre pelo bairro...



Será que posso chamar isso de vinganca?

Desculpas e agradecimentos

Queria primeiro me desculpar pela falta de atualizacao das últimas semanas. Foram realmente bastante atribuladas, porque entre outras coisas teve três aniversários aqui em casa, uma amiga do Brasil veio me visitar, tive que fazer minha primeira apresentacao (referat) da faculdade, fiz (pra variar) muitas compras, entre as quais inclusive meu notebook, o que significa que estou aguardando ansiosamente meu próximo salário, mas tenho dinheiro suficiente para fazer algumas comprinhas - o que é ainda mais perigoso. Mas ainda vou contar detalhadamente sobre isso... Tenho primeiro que voltar quase dois meses no tempo e tentar lembrar o que aconteceu naquela época - parece tanto, tanto tempo... Agora também acho que as histórias nao vao ter tanta sequencia quanto já tiveram. vou escrever - pelo menos esse é o projeto inicial - sobre alguns temas sobre que quero falar desde que comecei esse blog e sobre os quais o rumo dos acontecimentos nao permitiram que eu escrevesse. Vamos ver se dá certo. Ainda tem uma historinha com a participacao da nosa amada antagonista, mas talvez em um próximo post... Nesse eu ainda falo dos meus primeiros dias na nova casa, das primeiras impressoes, etc. Mas chega de metalinguagem e vamos ao post:


Uma coisa que eu percebi já na casa da Erika, é que fazer faxina - ou em termos mais politicamente corretos ajudar no trabalho doméstico - é um servico muito ingrato porque seus patroes nunca vao dizer: "Nossa, como a casa está limpa hoje!" Se nao for algo que salte muito ao olhos, como a ceramica que era marrom de repente ficar branca, ninguém vai dar muita atencao e podem nem perceber se voce trabalhou ou nao. Só vao perceber sua existencia se voce deixar de fazer alguma coisa ou se fizer algo mal feito. Pelo menos com a Erika era assim. Ela tinha todo dia uma reclamacao a fazer, ainda que fosse pelas canetas que eu nao guardei. E nunca percebeu as coisas que eu fazia mesmo sem ela pedir e que eu fazia apenas para tentar agradar. Mas, se me permitem um jogo com as palavras, a Erika nao é exatamente uma pessoa agradável.


Talvez nessa nova família eu tenha me dedicado mais do que nas outras. Ou talvez eles simplesmente sejam mais gentis. Ou as duas coisas. O fato é que sempre elogiam quando eu faco algo bem feito. Lembro de um dos primeiros dias que eu tinha chegado e passei pano no balcao da cozinha. Eu nao tinha feito nada demais, nao usei nenhum produto especial, apenas pano e água. Mas parecia que eu tinha reformado a cozinha, pelo que eles falavam: "a cozinha brilha como nunca!". Pode ser até que eles tenham combinado de falar isso ou que tenham aprendido pela experiência com as aupairs. Mas o fato é que um elogio tem um efeito psicológico tao agradável que voce passa a querer repetir o feito para receber mais. Pelo menos foi esse o efeito que teve em mim.


Depois de ter sido expulsa duas vezes de casa também, acabei desenvolvendo algumas estratégias para chamar a atencao dos patroes para o trabalho que eu faco. Assim, de vez em quando eu "esqueco" de guardar o aspirador de pó quando por exemplo eu nao precisava passar aspirador na casa e passei assim mesmo. Ou deixo pra fazer algumas coisas que nao sao exatamente atividades diárias básicas quando eles estao em casa. E eles geralmente elogiam. Trabalhar com motivacao é realmente muito diferente.


Eu nao podia apesar disso esperar que o período nessa nova casa fosse perfeito. É claro que desentendimentos existem em qualquer lugar, principalmente, quando se trata de família. Mas em geral foi muito bom esse primeiro período na nova casa. Até hoje porém nao posso deixar de comparar algumas coisas com a casa da Erika. É um impulso natural. Imagino como seria minha vida agora se eu ainda estivesse na casa dela. E sempre tenho certeza de que estou muito melhor agora. Nao posso deixar por isso de sentir uma certa gratidao por tudo que ela fez por mim. Afinal, sem ela nada disso seria possível. Obrigada, Erika!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Casa nova, vida nova

Depois de ter saído pra dancar com a Mathilde na quarta feira, chegado bem tarde em casa e acordado quase na hora do almoco, percebi que finalmente tinha chegado o dia de mudar de casa. E veio como sempre o frio na barriga, por nao saber o que aconteceria em seguida. Medo, de nao dar certo de novo, de acontecer qualquer coisa que me levasse a ter que procurar outra familia. Toda hora eu pensava que poderia nao dar certo, que essa viagem deles podia ser uma mentira e que eles na verdade mudaram de idéia. E foi com esses pensamentos que eu liguei pra Marion na quinta feira. E logo percebi que nao tinha motivo de preocupacao. Ela ia me buscar na casa da Mathilde, como o combinado e tudo o que eu tinha que fazer era esperar. Foi a primeira vez que eu comprei flores pra alguém. Queria presentear a Mathilde de alguma forma, por toda a ajuda que ela tinha me dado. E queria dar um presente de "boas vindas" pra Marion. Na Alemanha é quase uma obrigacao levar alguma coisa quando se visita a casa de alguém. Geralmente flores ou vinho ou chocolate, mas levar algo é uma regra de etiqueta. Claro que é diferente no caso de voce ir morar na casa que está visitando. Mas também é um costume entre as au-pairs levar presentes do país de origem pra família. Como eu já tinha gastado meus presentes com as filhas da Erika e nao ia comprar tudo de novo, as flores foram uma forma de presentear a familia toda, inclusive a casa.


A Mathilde aproveitava cada momento pra me dar dicas de como agir, o que fazer, dizendo pra eu me dedicar ao trabalho, etc. E continuou dizendo até o momento em que eu me despedi dela e entrei no carro da Marion. O frio na barriga porém nao tinha passado e eu ficava o tempo todo pensando o que fazer, como agir, etc. E realmente me dediquei bastante. Procurava sempre algo pra fazer e nao esperava que ela me pedisse. E tudo estava correndo muito bem.


Achei uma pena porém eu nao ter tido oportunidade de conversar com a ex-aupair. Quando eu cheguei ela ainda estava lá e iria embora no dia seguinte. Mas nos nao ficamos no mesmo quarto, no primeiro dia eu dormi no porao (e eu sei que falando assim parece que eu dormi no chao, num lugar sujo e escuro. Mas os poroes da Alemanha sao um pouquinho diferentes. E era como um quarto mesmo, só que no porao) e quando eu acordei só a vi de relance enquanto ia ao banheiro. E depois que eu saí do banheiro ela nao estava mais lá. Pensei até se tinha acontecido alguma coisa, se tinha tido algum problema com ela. Parecia até que eles estavam evitando que nós duas tivéssemos contato e pensei que essa viagem deles poderia até ter sido inventada pra que eu nao me encontrasse com ela. Mas eu nao perguntei e na verdade até hoje nao sei se aconteceu alguma coisa. Mas acho que nao. E eu fiquei com um certo medo de entrar em assuntos de que talvez fosse melhor nao se falar a respeito. Também nao sei até hoje o que exatamente a Erika falou pra Marion. Mas talvez um dia eu tome coragem e pergunte. Aí eu conto pra vocês. 

segunda-feira, 23 de março de 2009

Mala sem alca

Eu nao queria falar pra Marion que eu ja tinha passado por duas familias. Se por uma so familia ja nao daria uma boa impressao, por duas entao era bem capaz de ela mudar de ideia. Alem disso, eu nao tinha ficado tempo suficiente em Schriesheim para que se considerasse que eu trabalhei la como au-pair. Tudo que eu disse pra Marion entao foi que fiquei na casa de uma amiga. O que nao eh de todo mentira, ja que a Mayara acabou se tornando uma amiga. Mas de qualquer forma eu queria evitar, pelo menos por enquanto que ela soubesse a verdade. O problema eh que, nao sei se voces se lembram, minhas malas ainda estavam no quarto da Mayara e eu precisaria de uma forca mais que sobrehumana pra transportar de uma cidade para outra duas malas gigantes e uma mala menor sem carro. Acho que ter me levado (e com isso minhas malas) ate a casa da Mathilde era o minimo que a Claudia podia ter feito, mas ja que ela nao fez, tinha que encontrar outra solucao.



A Mathilde nao parecia querer muito me levar ate la e tinha ate sugerido que eu combinasse isso com a Marion, quando eu como quem nao quer nada toquei no assunto com ela. So que ir com a Marion ate Schriesheim nao era exatamente a solucao ideal pra quem queria esconder isso dela. Ela poderia encontrar com a Claudia ou qualquer coisa assim, entao era melhor evitar. Sem contar que as roupas que eu tinha pegado para passar o fim de semana ja estavam acabando... E foi ai, na iminencia de ficar sem roupas usaveis e sem ninguem para buscar minhas malas, que a Claudia me ligou:

- O que aconteceu que ate agora voce nao veio buscar suas malas?


Expliquei pra ela que eu so ia poder mudar de familia na quinta-feira e talvez so entao pudesse buscar as malas.


- Mas nos tinhamos combinado que voce buscaria no fim de semana e ja é segunda-feira!


E com toda a amabilidade e cortesia que sao possiveis a uma praticante de Reiki, ela me disse que iria colocar as malas na recepcao do hotel e que se eu quisesse poderia ir de onibus pra la e buscar uma mala de cada vez... Muito pratico.


Desliguei o telefone, impressionada como uma pessoa pode ser tao compreensiva e sensata... A Mathilde e o Uwe estavam perto e disse pra eles o que ela tinha me falado. Acharam um absurdo, eh claro, eles colocarem sem mais nem menos minhas malas na recepcao, ainda mais porque minhas malas nao estavam trancadas. Eu deixaria elas ate abertas no quarto da Mayara, mesmo se tivessem jóias dentro (embora eu escondesse talvez as pulseiras =D) mas acho que na recepcao do hotel, nem se tivessem so roupas sujas. Como tambem tinham roupas limpas dentro delas, era melhor que eu fosse busca-las no mesmo dia. Mas nao precisei pensar em uma solucao. O Uwe ficou revoltado com a atitude da Claudia e mal eu tinha terminado de contar ele foi falando:


- Vamos buscar suas malas agora!


E ja foi pegando a chave do carro e saimos, rumo a Schriesheim.


