terça-feira, 25 de agosto de 2009

Esperando o Papai Noel

Escrevo em uma hora que já deveria estar dormindo. Costumo culpar a Internet quando fico acordada até tarde, mas dessa vez nao é a Internet. E estou na verdade em um daqueles raros momentos em que eu precisei procurar pelos meus óculos, já que meu ritual noturno que inclui escovar os dentes, pentear os cabelos e tirar a lente já tinha sido cumprido. Já me deitei, me cobri e fechei os olhinhos esperando aquele momento mágico em que a gente simplesmente perde o controle dos pensamentos e deixa a mente fluir num fluxo de imagens e sons que nao condizem exatamente com a realidade dos fatos. A temperatura do corpo se eleva, a respiracao se altera, se torna profunda e serena e todos os músculos relaxam, sucumbindo finalmente ao peso de ter trabalhado um dia inteiro. Mas esse momento nao chegou. E na verdade nao consegui ficar nem muito tempo no estágio em que os olhos estao fechados, mas comecei a repassar mentalmente tudo o que ainda deveria ser feito, o que deveria ser arrumado, comprado, embalado, escrito, agendado, transportado. E de repente abro os olhos apressada, por lembrar de alguma coisa que eu nao posso resolver agora, mas me levanto e acrescento com a letra espremida mais um item à lista que já nao cabe mais em uma só folha. Será que vou conseguir fazer tudo amanha? Nao é melhor tentar adiantar algo hoje? E a voz da consciência, muito maissensata que a dona dela diz que seria muito mais produtivo voltar pra cama agora. Mais produtivo. E volto a repassar todas as atividades a serem feitas mentalmente. E de repente me dou conta de que ainda tinha que ligar para a família, avisando. E ligo pra mae, namorado e até praquela tia distante, com quem eu nao falava há muito tempo. Uma hora mais tarde, o ritual se repete. Deitar de lado. Puxar a coberta até a altura do rosto sem tampar o rosto todo. Fechar os olhos. (...) Mas estranhamente a coberta que sempre foi tao aconchegante hoje está quente demais. E o colchao. Deve ter alguma coisa errada com esse colchao. Nova tentativa, mudando agora de lado. Puxar a coberta, fechar os olhos, pensar em alguma coisa que distraia a mente, sem deixá-la perceber que você está tentando dormir. Sim, esse foi um dia interessante. Ainda preciso escrever sobre isso. E subitamente me vem a consciência de estar escrevendo tao pouco.


- Você devia postar todo dia! - fala a tia distante. E na verdade eu gosto de escrever, só nao escrevo tanto porque acabo ocupando meu tempo livre com outras coisas. O que é bem diferente de dizer que nao tenho tempo e por isso mesmo muito pior. Se eu tivesse mais tempo, o resultado seria eu gastar muito mais tempo fazendo as coisas que eu já faco além de escrever e escreveria proporcionalmente o mesmo tanto.


Mas eu devia postar todo dia. E subitamente me vem a vontade de escrever um post por dia, no mínimo. De contar o que aconteceu, o que nao aconteceu e deveria ter acontecido . De discorrer sobre a infinidade de assuntos que a Alemanha oferece. De contar minhas aventuras de bicicleta, que nunca mais foram mencionadas. De falar dos filmes que vi e dos livros que estou lendo, mesmo que nao esteja lendo nenhum. De contar sobre os supermercados sobre o trânsito sobre a cidade sobre o título na terra da batata que até hoje nao foi tematizado. E falar das histórias passadas que já estao quase esquecidas. A Páscoa, todas as festas tradicionais que já vi por aqui. Falar das pessoas que conheci, de encontros engracados, do brasileiro na sorveteria, das aulas de tango, dos passeios com minha família, das brigas com minha família. Vocês nao sabem de nada disso. E eu na verdade já estou quase esquecendo tanta coisa que é preciso falar. Preciso pelo menos mencioná-las pra um dia ter a decência de compartilhar com vocês.


- Você devia postar todo dia.