Chegando la, olhei na recepcao e minhas malas nao estavam la. E fui bater la na casa da Claudia. Me atende uma Mayara que nao devia ter nem saido da cama naquele dia, muito menos ficado limpando banheiro. Ainda nao estava nessa epoca de gripe suina, mas se fosse hoje acho que iam isola-la do resto do mundo porque com certeza devia ser mais um caso. Coitada! A gente sabe que as au-pairs sao exploradas, mas as familias deviam ter um pouco de bom senso antes de coloca-las pra trabalhar em tal estado... Mas bom senso era o que mais falta nessa familia. E a Mayara estar doente foi o que levou a Claudia a decidir tirar as malas do quarto dela. Ela parecia achar que, se foi minha energia ruim que fez o filho dela tossir por dois dias, nada mais logico que a energia das minhas malas estar provocando a gripe da Mayara. E como a culpa nao era de um virus e sim minha, ela podia fazer a pobre trabalhar alem dos limites humanos. Ate perguntei pra Mayara se ela nao queria ser resgatada. Mas nao faltava tanto tempo pra ela ganhar a carta de alforria, entao podia esperar mais um pouco.


O bom disso (coitada da Mayara, eu tiro proveito ate da gripe dela!) é que eu pude levar minhas malas pra casa da Mathilde sem precisar pensar em outra solucao. O ruim eh que, alem da Mayara ter ficado doente, eh claro, uma das minhas malas perdeu a alca durante o transporte. Mas tambem, pobrezinha! Ela nao podia aguentar tanta pressao.

Quando as coisas comecam a dar certo

Um dia depois a Marion me liga de novo. E diz que eu nao vou poder mudar pra lá na segunda. Ela disse que eles iriam viajar nessa semana e que por isso eu só poderia ir pra lá na quinta. Achei estranho eles viajarem assim, nao era férias nem nada e fiquei pensando se eles nao poderiam ter mudado de idéia. Mas resolvi acreditar neles. Fiquei preocupada por causa da Mathilde. Nao queria ficar lá muito tempo, acho que já estava abusando da boa vontade dela e talvez ela nao quisesse que eu ficasse tanto tempo lá. E falei com ela e com o marido que se eles quisessem eu poderia ir pra um albergue ou qualquer coisa assim. Ela pareceu considerar a idéia. Mas o marido disse imediatamente:


- De jeito nenhum, você pode ficar aqui.


Parece que no fim das contas ele nem estava mais tao incomodado. O lado bom de nao ir pra la na segunda eh que segunda ia comecar um programa da faculdade de Heidelberg pra introduzir os novos alunos no curso, explicando como funciona, etc. Eu nao tinha passado na prova, mas ainda tinha uma vaga nesse programa e queria ir, nem que fosse so pra fazer amigos. Provavelmente eu nao teria ido se tivesse me mudado na segunda, o que mudaria muita coisa...


Na segunda feira eles dividiram os alunos de acordo com o curso e com modalidade - se iam fazer o curso completo ou so um ou dois semestres. Cada um se apresentou e fez uma pergunta que queria saber. Na minha vez, expliquei que eu nao tinha passado na prova e queria saber se tinha alguma possibilidade de frequentar o curso sem ser estudante. As responsaveis pela nossa turma eram estudantes de alemao tambem e estrangeiras, sendo que uma delas era brasileira (e eu nunca vi alguem pra atrair brasileiros melhor do que eu... mas depois falo disso) e a outra falava portugues. Elas nao quiseram me responder na frente de todo mundo, mas deixaram para o fim do encontro. E disseram que eu poderia simplesmente ir as aulas, explicar minha situacao para os professores e perguntar se poderia frequentar as aulas. Se eles dissessem que sim, tudo bem. Simples assim. E mais ou menos isso que acontece na UFMG tambem. Geralmente os professores permitem ouvintes. Alguns mais babacas dizem que se o aluno eh ouvinte so pode ouvir e nao deixam os coitados participarem das aulas. Eu nao sabia como seria em Heidelberg, mas sabia que na universidade tem o que eles chamam de Gasthörer, que significa exatamente ouvinte. So que alem de ter que pagar por isso , o Gasthörer nao recebe nenhum tipo de certificado ou comprovante de que ele frequentou as aulas e so pode frequentar um tipo de aula, que eh como uma palestra e que na verdade ele poderia simplesmente entrar e assistir, sem que o professor nem ao menos notasse a presenca dele. As aulas que eu queria fazer eram de outro tipo, entao nao adiantaria muito ser oficialmente Gasthörer. Tecnicamente eu nao poderia frequentar as aulas em nenhuma hipotese sem ser estudante. Mas talvez os professores pensassem diferente. Acho que nao custava tentar.


Elas tambem falaram um pouco sobre as possiveis materias que os alunos "de curto periodo" (Kurzzeitstudenten) poderiam fazer, deram dicas sobre os professores e me falaram tambem de algumas materias que seriam boas pra mim. Perguntei se eu poderia tambem talvez ser socia da biblioteca da faculdade ou usar os computadores que tem la, que precisavam de senha para serem acessados. Talvez eu estivesse querendo demais, alem de curso de alemao de graca eu queria internet tambem? Mas elas foram super simpaticas e uma delas ainda me deu a senha dela o.O, que inclusive estou usando agora. O mais legal eh que eu nao pedi nada, ela simplesmente ofereceu "se quiser eu posso te dar a minha". E pronto. Um viva para pessoas que ajudam au-pairs necessitadas que elas nunca tinham visto na vida! hip-hip hurra!



PS: talvez voces prefiram que eu escreva com suspense, que termine meus posts igual final de capitulo de novela das oito... mas nem sempre eh possivel. Sera que eu vou ter tanto ibope se na minha novela nao acontecer nada emocionante, se for a simples descricao de uma rotina sem graca? Ou sera que alguma coisa tem que dar errado, como diz o Genim, pra ficar mais interessante? Vamos ver o que acontece. Mas voces podem continuar conferindo, afinal de contas, eu nem mudei de familia ainda... :-)

sábado, 21 de março de 2009

A decisao

No sábado eu ainda tinha outro encontro com a Iris. Ela disse que me ligaria no meio da semana e nao ligou, mas segundo a Claudia, se um horário é estabelecido na Alemanha, nao precisa ligar confirmando. E para que todas as pragas da Claudia nao caíssem sobre minha cabeca, resolvi ir assim mesmo. E minha vontade de ir era tanta que acabei me distraindo olhando alguns e-mails e perdi a hora. Depois de uns 15 minutos de atraso resolvi ligar pra ela e perguntar se eu ainda deveria ir. E qual nao foi minha surpresa quando ela disse:


- Ah... nao, meu marido nao está aqui e a au-pair canadense que tinhamos contatado deve vir mesmo.


Fiquei feliz, é claro. Nada pior que uma manha na casa da Iris pra estragar o dia da gente. Mais tarde descobri que ela tinha me mandado um e-mail avisando pra eu nao ir. Mas foi tao em cima da hora que nao deu tempo de ver antes de sair de casa. E olha que eu perdi a hora com isso. Acho que ela queria se vingar de todos os meus atrasos e bolou isso. Que bom que nao deu certo.


Fiquei perambulando um pouco pela cidade, respondi alguns e-mails. E descobri que nao aguentava mais falar com a familia de perto da Suica. Se antes de conhece-los já estava assim, imagina morando com eles?? E entao caiu a ficha de que a família que eu tinha visitado no dia anterior se encaixava perfeitamente nos meus objetivos e que eu nao precisava esperar até segunda-feira pra ligar pra eles. E foi o que eu fiz ao chegar na casa da Mathilde.


Peguei o telefone e já senti o conhecido frio na barriga, mas de forma tao intensa que pensei que fosse passar mal. Eu tinha feito minha decisao e agora tudo que eu queria era que eles me aceitassem apesar de tudo que a Erika certamente tinha falado pra eles. Acho que minha mao estava tremendo quando disquei o número e minha voz a acompanhou quando comecei a conversar com a Marion. Falei pra ela que já tinha conversado com algumas outras famílias, mas que tinha gostado muito da família dela e me decidido por ela.


- Fico feliz em ouvir isso, Carol. Mas ontem eu conversei com a Erika e ela me disse coisas muito ruins de você - prendi a respiracao para ouvir o que vinha em seguida. - mas eu acho que tudo tem dois lados e queria ouvir também o que você tem a dizer.


Nao falei muito, até porque estava nervosa demais pra isso. Nao falei mal da Erika também, porque eu nao preciso descer a esse nível. Mas expliquei que achava que foi muito cedo para a Erika ter tomado a decisao de me mandar embora e que o comeco era sempre mais difícil por serem tantas coisas diferentes em que prestar atencao.


Ela concordou comigo e disse que a Erika nunca tinha tido uma au-pair antes e que a primeira experiência também é mais difícil. E que ela conhecia a filha da Erika e ela nao era muito espontânea. E que ela tinha gostado muito de como eu conversei com o filho dela, quando os visitei.


- Entao você acha que pode dar certo?


- Sim! Eu acho que pode dar certo!


E combinamos que eu poderia mudar pra lá já na segunda feira.


E depois de desligar o telefone nao estava só respirando aliviada, mas pulando de alegria. E cheguei na cozinha abracando a Mathilde, na verdade quase dancei com ela ali. E estava realmente muito feliz. Parecia que finalmente esse pesadelo ia acabar. E eu nao vou dizer aqui que "somente parecia" ou qualquer coisa assim, como no suspense dos outros posts. Mas vou deixar terminar nessa sensacao de felicidade que eu estava sentindo na hora. Ainda que ela tenha durado tao pouco.




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Brincadeira, brincadeira.... Desculpem, nao resisti! =D

sexta-feira, 20 de março de 2009

Isso nao acaba nunca?

No mesmo dia em que visitei essa familia tive que voltar a Schriesheim pra pegar algumas roupas. A Mathilde nao podia ir la no dia pra buscar minhas malas, talvez fôssemos só na segunda e eu nao podia sobreviver todo esse tempo sem calcinhas limpas. Eu tinha "esquecido" de devolver a chave do quarto e aproveitei pra usá-la. Claro que teria sido muito mais educado bater na porta em vez de chegar abrindo, mas a Mayara nao se importou. Eu tinha olhado pela janela do quarto e parecia nao ter ninguém, e eu achava que a Mayara estava trabalhando no horário. Mas que bom que nao estava. Fiquei muito feliz em revê-la, mesmo que a gente tenha se encontrado no dia anterior, já sentia saudades de alguma forma. E eu fiquei mais ou menos uma hora sem saber se eu pegava minhas roupas, se conversava com a Mayara, se abria o guarda-roupa, (que obviamente nao tinha mais nenhuma roupa minha) ou se continuava conversando. E contei pra ela das famílias com que eu tinha conversado, do fatídico encontro com a Erika, da casa da Mathilde, enfim, todo o conteúdo dos últimos posts, mas com mais detalhes - o que rende uma conversa e tanto. Impressionante como um único dia pode gerar tanto assunto.


Mais tarde chega a Claudia, com a desculpa de saber como eu estava, mas na verdade só pra pegar a chave de volta. Continuamos conversando e eu já tinha desistido de demorar só uma hora lá. Acabei perdendo vários ônibus - e lembrem que os ônibus lá passam de hora em hora - mas estava muito feliz de conversar com ela de novo. E foi nesse momento de felicidade que meu celular tocou. "Ah, que droga, mais uma dessas famílias me ligando" - sei que eu devia ficar feliz com isso, mas eu simplesmente nao aguentava mais atender o telefone. Achei que devia ser de novo a família de perto da Suíca, que me ligava com frequencia e ficava sempre mais de meia hora conversando. Mas nao era. Fiquei surpresa ao ouvir a voz da Erika do outro lado. E eu só tinha a visto tao furiosa, tao alterada no dia que ela me colocou pra fora de casa. Mas foi até filosófica:


- O mundo pode ser grande, mas Heidelberg é muito pequena. E a familia que voce visitou hoje me ligou falando que viu uma foto com você e minhas meninas e as reconheceu. Eu vou ser bem clara com você: eu nao quero que voce divulgue fotos das minhas filhas na internet. É isso.


tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu


Curta e grossa, sem direito a defesa. Percebi todas as modulacoes de voz, a raiva contida, a vontade de explodir em um grito e a sensatez de manter sempre o controle, qualidade inerente a uma pessoa normal.


Mal pude responder que eu nao havia divulgado a foto das meninas, só havia mandado por e-mail pra uma das agências que ela mesma tinha recomendado e que exigia fotos com criancas. E essa foto nao era nem de longe a melhor que eu tinha, mas a única que consegui. Nao era também nenhuma foto pornográfica, na verdade acho que elas nunca tinham tirado uma foto tao vestidas como naquela. Nao dava nem pra ver o rosto direito, de tanta roupa... A maioria das famílias colocam fotos dos seus filhos nos sites de au-pairs, nao era uma coisa de outro mundo e nenhum motivo pra ficar tao alterada. Talvez a exposicao precoce das filhas pudesse prejudicar o desenvolvimento normal delas. Ou talvez ela simplesmente nao quisesse que as filhas fossem vistas associadas com pessoas do meu tipo. Vai saber...


Só sei que esse telefonema me trouxe uma preocupacao a mais. Entao a Marion tinha ligado pra Erika... O que será que elas tinham conversado? Depois da visita à casa da Erika, tive a certeza de que ela nao iria continuar falando o que combinamos pras famílias. E o que eu poderia esperar que ela tivesse falado estando tao furiosa comigo? "Ah, ela divulgou as fotos das minhas preciosas filhas sem minha autorizacao, mas tirando isso é uma menina de ouro!"


Claro que nao. No mínimo passou uma versao pior do que foi passada pra Claudia. O que era bastante preocupante.


Nao consegui ficar muito tempo em Schriesheim depois disso. Fomos um pouco pro bar do hotel, e depois de conversas, sucos, despedidas e de descobrir que eu tinha que esperar mais uma hora até o próximo ônibus,  acabei pegando uma carona com o cozinheiro do hotel, que ficou com tanta pena de mim depois de ouvir minha história que acabou me levando até em casa e dizendo que podia me ajudar a procurar uma família.


- Eu estou fazendo isso pra você, mas eu nao tenho nenhum interesse nisso. - ele fez questao de dizer - Eu sou casado, tenho esposa. Só quero ajudar.


Nao tinha pensado nisso (apesar de ter demorado um pouco a aceitar a carona), mas achei legal ele dizer. E me deixou em casa, em seguranca. E a minha única preocupacao, depois de lembrar do telefonema da Erika era "o que vai acontecer agora?"

Expectativas

No inicio, desde que eu ainda estava na casa da Erika, eu comecei a procurar uma familia seguindo varios criterios. Primeiro tinha que ser em Heidelberg, por causa da faculdade. Além disso, nao queria cometer o mesmo erro e ir pra uma familia que nao falasse alemao, ou quisesse que eu falasse outra lingua. De preferencia uma familia alema. Pra mim uma das principais coisas era que eu me sentisse bem na casa e na familia, o que nao acontecia na casa da Erika. Seria bom é claro que eu tivesse um quarto espacoso, de preferencia separado da casa, pra eu nao trabalhar 24 horas por dia e ter minha privacidade, com televisao, acesso a internet, banheiro individual, etc. Nao queria tambem cuidar so de meninas ou so de meninos nem so de uma faixa etaria. De preferencia meninos e meninas de faixas etarias diferentes. Talvez isso signifique ate mais trabalho, mas acho que o aprendizado é maior tambem. Seria bom tambem que a familia fosse compreensiva, aberta, que nao me mandasse lavar banheiro, que aceitasse essa condicao de estudante, que ja tivesse tido au-pairs, de preferencia disposta a pagar mais que o salario normal, que ajudasse com despesas do curso de alemao e que realmente me considerasse membro da familia.. Era assim que minha família ideal deveria ser. Nao eram exatamente exigencias e também nao precisava ser tudo, mas pelo menos algumas e eu ficaria feliz.


O fato de eu procurar uma familia em Heidelberg limitava muito minha escolha. E depois que eu sai da casa da Claudia, comecei a pensar que talvez eu devesse ir pra uma outra cidade, longe de Heidelberg. Talvez Hamburg, Berlim ou pra Suica. Depois de saber o resultado da prova ficou mais facil resolver isso. De certa forma a prova e a possibilidade de estudar em Heidelberg estavam me prendendo à cidade. Mas... eu nao passei na prova. E nao sei se deveria dizer "infelizmente". Acho que foi bom eu ter me libertado dessa obrigacao de ficar na cidade. Isso me prendia de certa forma e acho que me senti mais livre, depois de saber que eu nao passei. Senti que eu poderia ir pra qualquer lugar da Alemanha e até pra outro pais se eu quisesse. Deu aquele gostinho de liberdade e a sensacao de ar fresco no rosto. Se eu tivesse passado, teria ficado triste de deixar Heidelberg, de abandonar a possibilidade de estudar. Mas nao ter essa possibilidade fazia com que eu tivesse todas as outras. Eu poderia tambem tentar novamente no proximo semestre. Ainda que nao fosse em Heidelberg.


Comecei a achar interessante ir pra um lugar totalmente diferente, dai meu interesse nessa familia que mora perto da Suica. Fui simplesmente deixando as coisas aontecerem e nao imaginava onde que isso iria me levar. Varias familias entraram em contato comigo. Norte, sul da Alemanha, ate familias da suica e Austria me mandaram e-mails. Eu ja nao estava com tantas esperancas de conseguir uma familia em Heidelberg e na verdade nem estava pensando muito nisso. Assim, fiquei de certa forma surpresa quando uma família entrou em contato comigo. Sem muita descricao, sem falar nada sobre as criancas, apenas um e-mail com o numero do telefone. Geralmente eu gosto de saber mais detalhes sobre a familia antes de telefonar. Mas porque nao? E liguei. Era uma familia de Heidelberg que morava no mesmo bairro que a Erika. No mesmo dia que liguei marcamos um encontro e depois de sair "do manicomio", fui encontrar com ela.


Fui assim, sem expectativas, sem esperar nada de mais dessa família. Nao fazia idéia de como ela seria. Normalmente eu nao ligaria, mas por ser em Heidelberg, achei que nao custava tentar. Achei engracado eles morarem no mesmo bairro que a Erika, mas nao imaginava que essa seria so uma das coincidencias. A mae, a Marion, foi muito simpatica comigo. Ela tinha me encontrado através de uma agência e estava disposta a me contratar através dela. Só que estranhamente eu nunca tinha ouvido falar da agência na minha vida e nao sabia o que meu perfil estava fazendo lá. Tráfico de informacao? E mais estranho ainda é que ela só achou meu perfil uma vez. Quando foi procurar de novo nao estava mais lá. Aí ela disse que caso eu quisesse fazer o contrato sem a agência, ela poderia me dar o dinheiro que ela daria pra eles. E me falou da familia, mostrou fotos dos filhos - ela tinha um menino de 8 anos, uma menina de 4 e um bebe de 11 meses. Conheci o menino e o bebe no dia em que fui la, mas a menina e o marido nao estavam. Lindos os dois. Peguei o bebe, o Nikolas no colo e a Marion ficou espantada por ele nao ter chorado. Ela disse que geralmente ele chora quando alguem estranho carrega ele. Conversamos um pouco sobre o Brasil e outras coisas alem de simplesmente explicar as tarefas. Meu trabalho seria em parte cuidar das criancas, em parte ajudar no trabalho doméstico, mas ela nao estava procurando uma faxineira, como fez questao de me dizer. Eles tinham uma aupair no momento que ficaria ainda uma semana lá. Mas se eu quisesse eu poderia me mudar antes, enquanto ela ainda estivesse lá. Mas eu ainda tinha alguns encontros com famílias no fim de semana - incluindo um outro com a Iris o.O - e nao dei uma resposta definitiva, ficando de ligar no domingo ou segunda-feira. Eles elogiaram meu alemao, mostraram o quarto, que era na verdade quase um apartamento com direito a cozinha, varanda e mesinha pra tomar cha. Acabei descobrindo lá que o menino, o Laurenz, estuda na mesma sala que a filha mais velha da Erika. Ela me perguntou algumas coisas sobre a primeira familia, mas nao entrou muito em detalhes nem pediu telefone, o que me deu um alívio esperancoso.


Me senti muito bem lá em geral, mas ainda continuava a sensaao de que talvez eu devesse ir pra outro lugar diferente e talvez eu ainda visitasse a tal família da fronteira com a Suica. Vale lembrar que minha situacao na casa da Mathilde era um pouco desconfortável. Apesar de ter sido muito bem recebida, a Mathilde parecia fazer de tudo pra que eu fosse embora o mais rapido possivel. Entao eu falei que talvez fosse visitar essa familia da suica no fim de semana e ela disse: Isso, vai mesmo! Seria ótimo! Nao acho que ela fazia por mal, mas que ficava preocupada por causa do marido. De qualquer forma, talvez pudesse dar certo com essa família que eu visitei. O encontro foi muito bom, acho que eles ficaram com uma boa impressao de mim e isso me deu uma certa sensacao de felicidade. E eu nao imaginava que ainda no mesmo dia essa sensacao seria novamente interrompida pela Erika...

No Manicômio

No mesmo dia que eu liguei pra Erika fui até a casa dela. Eu tinha um encontro com outra família perto de lá, entao passei na casa da Erika um pouco antes pra aproveitar a viagem. Afinal, era só pegar as duas cartas e ir embora. Eu nao esperava nem que ela me convidasse pra entrar, afinal minha simples presenca poderia afetar a integridade mental da família dela. Mas para minha tristeza a integridade da família nao era tao relevante quanto o que ela tinha a dizer. E tive que entrar novamente na Casa Branca.