Mas isso vai ter que esperar. Nao vou escrever tao cedo durante as próximas duas semanas, talvez três. E talvez por isso tenha deixado toda a lista de coisas a serem feitas de lado e escrito sobre um assunto tao metalingüístico, que nao vai colocar o assunto do blog em dia. E dentro de exatamente 24 horas vao comecar a jorrar assuntos a serem escritos. E eu preciso escrever na minha lista para lembrar de levar um caderninho de anotacoes, como todo escritor que se preze deve ter. E tentar nao fazer como eu fiz no evento da Basf, um resumao pra acontecimentos que dariam no mínimo quatro posts. Vou tentar, juro, um post pra cada cidade, no mínimo, ainda que demore um pouco mais pra ser atualizado... Mais uma coisa pra acrescentar na lista. O roteiro? Ainda nao está muito certo. Ou na verdade até está, mas nao quero contar antes. E nao devia nem ter falado pra família, que sempre parece parar de prestar atencao quando eu chego na metade. Talvez seja coisa demais. Talvez eles esperem que eu fale o nome de três cidades famosas e pronto. Mas duas semanas e meia pra conhecer a Europa é definitivamente muito pouco. E o fato de nao estar conseguindo dormir agora, às 2 e meia da madrugada faz com que amanha nesse mesmo horário, quando eu devo estar no ônibus que vai pro aeroporto, eu nao esteja exatamente tao descansada assim, como eu tinha planejado quando fui pra cama umas 3 horas atrás. E talvez amanha seja ainda pior e eu nao consiga nem fechar os olhos, de ansiedade. Como as noites que antecedem o Natal na nossa infância. O bom dessa época é que somos obrigados a ficar deitados, porque Papai Noel só vem quando a gente está dormindo. Ou pelo menos na minha família (dessa vez a de verdade) ele faz assim. E sem computadores e blogs pra desviar a atencao da nossa mente, acabávamos dormindo. Bons tempos.


E agora, hipnotizados pelo brilho frio do monitor, meus olhos já comecam a protestar pelos seus direitos trabalhistas e exigir adicional noturno pelas horas extras trabalhadas hoje. E ameacam greve. E eu espero, sinceramente, que eles fechem as portas dessa vez. Boa noite.

sábado, 22 de agosto de 2009

Revirando lixo

Hoje eu fui fazer uma das coisas que eu menos gosto das minhas tarefas diárias - colocar o lixo pra fora. O lado bom de pôr o lixo pra fora na Alemanha é que aqui é tudo separadinho. Papéis e papeloes numa lata, restos orgânicos em outra, plásticos e embalagens em geral num saco, vidros no porao e todas os outros elementos que nao se encaixam nas categorias acima em outra lata. Tipicamente alemao. A minha família, apesar de ser alema, de vez em quando dá umas escorregadas e esquece que sacola de plástico nao é resto orgânico, que existe um "lixo" específico pra roupas e sapatos usados e que muitas coisas às vezes novas que eles jogam fora podem ter utilidade pra outras pessoas, como a pobre au-pair que mora na casa deles. Eu nao resisto quando vejo um objeto praticamente novo, que muitas vezes eu estava justamente precisando, abandonado no meio de embalagens e frascos plásticos. Eu preciso salvá-lo. E eu sei que nesse momento minha família se contorce de desgosto por descobrir que ao contrário do que eles pensavam, a Carolzinha nao foi pra Alemanha estudar, mas pra revirar latas de lixo. E acho que a imagem que todo mundo forma quando quem passou um tempo no exterior conta das coisas que achava no lixo nao é lá das melhores. Lembro de quando o Genim escrevia seus relatos da vida nos EUA e eu, ainda no Brasil, nao conseguia imaginar outra coisa diferente do que no Brasil a gente chama de lixo. E nao era muito agradável imaginá-lo encontrando seus tesouros - entre TVs e colchoes - em um ambiente tao... inóspito. Nao sei exatamente como é a situacao do lixo nos EUA, mas imagino que eles também reciclem e que uma lata delixo lá seja bem diferente das que a gente encontra no Brasil - quer dizer, ainda existe lata? Entao quando eu digo que achei algo no lixo, vocês nao precisam me imaginar revirando batatas e salsichas podres. Minha família erra a pontaria de vez em quando, mas as coisas mais interessantes que eles jogam fora costumam estar rodeadas apenas de papéis ou plásticos limpinhos. E entre os objetos desamparados que já encontrei estao bolsas, pochetes, porta-documentos de viagem, chaves, maquiagem, brinquedos, livros, agenda, cadernos, sapatos, roupas, copos, caixas de bombom fechadas, tudo em perfeitas condicoes de uso e sem nenhum motivo aparente pra serem jogados fora. Eu nao resisto. Como boa brasileira (e acredito que isso seja uma característica brasileira, mas me corrijam, caso vocês me achem louca) eu resgato tudo o que possa ser útil, mesmo que nao seja útil pra mim. Lembro depois da Páscoa, quando eles jogaram fora quase todo o chocolate que as criancas tinham ganhado, dizendo que a marca nao era boa, além de várias caixas de bombom e sacos de bala, no que parecia ser uma arrumacao do estoque de doces da casa. Eu nao sou exatamente fa de chocolate e no Brasil sigo fielmente a tradicao de manter meus ovos de páscoa até uns 6 meses depois de ter ganhado. Se eu como? Na verdade nao. Eles sobrevivem até que um dia enquanto arrumo meu quarto eu os encontre e acabe dando (os chocolates) pro meu irmao, que nao se importa muito de eles terem meio ano de idade. Antes que eles comecem a engatinhar pelo meu quarto. Apesar disso e consciente da minha condicao, acabei adotando mais de um quilo de chocolates órfaos cruelmente abandonados no lixo. Acabei cuidando deles tao bem que até hoje têm um lar aquecido, no armário da minha cozinha (para os leitores desavisados, o quarto em que moro é equipado com cozinha, além de um banheiro e varanda (sim, eu estou bem de vida)) e contavam até pouco tempo com a companhia de dois ovos de verdade, pintados, que foram presente de Páscoa junto com outros chocolates. Mas fui obrigada a me desfazer dos dois ovinhos, que depois de alguns meses nao estavam exatamente com o melhor cheiro do mundo. Eles nao virariam pintinhos de qualquer forma. Os chocolates ainda estao lá, assim como os brinquedos e roupas e sapatos que eu resgatei da condenacao eterna. É claro que eu nao penso em levar tudo de volta pro Brasil. As minhas no mínimo 3 malas gigantes já estarao cheias o bastante para abrigar restos de lixo. Talvez eu doe as coisas pra alguma instituicao ou monte um mercado de pulgas e venda cada peca por 1 €. Mas acho que o mais provável é que todas elas acabem aonde foram encontradas, a menos que meu irmao venha me visitar, no caso dos chocolates. E respondendo à pergunta que nao quer calar, nao, os chocolates que eu mandei pra vocês nao foram encontrados no lixo.