A primeira certeza que eu tive ao pisar na sala é que ela definitivamente nao tinha encontrado qualquer pessoa pra ajudar no servico domestico. Outra possibilidade é que ela tenha resolvido adotar uma família de macacos, que estava morando exatamente na sala de estar. Nao vejo outra possibilidade pra explicar a desordem total e absoluta em que se encontrava a casa dessa mulher. A quantidade de brinquedos e roupas espalhados era absurda... Mas acredito que nao o suficiente pra que ela sentisse minha falta.


Um pouco antes de eu ir até a casa da Erika tinha me ligado uma família que mora perto da Suica pedindo o telefone dela. Como eu já tinha ligado pra Erika avisando, achei que nao teria problema. Nao pra mim. E era sobre isso que ela queria conversar.


- Bem, eu conversei agora com essa família da Suíca e falei o que nos havíamos combinado, que nós tivemos problemas por causa da língua e nada além disso - a gente estava em pé e a calca dela, muito larga, fazia com que a borda da calcinha branca destacasse de uma maneira impressionante nas roupas como de costume pretas. Eu juro que eu nao queria olhar, mas pra piorar minha visao ela puxava a calca pra baixo, com os polegares no passador de cinto. E eu sei que é um comentário inútil e eu nao falaria nada se nao tivesse me incomodado tanto. Mas se concentra, Carol, a mulher ainda tá falando.


- Só que eu nao me senti muito bem falando isso pra familia. Eu nao posso simplesmente dizer que nao aconteceu nada demais porque eu nao gosto de mentiras. Eu nao me sinto bem fazendo isso e nao quero ser responsavel por isso. Eu nao posso recomendar voce pra outra familia porque eu acho que voce nao devia ser au-pair. Eu acho que você tem uma personalidade frágil demais pra isso. Eu achava que tinha dado certo com a familia da Claudia, mas se nao deu certo de novo, em outra família, eu acho que voce deveria voltar pro Brasil, porque voce nao deve ser au-pair.


Com o tempo a gente aprende a engolir alguns sapos na vida... E esse foi um dos mais asquerosos que eu tive que engolir, principalmente porque ele ficava me mostrando a calcinha... Sei que eu precisei de muito sangue frio pra nao dar à Erika a resposta que ela merecia ouvir. Mas eu nao podia simplesmente falar o que eu quísesse pra ela naquela hora porque eu simplesmente ainda precisava dela. Se eu criasse qualquer atrito, ela poderia piorar bastante a versao-Carol-segundo-Erika que ela passava pras famílias. E eu certamente nao queria isso. Tive que tratá-la muito bem, como sempre tratei aliás, e explicar, na verdade quase jurar pra ela que eu nao tinha feito nada que justificasse a decisao da Claudia. Tudo isso fingindo nao saber nada sobre o telefonema entre as duas, que na verdade pode ter sido o maior causador da minha saída de lá (será que eu já posso ser diplomata depois disso?). A Erika, como cidada-absolutamente-correta-que-nunca-mente, também fingiu nao saber de telefonema nenhum e continuou afirmando que a culpa de alguma forma devia ser minha:


- Mas a Claudia pode ter percebido alguma coisa que voce nao percebeu e nao quis te falar...


Em outras palavras, a Claudia pode ter achado também que eu era louca. Dessa vez a Erika foi mais cautelosa e disse apenas que eu tinha uma "personalidade frágil". Talvez ela estivesse com medo, sabe-se lá o que esses doidos podem fazer...


Na cabeca da Erika tudo o que aconteceu de errado durante a minha estada na casa dela foi absolutamente culpa minha. Ela nunca considerou como eu me sentia, nunca tentou ver o meu lado. Se colocar no lugar de outra pessoa seria algo no minimo penoso pra ela, principalmente quando essa pessoa é uma doida varrida. Claro que tambem é muito mais facil dizer que a outra pessoa é louca ou que tem qualquer problema do que aceitar que o problema esta com voce. E a Erika é uma pessoa cujo objetivo de vida é ser normal. Nao digo que seja um objetivo consciente, porque ela se considera a pessoa mais normal e equilibrada do mundo. Mas tudo na casa e na familia dela sao voltados pra esse objetivo, desde a roupa de cama toda branca, ate os livros de cabeceira dela "criancas precisam de limites" e por ai vai... Entao se tinha algo de errado, é logico que o problema era comigo. E é óbvio que se o problema era comigo, eu nao ia dar certo em nenhuma outra familia. Mas vamos supor que eu esteja em uma família e dê super certo com ela e a Erika fique sabendo disso. Se eu dei certo com outra família talvez o problema nao seja comigo, entendem o que quero dizer? Pra pessoas como a Erika seria doloroso assumir que elas nao têm razao ou que têm um problema. Ela é reservada ao extremo, a ponto de nao demonstrar qualquer emocao - o máximo que eu vi foi raiva, quando ela me expulsou de casa - é fria, sistemática e impassível, mas todos os problemas que tivemos enquanto eu estava lá era culpa da minha timidez. Depois que eu saí e pude respirar ar puro de novo, descobri que eu nem sou tao tímida assim, mas que o ambiente lá nao permitia que eu me expressasse naturalmente. Mas eles também nao mereciam.


Por ser tao doloroso pra Erika assumir esse erro, ela inconscientemente faria o possível pra que eu nao desse certo em outra familia. Ela nao precisava ter falado nada com a Claudia. Era só ter mandado a carta e estaria tudo certo. Mas eu acho que era uma necessidade pra ela fazer isso. E sinceramente eu nao a culpo. Acho que até tenho pena. Claro que tenho raiva também, por tudo que ela já me falou, por tudo que ela já fez, mas eu acho sinceramente que ela é uma pessoa doente e deveria se tratar. Mas só pra assumir a necessidade de um tratamento seria necessário um outro tratamento, entao eu acho que isso nao vai mudar. Como disse a Wibke: "eles nunca riem!" e só isso já é um motivo para termos no mínimo compaixao.

Conversas

Acabou que a Mathilde nao pôde me buscar em Schriesheim no dia e a Claudia também estava ocupada demais pra me levar. Entao eu tive que deixar minhas malas lá no quarto com a Mayara e levar só uma mochila pra casa da Mathilde. Lógico que a Claudia perguntou pra Mayara se ela nao se importava de minhas coisas ficarem lá.


- É claro que eu nao me importo! Nao tinha problema se você ficasse, muito menos suas malas!


Saudade dela...


Cheguei na casa da Mathilde de ônibus (na verdade precisei de pegar um ônibus, um bonde e depois um ônibus de novo). Ela nao mora em Heidelberg, mas numa cidade próxima, que chama Neckargemünd e que fica mais longe de Heldelberg do que Schriesheim. Apesar disso, enquanto em Schriesheim eu precisava de no mínimo meia hora pra chegar em Heidelberg (sem contar o o tempo de espera do ônibus que passa de hora em hora, nem o tempo de espera do bonde), de Neckargemünd até Heidelberg eu precisava apenas de (exatamente) 22 minutos, sendo que só precisava pegar um ônibus, que passa com muito mais frequência.


A Mathilde tem dois filhos, a Aisha e o Andreas, com 10 e 11 anos e nao, ela nao estava precisando de uma au-pair, se alguem pensou isso. E eu tambem nao queria ficar muito tempo la. So o tempo necessario pra  encontrar uma familia ou no minimo outro lugar pra ficar. Eles estavam um pouco desconfiados no comeco, principalmente o marido, mas depois que eles viram que eu nao ia roubar todos os bens da casa ou fazer guisado de criancinhas, se acalmaram um pouco. Nao posso culpa-los pela desconfianca, porque afinal de contas eu era uma desconhecida. Eles fizeram ate uma especie de entrevista no dia que eu cheguei, perguntando meus objetivos na Alemanha, entre outras coisas. Nao sei exatamente quais eram os objetivos deles com isso, mas acho que afinal de contas eu consegui passar, porque me receberam muito bem.


A Mathilde estava um pouco apreensiva, suponho por causa do marido, mas conversou bastante comigo, me falou da experiencia dela como estrangeira na Alemanha, me deu dicas do que fazer, de como trabalhar, enfim, ajudou bastante. E me falou finalmente o que a Erika tinha falado pra Claudia. Ela alegou que tinha perguntado tudo pra saber o que elas estavam falando. E no fim das contas foi bom ela ter feito isso. Ate onde eu sei, nao foi nada muito serio, pelo menos nao muito serio para os brasileiros. Mas quando eu falo pra um alemao que uma pessoa nao é "zuverlässig" (o que significa que a pessoa chega atrasada, por exemplo), é de certa forma catastrofico. Na cultura alema isso significa que voce simplesmente nao pode confiar na pessoa, que ela nao honra seus compromissos, etc. E isso pra uma aupair realmente nao é bom. Mas porque a Erika disse isso? Eu nunca me atrasei pra nada do que combinamos. A unica coisa que eu nao cumpri que nos tinhamos combinado era falar portugues com as filhas, mas isso so aconteceu porque ela nao me explicou que eu teria que falar só portugues com elas, mas que seriam coisas simples como "bom dia" ou "obrigada", o que eu ate fiz. Mas ela nao podia  me obrigar a fazer algo que ela deveria ter feito quando as meninas eram mais novas. Era como se ela quisesse alguem que consertasse um erro que era dela. Ela disse que era muito "estressante" ter que falar duas linguas quando ela tentou ensinar portugues pra mais velha.. Mas eh claro que eu poderia ficar estressada... O caso da Mathilde, por exemplo, ela é peruana, o marido é  alemao e nao fala espanhol, mas apesar do stress de falar duas linguas em casa, ela fez isso e hoje fala espanhol com os filhos. Geralmente eles respondem em alemao, mas ja é um grande comeco que eles entendam. E o marido comecou a entender um pouco tambem. Claro que é estressante e atrapalha um pouco no aprendizado da lingua tambem. Ela disse que depois que ela comecou a falar espanhol em casa o alemao dela piorou muito. E ela vive misturando as duas linguas por causa disso. Mas ela é a mae, nao uma aupair.


Outra coisa que a Erika disse é que eu era muito devagar pra fazer as coisas, que eu nao entendia o que ela dizia direito e que fazia coisas erradas. Eu concordo em parte. Eu realmente nao era muito rápida, ou pelo menos nao demonstrava isso pra ela. Mas voces hao de convir que eu nao poderia trabalhar mais depressa quando meu premio para isso era limpar o porao, porque eu tinha tempo sobrando... Quem em sa consciencia trabalharia mais rapido se em vez de ficar livre do trabalho logo ganharia mais trabalho pelo esforco? Quanto a nao entender o que ela dizia, a Erika tem um problema muito sério que é falar demais e nao dar tempo pras outras pessoas falarem. Dá a impressao que ela esta o tempo todo passando sermao. E quantos sermoes eu ouvi! Minha familia deve se lembrar disso, quando ela ligou quando eu ainda estava no Brasil. Cerca de duas horas de telefonema e minhas unicas palavras eram aha, sim, pois eh, nao porque eu nao tinha o que dizer, mas porque nao dava tempo pra isso. Entao, quando ela me falava pra fazer alguma coisa, geralmente essa coisa vinha acompanhada de duzentas outras coisas que eu deveria melhorar, fazer de outro jeito, e todos os minimos erros que eu ja tinha cometido ate o momento (como guardar as canetas, que eu sempre gosto de lembrar) e que eram minuciosamente enumerados e repetidos, o que tornava a tarefa de lembrar o que ela tinha dito muito mais dificil.



Enfim, tudo que a Erika disse tinha um fundo de verdade, ela nao inventou que eu bati nas criancas ou nada do tipo - pelo menos até onde eu sei. Mas era somente a versao dela da historia. Ela nunca tentou se colocar no meu lugar quando eu nao concordava com alguma coisa, por exemplo. Ela se limitava a dizer que eu tirava conclusoes da minha cabeca e que as coisas nao eram do jeito que eu queria. Claro que nao. Eram sempre do jeito dela. E se eu nao fizesse exatamente como ela queria, se eu nao ligasse o aspirador de pó exatamente naquela tomada, ela me vinha com meia hora de sermao, sendo que se eu ousasse falar que a tomada tal era melhor, mais meia hora de sermao porque eu nunca concordava com nada.

Essa conversa com a Mathilde me fez chegar a conclusao de que eu tinha que ligar pra Erika. Nao pra tirar satisfacoes, mas pra avisar que talvez algumas familias iriam ligar pra ela e pra pedir delicadamente se ela poderia nao falar mal de mim. Ela foi muito simpatica comigo:


- hahaha Claro que nao! Imagina, eu falar mal de voce? Eu vou falar o que a gente combinou, é claro.


Eu precisava ainda ir ate a casa dela pra pegar a tal carta com os motivos de eu ter saido de la, e ainda uma outra carta que tinha chegado pra mim e que ela nao sabia o que era, mas parecia ser algo bem oficial... Ela parecia achar que era algo sobre meu visto ou qualquer coisa assim. Quem sabe o governo alemao finalmente percebeu a ameaca que eu represento para a nacao e resolveu me deportar?



Mas isso é assunto pra outro post...

quinta-feira, 19 de março de 2009

Reflexoes

Nao sei se a Mathilde estava falando serio quando me convidou pra ficar na casa dela. Talvez tenha sido algo impulsivo, o espirito latino dela fez com que ela oferecesse ajuda a uma conterrânea. Pode ser. Só sei que nao pensei duas vezes antes de ligar pra ela no dia seguinte. Eu nao esperava que ela quisesse tambem conversar com a Cláudia e perguntar o que tinha acontecido, o porquê de eu ter saído da casa da Erika. De repente parecia que ela queria me contratar como au-pair, tantas perguntas... Parece que o marido dela nao tinha ficado muito feliz com essa historia. Afinal ela me convidou sem consultá-lo. E cá pra nós, convidar uma estrangeira pra morar em sua casa, sendo que você só a viu três ou quatro vezes na vida e ela já foi expulsa de duas casas é no mínimo arriscado. Acho que eu nao teria feito o convite. Mas ela fez. E apesar do marido, apesar de nao me conhecer direito, apesar da Claudia ter repetido tudo que a Erika falou de mim pra ela e ainda acrescentado mais um pouco, ela manteve o convite. E um dia depois eu já estava arrumando as malas (de novo!) e partindo rumo à casa da minha professora de danca.


Nunca eu poderia imaginar, quando comecei a fazer as aulas de danca que isso teria uma influência tao forte na minha vida. Como eu poderia pensar que aquela professora que eu achava tao engracada, com seu alemao enrolado seria muito mais do que uma professora de danca pra mim? É engracado que isso muito provavelmente nao teria acontecido se eu nao tivesse dancado com o Michael na primeira aula de danca. O Michael é um dos alunos antigos de salsa e sempre está presente nos cafés depois da aula. Eles costumam sair pra dancar na quarta à noite e ele também sempre vai. Acho que a Mathilde nao teria gostado tanto de mim se eu nao tivesse dancado com ele. Tive a impressao que ela achou que eu fosse uma amiga dele ha mais tempo e nao que a gente tinha acabado de se conhecer. Foi ele também que me convidou pro primeiro café depois da aula, o que nao teria acontecido se a gente nao tivesse dancado. Sao sempre coisas tao pequenas que mudam todo o rumo da história! Estranho que eu nao percebo isso com tanta intensidade quando estou no Brasil. Mas aqui a impressao que tenho é que as coisas mais mínimas que eu faco têm o poder de mudar completamente minha vida. Eu olho pra trás hoje e penso em como poderia ter sido.  Tudo acontece tao ao acaso que parece já ter sido planejado. Tem um livro, O Dia do Curinga (ou coringa?) que fala disso. Você só nasceu e só está aqui hoje porque inúmeros acasos muito antes de você sonhar em existir possibilitaram isso. Você já parou pra pensar que  se o seu tatatatatatatatatatatatataravô nao tivesse  conhecido sua tatatatatatatatatatatatataravó, você nao teria nascido? E que eles podem ter se conhecido absolutamente ao acaso? Mas eles se conheceram porque estava determinado que assim fosse ou deveria ter sido de outro jeito? Poderia ter sido de outro jeito? 


"Talvez por isso você esteja aqui", disse a Claudia. Nao sei exatamente o que ela pensou ao dizer isso. Talvez a única razao mística de eu ter ido parar naquela casa foi ter essa conversa reveladora com ela. Embora eu já soubesse o que ela me disse, ouvir de novo em uma situacao tao inesperada deu uma forca nova a algo que eu já tinha quase esquecido e em que eu nem acreditava muito. Mas eu nao sou tao mística assim. Se tem algo de positivo que eu posso tirar desse período na casa da Claudia foi certamente ter conhecido a Mayara, que se tornou uma boa amiga. Acho que muitas vezes nao é tao importante o que você aprendeu, o que você ganhou com o que aconteceu e sim se você se divertiu, as boas lembrancas que você carrega sempre na bagagem. E eu me diverti lá. Foi realmente um bom período que passamos juntas e eu realmente espero que haja muitos outros. Viu? A Claudia nunca entendeu como a gente pode ter dado tao certo. Ela perguntou umas 50 vezes pra Mayara se nao tinha problema nos dividirmos o quarto e a Mayara teve que responder 57 vezes que nao tinha problema, pra ela se acalmar. Talvez ela tenha olhado nosso horóscopo e achou que leao e virgem nao combinam. Mas ela nem entende o suficiente do assunto pra tirar essas conclusoes. O fato é que a gente se deu muito bem. E ela deve ter ficado incomodada com o tanto que a gente ria, quando estavamos juntas. E só essas risada já fizeram todo o resto do tempo lá valer a pena.


E ainda nao decidi se devo ou nao acreditar em destino. Ou se existe ou nao um motivo secreto pro que acontece na nossa vida. Mas eu decididamente nao gosto da idéia de que tudo já está definido: se tudo está definido eu nao tenho poder de escolha e se eu nao tenho poder de escolha o que é que eu estou fazendo aqui? Servindo de marionete pra diversao de um deus qualquer? Achar que tudo está nas maos de um ser superior ou que tudo já está escrito, como acha a Claudia, nos isenta totalmente da responsabilidade por nossos atos. Gosto da idéia de que tudo poderia ser diferente e que um futuro absolutamente incerto espera por mim. Dá um gostinho de aventura, sabe? E a sensacao de respirar ar fresco da manha de um lugar totalmente novo. É essa sensacao que quero compartilhar com voces quando faco tanto suspense nos meus posts. Na época que vivi o que escrevo, nao tinha a menor idéia do que aconteceria. É claro que tive medo, é claro que fiquei preocupada, como vocês também estao. Dá um friozinho na barriga sim, mas acho que isso faz parte. Ou viver nao teria a menor graca.

terça-feira, 17 de março de 2009

Quem nao ajuda nao come

Um outro encontro com a Iris foi marcado na terca-feira e dessa vez eu fui mesmo. E fui pontual e demonstrei interesse. Pelo menos tanto quanto era possivel demonstrar, porque sinceramente... ô familiazinha esquisita! Mal cheguei e ja foram falando de regras a mesa e as criancas comecaram meio que a recitar as regras de cor. Nao ouvi muitas, mas pelo jeito eram mais de cem. Fomos pro jardim e comecaram a limpar a casinha dos porquinhos da india, sem nenhum aviso, como se fosse a atividade perfeita para fazer com alguem que visita a casa pela primeira vez, principalmente se esse alguém for candidato a aupair. Talvez eu nao tenha ficado muito empolgada em mexer nos dejetos dos porquinhos. Talvez eu nao tenha ajudado o tanto que eles esperavam de uma aupair. Talvez uma das regras da casa seja "quem nao ajuda nao come", porque a Iris se despediu de mim ali mesmo no jardim, embora a ideia inicial fosse eu jantar com eles - ja tinham ate comecado a me contar as regras! E eu nem teria entrado na casa de novo se nao tivesse deixado minha bolsa la. E ela fez questao de ficar parada a mais de um metro da porta, pra eu ter que abri-la sozinha. Mas tudo bem, eu tambem nao queria voltar mesmo...


Durou um pouco menos que eu esperava, mas resolvi continuar com o que eu tinha planejado e da casa da Iris, sem jantar, fui direto para minha aula de danca. Na verdade nao era tanto a vontade de dancar depois de duas semanas sem aparecer la. Mas era la que eu tinha feito meus primeiros amigos e talvez quem sabe algum deles pudesse me ajudar? E por aula de danca quero dizer nao as minhocas rebolantes, mas a aula de salsa, com a professora baixinha que ficava repetindo a mesma musica de salsa a aula inteira. Mas depois da segunda aula com a mesma musica sendo repetida 20 vezes eu nao aguentei e perguntei pra ela se ela nao tinha outras musicas. Desde entao ela tem variado bastante nas aulas.


Depois da aula, alguns alunos e a professora costumam se reunir na lanchonete que fica embaixo da "sala de danca" (na verdade a sala de danca é a Mensa, uma especie de bandejao da faculdade) e desde que eu comecei a dancar eu me junto a eles. Enfim, fomos ate la e eu pude contar todo o meu drama das duas mudancas de familia, com direito a uma porcao de fritas pra salvar o pobre do meu estômago e uma xícara de chá pra acalmar os ânimos. Assim que terminei de contar a Mathilde, a professora, disse:


- Vai la pra casa. Nao importa o que acontecer, vai la pra casa.


E me deu telefone e endereco e tudo mais pra que eu ligasse pra ela no dia seguinte. Nao sabia ainda o que ia acontecer, mas saí de lá com a sensacao de que no fim das contas foi uma boa idéia fazer aula da danca. E quando cheguei em casa, depois de 40 minutos esperando o bonde e mais meia hora andando no frio, porque o único ônibus da cidade só passa de 2 em 2 horas à noite, estava com a sensacao de que, apesar de tudo, tinha sido um dia muito bom.