Um outro tipo de lixo que eles tem aqui e que pelo jeito é recolhido uma ou duas vezes por ano é o que eles chamam de algo como "lixo grande" e sao os móveis, eletrodomésticos, e toda a sorte de bugigangas que habita a garagem dos alemaes sem qualquer outra finalidade além de ocupar o espaco em que deveria estar o carro deles, que normalmente fica na rua. No dia que esse lixo vai ser recolhido, as pessoas à noite colocam as coisas pra fora de casa e no dia seguinte passa um caminhao - ou vários caminhoes, considerando a quantidade - recolhendo tudo. Eu nao sabia disso. Fiquei sabendo no dia em que estava voltando da festa de despedida da Mayara, uns meses atrás. Depois de uns 20 minutos pedalando, em uma hora em que todos os alemaes sensatos deveriam estar dormindo, alguns ainda se aventuravam pra fora de casa, aparentemente entretidos em empilhar o maior número de móveis velhos na porta da rua. Pensei que podia ser alguma gincana ou qualquer tradicao bizarra que de vez em quando eles inventam. E perguntei pra um dos mocinhos que enfilerava algumas cadeiras. E ele me explicou o que eu contei pra vocês. O que eu fiz? Fui pra casa tranquilamente, tomei um banho, vesti uma roupa confortável, peguei apenas minha chave e saí, às 2 da madrugada catar lixo na rua. Até os alemaes mais insensatos já estavam dormindo nessa hora e eu nao precisava ficar com vergonha de eles me virem mexendo no lixo deles. Alguns outros alemaes, muito mais sensatos estavam ainda acordados com carros e vans na rua carregando o que podiam. Eu faria isso, se pudesse. Mas nao dava pra carregar muita coisa. Acabei pegando uma mesinha que uso como mesa de cabeceira, duas almofadas, uma cesta e umas outras coisinhas, que nao me lembro mais. Mas teria levado uma escrivaninha e um sofá antigo lindo lindo que encontrei... Fiquei pensando se nao valeria a pena pegar algumas dessas coisas e mandar de navio pro Brasil, junto com as malas extras que vou precisar pagar. Quem sabe na próxima?