Segunda-feira fatal

Na segunda de manha fui com a Mayara pra Heidelberg, pra apresentar pra ela as lojas realmente baratas da cidade (ela achava barato uma jaqueta de 30 €, vê se pode! Mas isso antes de me conhecer) e também pra olhar o resultado da prova que eu tinha feito na quinta passada. Nessa prova, se você passa na prova escrita, que foi na quinta, tem que fazer também a prova oral, que era nessa segunda. Eu achei que eu tinha sido horrível na parte escrita. Tinha deixado um monte de questoes em branco, entao acabou que fui pra Heidelberg mal pensando na tal prova. Mas, já que eu estava lá, resolvi olhar o resultado e qual nao foi minha surpresa ao descobrir que eu passei! Nao estava realmente esperando isso e foi muito bom descobrir que meu alemao afinal de contas nao era tao ruim assim. Afinal, é uma prova bastante difícil e já ouvi dizer que alguns alemaes que fizeram nao conseguiram passar. Fiquei entao mais um tempinho passeando e fui enfim pra prova oral. Achei dificílimo. Muita coisa nao consegui responder, entao nao estava esperando passar. Mas no mínimo eu tinha ganhado experiência pra próxima. Afinal de contas eu nao estava exatamente em condicoes emocionais perfeitas pra fazer essa prova, ne? Tinha sido expulsa de casa duas vezes, nao tinha dormido direito, tinha sonhado com a Erika, fiquei cerca de tres horas esperando ser chamada na prova, estava morrendo de fome e pra coroar comprei uma coisa achando que era iogurte e era um leite sabor morango horriiiiivel. E nem sabia tambem se seria realmente bom eu passar nessa prova. Acho que seria uma preocupacao a mais se eu passasse, tentar encontrar uma familia em Heidelberg que aceitasse minha condicao de estudante. Nao eh facil.


Depois da prova a Claudia tinha agendado pra mim um encontro com outra familia, com que eu ja tinha entrado em contato antes e tentado me encontrar duas vezes, o que nao deu certo. Eu os conheci pela internet, num site de au-pair e na verdade marquei um encontro so por eles morarem em Heidelberg, mas na verdade nao tinha muito interesse neles, tinha ate uma certa intuicao que me dizia que nao ia dar certo. E a Claudia em mais uma dessas coincidencias que nem deus explica conhecia a tal mulher, a Iris, porque o filho da Iris e o filho da Claudia estao no mesmo jardim de infancia e as filhas das duas fazem aula de hiphop juntas. Nao sei como a Claudia descobriu que eu ja tinha entrado em contato com a Iris. Mas o fato eh que a Claudia ligou pra ela tomou a liberdade de agendar  um encontro pra mim, que era na segunda-feira.


So que depois de uma noite sem dormir direito, sem ter almocado, passando por essa fase nada agradavel de ter sido mandada embora, depois da tensao psicologica da prova e do leite estragado sabro morango, o que eu menos queria era encontrar com a tal familia. Acho que eu tambem nao ia causar uma impressao la muito boa, no estado que eu estava. Entao fui direto pra casa - se eh que eu podia chamar de casa - e de la liguei pra essa familia (em cima da hora, diga-se de passagem) avisando que eu nao ia. Nao queria nem ligar, na verdade, mas afinal eu ja tinha furado com eles duas vezes, tinha que dar ao menos uma satisfacao. E fui feliz pra casa da Claudia pra finalmente comer alguma coisa decente.Sim, nessa fase eu so ia la pra comer mesmo.


Chegando la me atende uma Mayara palida, perguntando o que aconteceu, porque eu nao tinha ido pra casa da Iris e chega a Claudia, um poco de polidez, com a delicada pergunta:


- O que que voce ta fazendo aqui?


Depois de dar uma desculpa e assegurar que eu tinha ligado avisando que nao ia, ela diz que eu tinha que me esforcar mais pra procurar outra familia,


- porque voce so pode ficar aqui ate quinta-feira.


Isso era novo pra mim. Achei que eu teria mais tempo la e pra falar a verdade tinha ate uma certa esperanca de que ela mudasse de ideia. Acho engracado eh ela ter condenado tanto a atitude da Erika de colocar uma au-pair na rua, sendo que ela estava fazendo muito pior. Afinal, por pior que a Erika seja, ela nao me colocaria na rua, mas pagaria um albergue pra mim. De acordo com a lei alema, a aupair tem direito de ficar duas semanas na casa da familia depois de ter sido mandada embora, mas a Claudia, embora tivesse um hotel do lado de casa, queria que eu saisse de la em menos de uma semana depois de ter me avisado,porque ela "precisava da cabeca livre pra trabalhar".


Mais tarde a Mayara me contou que a Claudia tinha falado pra ela que se eu nao fosse no encontro com a Iris ela me colocaria na rua na segunda feira mesmo. Isso seria falta de interesse, segundo a Claudia. E na verdade era mesmo. Mas como eu tinha ligado avisando, ela resolveu relevar. Foi o segundo telefonema que definitivamente mudou meu destino. E fico imaginando as vezes o que aconteceria se eu nao tivesse ligado.



Mas outra coisa que me impressionou foi a mudanca de comportamento da Claudia. Em um dia ela era a doce e pacifica praticante de Reiki e no outro resolveu mostrar garras, dentes e olhos decididos a estipar do seu reinado toda a energia nociva da escrava recem-chegada. Doa a quem doer.



domingo, 15 de março de 2009

Mathaisemarkt

Um amigo meu já dizia que a gente tem que ver o lado bom da coisa. Pensar positivo, ainda que tudo pareca perdido. E o fato é que domingo era o último dia da festa mais badalada do ano de Schriesheim: o Mathaisemarkt. E o fato é que eu queria muito ir pra lá e estava pensando como exatamente eu iria fazer tendo que trabalhar no domingo. Tinha pensado em ir à tarde, alguma coisa assim, depois que a Cláudia me liberasse. Ou pedir pra ela pra sair mais cedo, nao sei. Nao imaginava que ela fosse me liberar tao mais cedo e que eu nem precisaria pedir pra ir. Depois da nossa conversa, ela disse que eu podia ir pro quarto, se eu quisesse, pra refletir um pouco sobre o que eu iria fazer, etc. Bem, eu fui pro quarto. Queria na verdade conversar com a Mayara, contar pra ela. Mas ela nao estava mais lá. E eu nao tinha a menor vontade de ficar lá meditando. Entao fiz o que qualquer pessoa sensata faria. Me arrumei e fui pro Mathaisemarkt.


Saindo do hotel encontro todo mundo, a Mayara, Cláudia, Söhren e as criancas e todos pareciam ter acabado de ter uma reuniao familiar. Mais tarde eu soube que essa reuniao era exatamente pra contar a decisao da Cláudia. As criancas quando souberam, queriam ir correndo até o meu quarto. Mas a Cláudia disse que nao, que eu queria ficar sozinha e tal. Um minuto depois chego eu toda alegre e falo que vou pra Mathaisemarkt. E fui. Deixei o clima tenso pra trás, com a família e vou deixar esse assunto um pouco de lado também, pros meus leitores nao pensarem que eu só sofro nessa vida de au-pair. A desvantagem é que o suspense aumenta mais ainda, já que nao vou contar por enquanto o desenrolar dessa história...


O Mathaisemarkt é uma festa típica de Schriesheim pra celebrar a chegada da primavera. Tudo bem que ainda estava uns 6°C nessa época, mas o objetivo é esse. Sao montadas várias barracas de comidas, bebidas, além de um parque de diversoes. Isso na área central. As ruas laterais ficam lotadas de barraquinhas das coisas mais variadas, roupas, sapatos, utensílios domésticos, artigos de decoracao, etc. Eu precisava comprar luvas, porque em todo esse tempo na Alemanha e em todas as minhas compras eu nao conseguia achar uma luva decente e barata. As luvas boas que eu achava custavam em torno de 40 euros, que eu acho muito pra algo que só vou usar aqui e que é tao fácil de perder (desde que cheguei, já perdi duas). E lá nessas barraquinhas achei um par de luvas muito boas por 10 euros. Mas eu nem tinha pesquisado direito pra comprar, nao sabia que a feirinha era tao grande. Acabei achando outras melhores por 5 euros depois. E comprei as duas também, incluindo uma pra usar na neve, que eu nao tinha. Quando fiz meu primeiro boneco de neve, tive que colocar uma luva normal e pra nao molhar e meus dedos nao congelarem, uma luva cirúrgica por cima. Ridículo. E se eu nao for expulsa do país antes do próximo inverno ainda uso elas.


Mas a feirinha nao é composta só de luvas. E passeando entre as barraquinhas encontrei algo que atraiu muito minha atencao. E nao eram casacos. Bolsas. Eu tenho verdadeira paixao por bolsas. Algo que provavelmente herdei da minha tia Edna. Mas melhor do que achar bolsas bonitas é achar bolsas que além de bonitas sao muito baratas. No Brasil uma bolsa nao muito cara, dessas de feira shop custa em torno de 40 reais (me corrijam se estiver enganada, mas isso é o que eu lembro de ter pagado). Como aqui nao tem feira shop, as bolsas sao mais caras e uma barata aqui custaria uns 25 euros. 15, se nao for muito bonita e se você der sorte. Na barraca de bolsas que encontrei qualquer bolsa custava apenas 5,99 €. E eram realmente bonitas. Entao comprei três. Dessa vez eu tinha pesquisado um pouco mais e a mesma bolsa em outra barraca custava uns 20 €. Mas eu nao sabia ainda que a feirinha era tao grande. E quando eu estava tentando achar uma rua, me perdi e encontrei uma outra barraca de bolsas. Nao tinha tanta variedade como na outra barraca, mas estava com a promocao de 1 por 5 €, 2 por 9 € e 3 por 12 €. Aí nao resisti e comprei mais duas.


Mas nao é só de luvas e bolsas que é feito um Mathaisemarkt. Tem também muitos crepes, incluindo o de nutella, que é realmente bom e... brinquedos!! Tinha mais de um ano que eu estava querendo ir em um parque de diversoes. Tentei ir ao do shopping delrey várias vezes mas ou estava chovendo, ou eu nao tinha tempo ou ninguém queria ir comigo. Aqui eu também nao tinha ninguém pra ir comigo. Mas eu fui. Virei de cabeca pra baixo, gritei muito. Acho que estava precisando disso. Enfim, foi muito bom.


Mais tarde encontrei com a Mayara e os amigos dela. Todos estavam trêbados, estavam bebendo desde a hora do almoco e já era de noite quando a gente se encontrou. A Mayara tava revoltada com a Cláudia e todos os amigos dela também já tavam sabendo da história e ficaram boquiabertos. Acabou que eles me obrigaram a tomar um chocolate quente misturado com qualquer-coisa-alcoólica (sabendo que eu nao bebo) e queriam me empurrar um licor de qualquer coisa também. Fingi que tomei o licor (como estavam bêbados nem perceberam) e guardei a garrafinha, que tenho até hoje. Em seguida fomos pra casa de um dos amigos, que era ali perto, pra ver os fogos de encerramento da festa, que foi lindo, de verdade.


Conclusao da história: se a Claudia nao tivesse me mandado embora, nao teria aproveitado nem um terco do que eu aproveitei do Mathaisemarkt. Tudo tem sempre o seu lado positivo...



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Fim

 Domingo era o primeiro dia que eu iria trabalhar sozinha, sem a Mayara, já que esse era o dia livre dela. Cheguei lá de manha, no horário marcado. Mal fui chegando e a Cláudia disse que precisava conversar comigo. Nao passou nada de grave pela minha cabeca... Nao achei que fosse nada além de organizar melhor o que eu teria que fazer ou qualquer coisa assim. Jamais teria passado pela minha cabeca que seria algo sério ou grave, porque tudo estava correndo às mil maravilhas: a relacao com as criancas era ótima, eu tinha aceitado todas as tarefas e condicoes, no dia anterior estávamos fazendo planos juntos e tudo o mais, enfim, nao tinha nada que me fizesse imaginar o que eu estava prestes a ouvir.


Ela, por fazer Reiki, de certa forma se preocupava com o bem estar e com o nível energético de cada um da família. Eu, como um membro a mais da família, seria portanto uma pessoa a mais de quem ela deveria cuidar e portanto uma preocupacao a mais. E isso estava sendo muito desgastante. Como ela trabalha com energia, um desgaste significa que ela nao consegue se concentrar direito. Até aí tudo bem. Achei que a conversa ficaria em energia, misticismo, essas coisas. Pensei em perguntar se ela queria que eu ajudasse de alguma forma a estabilizar a energia ou qualquer coisa assim. Nao achei que ela pudesse transportar o assunto pra o plano prático tao rapidamente. No dia anterior ela nao tinha conseguid dormir direito, pensando sobre essa dificuldade de ela se concentrar no trabalho e acabou tomando a difícil decisao de que eu nao deveria continuar ali.


Nao tinha muito o que eu pudesse fazer. Tudo já tinha sido pensado, ponderado e estava irremediavelmente decidido. Como ela faz Reiki, ela se acha um pouco a “senhora do destino”, o que significa que ela sempre sabe de tudo, entende todas as nuances ocultas aos olhos dos pobres mortais e consegue ter uma visao muito superior sobre a vida e o futuro da humanidade. E essa mentalidade fez com que ela achasse que poderia também ter a solucao para o problema que ela acabara de criar pra mim. Ela pensou na Sandra, que foi quem falou de mim pra ela e que só teria uma au-pair dali a duas semanas. Eu poderia ficar na casa da Sandra por duas semanas e depois procurar outra família.


Foi doloroso ouvir isso. Nao sei se doeu mais pelo fato de ter sido tao inesperado e aparentemente sem motivo plausível ou pelo fato de ter sido a segunda vez que eu era rejeitada. Como disse a Claudia, talvez eu tivesse algo a aprender com esse período na casa da Erika, depois na família dela e depois com outra família. É óbvio que eu tinha algo a aprender. Todo mundo sempre tem algo a aprender com o que quer que aconteca na vida, mas ela dizer isso pra mim naquele momento reforcou ainda mais a característica dela de “senhora do destino”, como se ela nao precisasse se preocupar com o que ela estava fazendo, como se nao fosse nada grave colocar uma au-pair recém-chegada na rua. Era tudo forca do destino e tinha que ser assim. Nao porque ela queria que fosse assim, mas porque estava determinado que assim fosse. É muito mais fácil acreditar no destino do que se responsabilizar pelos seus atos. E foi até engracado ver como ela ficou desconcertada quando ligou pra Sandra e viu que a brilhante solucao que ela tinha encontrado nao deu certo. Eu também tinha achado que nao daria, nao queria ficar pulando de casa em casa e nem tinha gostado muito da Sandra. Mas quem sou eu pra contrariar o destino? Vale ressaltar que ela nao ficou desconcertada por causa da minha situacao, mas porque algo tinha fugido do controle dela, alguma coisa nao tinha acontecido do jeito que ela planejou.


Muitos chamam a Cláudia de charlata. Mas como diz a Mayara, ela nao pode ser charlata, porque ela realmente acredita no que faz. Entao pra que vacinar as criancas se ela faz Reiki? Pra que levar o marido com um tumor na garganta ao médico, se ela faz Reiki? Nao estou aqui questionando se o Reiki funciona ou nao. Acho que pode funcionar sim, mas a pessoa tem que ter bom senso. E se o pai do Söhren tivesse esperado um dia a mais para levá-lo ao hospital, segundo o médico ele teria morrido. Entao se ela me mandou embora e disse que o motivo era a energia nao estar boa, é porque ela realmente acha que a energia nao estava boa. E o Finni (o filho mais novo) estava tossindo há dois dias. Claro que era por minha causa. Ela nao conseguiu dormir e também era por minha causa. Algo mais lógico do que me mandar embora?


Tudo bem se o Finni chorou quando soube que eu ia embora. Tudo bem se a Wibke disse que ficaria com ciúmes se eu fosse pra outra família. Ela estava fazendo isso pelo bem de todos e era assim que tinha que ser.


Mais tarde eu descobri que nao era exatamente só isso. A Claudia precisava de um documento nessa semana e pra isso teve que ligar pra Erika. Algo relacionado ao motivo de eu ter trocado de família. Na verdade acho que ela nem precisava de documento nenhum e que foi uma desculpa pra ela perguntar. Mas enfim. Elas conversaram e trocaram e-mails e eu só fiquei sabendo disso um pouco tarde demais. Na verdade eu até sabia que elas iriam conversar, porque fui eu quem deu o número do telefone pra Claudia. Mas eu nao imaginei o que a Erika poderia fazer. Nao imaginei que ela pudesse ser tao baixa a ponto de falar mal de mim pra alguém, principalmente quando esse alguém é uma outra família. É um pouco injusto, porque as maes vao sempre tender acreditar no que a outra mae tem a dizer. Sendo verdade ou nao. Tudo bem se a Erika me odeia, mas o fato de nao ter dado certo com ela nao significa que vai dar errado com todas as outras famílias. Mas digamos que é muito mais provável isso acontecer se ela sai espalhando que eu faco guisado de criancinhas.


Pois é. Eu achava que o pesadelo Erika já tinha terminado, mas pelo jeito estava só comecando...

Meio

Por um lado era um pouco chato eu ter ido pra lá tao cedo, logo antes da minha prova, por nao poder concentrar direito. Por outro acho que eu também nao estava conseguindo me concentrar na casa da Erika, entao isso nao tinha tanta importancia. Além disso, na semana seguinte a que eu tinha chegado, a Mayara comecaria um curso de alemao de 20 horas semanais e eles estavam tentando achar uma solucao para isso, porque é sempre a Mayara quem cozinha no almoco. Com minha chegada, isso nao seria mais um problema, porque eu poderia ficar lá enquanto a Mayara estivesse no curso e isso era mais um motivo para eu ser bem acolhida.


Nos primeiros dias, eu ficava mais na casa da família do que no quarto e depois ainda animava de ficar no bistrô, que é o bar do hotel, com a Mayara. E só fui estudar pra prova na noite anterior, folheando freneticamente os livros como se fosse ajudar alguma coisa. Depois da prova é que eu comecei realmente a trabalhar lá. Mas na verdade trabalhei também só ajudando a Mayara, que ia me mostrando como fazer as coisas. Isso era uma sexta-feira. No sábado eu tinha o dia de folga. Lá era só um dia por semana, entao ficou combinado que eu teria folga no sábado e a Mayara no domingo. Prático pra eles, porque assim sempre teriam uma au-pair à disposicao. Apesar disso, fiquei lá no sábado com as criancas também, fazendo fantoche com meias velhas. Ficou realmente legal, meu dragao de meia.


No sábado, depois de ter feito meu fantoche com as criancas, chega a Mayara com a notícia de que o curso dela nao vai acontecer mais. Triste pra ela, porque sem fazer nenhum curso, sem fazer nada que ela goste além de trabalhar lá, é como se ela estivesse vivendo a vida deles, nao a dela. Nao só pra ela, acho que isso acontece com toda au-pair. Eu também sentia isso antes de comecar a fazer esportes na universidade.


Como tudo tem sempre um significado oculto para a Claudia, ela resolveu descobrir o porquê da Mayara nao fazer o curso através de tarô (se ela ligasse pra escola descobriria que é por falta de alunos, mas deixa ela fazer do jeito mais difícil). Talvez esse assunto pareca esotérico demais para meus leitores descrentes, mas vou contar resumidamente. Também isso é importante pra entender os acontecimentos posteriores...


Como eu já disse, nao sao meus assuntos preferidos no momento, mas eu ainda sei muita coisa desses assuntos místicos e até acredito que a gente pode ter uma visao muito mais clara de algumas questoes atraves do tarô, como se fosse uma fonte de conselhos, entende? Mas nao chego a nortear minha vida e minhas acoes através disso. Tinha uma eternidade que eu nao jogava tarô e aproveitei pra fazer isso, o que rendeu uma conversa bastante reveladora com a Claudia. Nao vou entrar muito em detalhes, mas por causa de uma das cartas ela disse "talvez por isso você esteja aqui" e me deu um abraco longo e forte, que eu jamais poderia esperar nem em tres anos de convivencia com a Erika. E eu senti realmente que existia uma ligacao forte entre a gente e um possível sentido oculto nisso tudo. Era realmente bom ter tantos assuntos em comum com ela, ter interesse pelos livros que ela lê, que nao eram os do tipo "criancas precisam de limites" como os da Erika.


Outra coisa que me fez sentir muito bem lá é que eu mal tinha chegado e todos já estavam me incluindo nos planos deles, falando de viagens, de apresentacoes, de passeios em que eu também poderia ir.


- Em junho eu vou fazer uma apresentacao de hiphop e voce pode ir se você quiser - falava a Wibke - e em maio a gente vai viajar pra Suécia e você pode ir também!


Todos estavam empolgados comigo e com a possibilidade de a gente fazer coisas juntos e tudo se encaixava perfeitamente comigo. Por exemplo: eles sao vegetarianos (tá, eles comem peixe, mas aqui na Alemanha quando alguém fala que é vegetariano, ao que parece, também come peixe) e eu se vocês nao sabem, também sou. Eu teria que cozinhar lá e a comida era muito boa, assim, indiana, com vários temperos diferentes na cozinha... Eu entendo razoavelmente sobre os assuntos que a Cláudia gosta e nao acho (ou nao achava) que ela seja louca porque coloca pedras na água e porque fala que a gente tem que cozinhar com intencao e porque fica dando licoes de feng-shui. Na verdade muita gente acha que ela nao bate bem, mas como minha sanidade mental também nao foi 100% aprovada, digamos que a gente se entendia.



Eu parecia realmente ter encontrado a família perfeita. Pelo menos era o que eu achava.

sábado, 14 de março de 2009

Comeco

Chegando em Schriesheim, fui como sempre bem recebida. Como eu ia dividir o quarto com a Mayara, ela dividiu tudo lá pra ter espaco pra eu colocar minhas coisas: as prateleiras do armário, do banheiro, a mesa, o balcao e a cama... nao. Tinha uma cama só pra mim lá :-). Como que eu ia conseguir alojar todo o conteúdo das minhas malas nesse espaco mínimo era um mistério pra mim. E até hoje nao sei explicar como consegui. Eu sei que demorei mais de um dia pra isso. Quando cheguei, nao sabia se conversava com a Mayara, se arrumava minhas coisas, se desistia e ia dormir ou se continuava conversando. Acabou que a gente conversou mais do que eu arrumei o quarto. E eu contei pra ela da minha saga com a Erika, do que aconteceu e tal. Tinha falado pra mim mesma que nao ia contar essa história da Erika achar que eu sou doida tao cedo. Vai que eles me acham doida também! Nunca se sabe. Mas nao consegui. A Mayara foi tao aberta, tao amiga, que acabei contando tudo pra ela. E ela riu comigo das minhas imitacoes da Erika e ficou indignada também quando eu contei do que eu passava por lá. Depois de tanto tempo na Casa Branca, fiquei um pouco com medo de que outras pessoas também me achassem louca. Afinal, tem louco pra tudo. Mas quando contei pra Mayara, um pouco receosa, o porquê da Erika ter me expulsado de lá, ela caiu na gargalhada.


- Como é que pode! Essa mulher louca desse jeito te chamar de louca! Tu nao riu nao??


Pude respirar aliviada. Pelo menos naquele quarto eu nao ia correr o risco de colocarem Gardenal no meu suco de maca.


Na verdade o quarto da Mayara nao é na casa da família, mas num hotel. A família do marido da Cláudia tem um hotel no mesmo lote em que fica a casa deles e a casa do irmao e dos pais do marido. E o quarto é um dos menores do hotel, desses meio escondidinhos. Mas é legal. Eu me sentia bem lá, isso que é importante. Além disso é bom ter um quarto separado da casa da família, porque se tem muito mais privacidade. Eles nunca vao reparar por exemplo se você tranca ou nao a porta do seu quarto.


Nos dias seguintes eu deveria mais acompanhar o trabalho da Mayara do que trabalhar na verdade. Aprender o que eu tinha que fazer, essas coisas. A Claudia também foi bastante compreensiva e disse que eu poderia ficar estudando pra prova se eu quisesse em vez de ficar lá. Mas eu nem tinha cabeca direito mais pra estudar pra essa prova, entao acabei ficando mais por lá. Isso é melhor também, no comeco pra acostumar com a família e nossa relacao estava realmente dando certo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Encontrando um rumo

Passei o resto do dia arrumando as malas, tentando enfiar meus quatro casacos novos nelas, mas nao fui exatamente bem sucedida. Meu quarto tinha sido recentemente arrumado, estava tudo bonitinho nas prateleiras, mas acabou que tive que arrumar tudo tao às pressas que nem pensei onde que estava indo o quê e virou tudo uma bagunca só. Tive poucas horas para empacotar tudo, com ajuda de muitas sacolas, porque as malas nao foram suficientes - com certeza vou ter que comprar outra antes de voltar pro Brasil. Talvez duas. Algum tempo pra apagar meus vestígios do computador e mais um tempinho pra dar alguns telefonemas muito importantes. Primeiro pro meu namorado, que até o momento era o único que sabia que eu teria que trocar de família. Depois pra Claudia, daquela família que eu tinha visitado, pra avisar que eu iria prum albergue e que por isso meu telefone nao seria mais aquele. Ela achou um absurdo alguém expulsar uma au-pair assim de casa:


- O que deu nessa mulher pra fazer isso com você? Nao vai ser nada bom pra você ficar em um albergue!


Entao ela disse que ia conversar com o resto da família e tentar achar uma solucao melhor. Minutos depois ela me liga e diz que todos concordaram e que eu poderia morar com eles a partir daquele dia e que ela passaria lá pra me buscar. Ela nao poderia me pagar nada antes de abril, mas eu poderia morar lá com eles antes disso. Na verdade, como eu disse, ainda nao tinha me decidido por eles, mas acho que a melhor opcao no momento era aceitar a oferta. Engracado é que se eu nao tivesse telefonado pra eles um dia antes perguntando do seguro e se a Claudia nao tivesse interpretado isso como uma resposta positiva, muito possivelmente ela nao teria oferecido pra eu ir pra lá. Às vezes sao coisas tao pequenas que mudam nosso destino! Coisas mínimas como ligar pra alguém ou trancar a porta do quarto podem transformar completamente o rumo que as coisas tomam. Mas ainda falo mais sobre isso...


Malas prontas, chega a Claudia pontualmente às 17:30. As meninas estao na sala e somente quando a campainha toca e a Claudia com a filha entram é que a Erika resolve contar pras meninas que eu estou indo embora. As meninas olham meio espantadas e a gente se despede enfim, com os costumeiros apertos de mao, o que é no mínimo estranho. A Erika me dá dois beijinhos no rosto (só porque a Claudia estava lá, diga-se de passagem, se estivéssemos sozinhas ela ia no máximo acenar pra mim. Mas acho que nem isso.)


No caminho pra casa da Cláudia a Wibke, a filha dela fala:


- Eu sei porque nao deu certo com essa família, mae!  Eles nunca riem!


- Mas já passou, Wibke, já passou.

Sentenca final

Era um dia normal como todos os outros. Carol acorda cedo como de costume, às 10 horas da manha, e se empenha em realizar todas as tarefas determinadas para aquele dia (lava roupa todo dia.... ahh! que agonia...). Depois da sua racao diaria do meio-dia, enquanto ela dobra as roupas alegremente na sala, sente que o ar vai ficando cada vez mais frio e pesado. Chega a pensar que poderia ser algum defeito no aquecimento. Mas nao. No mesmo momento em que formula esse pensamento, Erika entra na casa, afastando toda a alegria de Carol no desempenho de suas funcoes. Erika parece mais perturbada do que de costume, com um ar irritadico e secamente diz para ela parar de dobrar as roupas:


- Eu preciso conversar com você.


A frase já tao conhecida por Carol provoca um certo calafrio. Mas a pobre au-pair supera seus temores e vagarosamente caminha para a mesa de tortura. Erika parece decididamente perigosa, trajando sua costumeira mortalha:


- Eu vou te pagar o que estou te devendo agora, mas - continua, tomando fôlego, como se estivesse prestes a gritar - eu quero que você saia da minha casa hoje.


Choque. Carol sente seu rosto perdendo cor e o calafrio sentido alguns momentos antes torna-se mais intenso. Uma situacao assim tao terrivel nao era de forma alguma esperada. Mas Carol nao esboca nenhuma reacao e continua ouvindo o que Erika tem a dizer.


Erika está incrivelmente alterada, o que a torna ainda mais temível. Por trás daquela aparência de frieza absoluta e inabalável, se revela mais forte do que nunca, o que é provavelmente o sentimento mais forte que Erika é capaz de sentir: um ódio profundo e possivelmente mortal. Carol jamais a vira tao alterada e sente sinceramente uma mistura de pena e medo. Essa família deveria sinceramente passar por um tratamento muito sério. Só nao deicidi ainda se psiquiatrico ou exorcismo. Como se Erika lesse os pensamentos de Carol, expressa os motivos da sua decisao:


- Nós achamos que você nao é psiquicamente estável e estamos com medo de você.


(Caro leitor, imagine minha situacao nesse momento. Uma mulher totalmente alterada dizendo que eu nao sou equilibrada... Eu juro que eu riria, se nao fosse comigo, mas naquele momento eu estava sendo expulsa de casa, nao era uma situacao exatamente risivel. Além do mais, acredito que se eu risse naquele momento ela ligaria pro hospício imediatamente. O máximo que eu consegui fazer entao foi uma pergunta:)


- Por que?


- Porque... porque você tranca a porta do seu quarto.


(e agora vou precisar de um parêntese muito mais longo pra explicar a teoria de desequilíbrio psicológico segundo Erika da Silva: Naquela casa branca e fria nao existem chaves nas portas. Nem dos quartos, nem dos banheiros. A Erika provavelmente leu isso em algum livro do tipo "eduque melhor seus filhos" ou "criancas precisam de limites", que é o que ela costuma ler, além do clássico "tudo sobre dor nas costas" - alta literatura. Deve ter lido no mesmo livro instrucoes para deixar todos os objetos cortantes da casa - inclusive o liquidificador e uma tesoura mais ou menos igual a que a mulher do aeroporto confiscou de mim- fora do alcance de criancas. Mas enfim, as chaves também sao importantíssimas manter fora de alcance pra que as criancas nao se tranquem no banheiro, por exemplo, o que seria um desastre sem precedentes. Como eu já sou crescidinha e sei trancar e destrancar as portas, achei que tinha o direito de usar as chaves da casa para as funcoes para as quais elas foram projetadas. Assim, durante a semana que eles estiveram fora, encontrei as chaves do meu quarto e do banheiro que eu usava e passei a utilizá-las por exemplo quando eu tomava banho, trocava de roupa ou simplesmente queria alguma privacidade, nao interessa o que eu estava fazendo. Sempre fiz isso no Brasil e conheco várias pessoas que têm esse hábito. Pra mim é absolutamente normal. Mas pra Erika nao. Ela comecou a achar que eu tinha medo deles - o que também nao seria tao absurdo - e que isso deveria ser resultado de algum distúrbio psicológico. Nao adiantou eu explicar que no Brasil eu fazia isso ou que lá isso era normal, porque ela também é brasileira e na cabeca dela, ela é ou pelo menos tenta ser o modelo de normalidade que o mundo deveria seguir pra nao ser considerado louco. Eu sinceramente prefiro ser louca)


Em algum dos seus rasgos de lucidez, Erika diz que nao colocará a pobre au-pair na rua, mas que cuidará para que ela fique abrigada em um albergue até o fim do mês, custos com os quais Erika misericordiosamente arcaria.


Finalmente, Erika empunha uma caneta e como se fosse proferir a sentenca final, entrega-a a Carol, para que esta assinasse os recibos do pagamento e com isso a sentenca fosse de uma vez por todas executada.