Mas hoje, quando eu coloquei o lixo pra fora nao encontrei nenhum tesouro escondido além de duas lesmas gigantes e provavelmente psicopatas que resolveram morar na tampa da lata de lixo, tornando minha tarefa muito mais asquerosa. Fechei a tampa, enojada, e me virei, pra voltar pra casa. E minha surpresa ao me virar foi muito melhor que qualquer lesma ou qualquer chocolate. às sete e meia da noite o sol nao estava ainda se pondo, mas com uma luz mais tênue, assim, de quase entardecer. E pairando no horizonte, acima de qualquer reflexao banal sobre o lixo na Alemanha, cerca de quinze baloes de ar quente, desses que transportam pessoas, nao os de festa. Nunca tinha visto tantos baloes desses ao mesmo tempo. Fiquei pensando porque é que tinha tantos naquela hora, mas nao faco idéia. Só sei que foi uma cena tao bonita que até apagou na hora a lembranca das lesmas na lata de lixo. E é engracado como que as fotos nunca conseguem capturar a real beleza desses momentos. E é por isso que nao vou postar aqui a foto que tirei. E na imaginacao de vocês a cena vai ser muito mais bonita do que se vocês a vissem. Deixe que cada um faca sua própria viagem. E da minha viagem também nao falo muito. O primeiro pouso é em Roma, na próxima quinta-feira. Mas nao vou contar muito a sequência pra nao criar expectativas e decepcoes caso eu altere meus planos. O que é bastante provável, uma vez que nao tem nada muito definido. Mas quando eu voltar, aguardem sim, muitas fotos.



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pelas Padarias da Europa

Bem, de novo fiquei muito tempo sem escrever. Juro que nao faco de propósito e que queria de verdade escrever muito aqui. Mas sempre arrumo outras coisas pra ocupar meu tempo. Sem contar que agora estou numa fase de "aceitar pra ir até na padaria da esquina", claro que nao com qualquer um. Mas as padarias tomam bastante tempo. E eu que sou feita de fases, nao consigo ocupar meu tempo com muitas coisas diferentes. Já tive minha fase de escrever no blog, em que eu ficava até de madrugada escrevendo e tinha até que salvar os posts sem publicá-los pra dar tempo dos leitores lerem - e comentarem, de preferência. Agora tenho que postar rápido antes que vocês parem de ler por achar que os abandonei. Mas nao. É chato nao poder contar tudo aqui, porque as coisas sobre as quais eu mais queria escrever ficam sendo acumuladas. Por um lado é bom, porque assim eu teria muito material quando fosse escrever meu livro. Por outro é ruim, porque eu posso acabar esquecendo de contar alguma coisa. Entao o que eu resolvi fazer foi escrever as histórias proibidas. Nao publicá-las aqui, mas escrevê-las como se fossem posts mesmo, com comeco meio e fim. O que vou fazer com elas ainda nao sei, mas tenho esperanca de ver tudo impresso e encadernado, por mais que isso pareca um sonho medíocre de uma estudante de letras. Mas na verdade é um sonho muito mais antigo. E acho engracado que eu tenho vontade de contar realmente tudo o que acontece, de nao segurar a língua, mesmo quando eu sei de todas as consequências que isso traria. Nao sei se eu conseguiria escrever ficcao. Acho que minha vida real já tem material suficiente pra um livro. Ou mais. E nao consigo parar de ter idéias. A história vem na minha mente, totalmente estruturada, com todos os personagens e desfechos, principalmente enquanto estou passando roupa. Nao consigo evitar. É eu comecar a passar roupa e me vêem as frases já prontas, como se nao houvesse outro jeito de narrar. Mas nao é muito prático escrever enquanto se passa roupa, porque pra fazer isso tenho que parar totalmente o meu trabalho. E tive entao a brilhante idéia de falar e gravar o que eu pensava. Tudo bem, só fiz isso uma vez, quando nao tinha ninguém em casa. E acho que eles vao achar muito estranho se me ouvirem falando sozinha no porao. Tenho que contextualizar minha família, avisá-los de que se por acaso me ouvirem falando sozinha, isso tem um propósito muito nobre e nao é somente uma anomalia psicológica, como seria possível pensar. Antes que eles me internem.


Mas além de passar roupa e ir a padarias, algo que tem ocupado muito meu tempo ultimamente é a minha viagem de férias. Terei três semanas de férias esse mês e estou planejando um jeito de conhecer o maior número possível de cidades européias nesse período. A questao é que já está um pouco tarde pra planejar isso. Nessa altura do campeonato eu deveria estar com tudo pronto, passagens compradas, hotéis /albergues / couchs reservados... Mas na verdade ainda nem resolvi muito bem pra onde que eu vou. Estou tentando dividir meu tempo entre umas 10 cidades mais ou menos. E isso pra 3 semanas, que na verdade nem chegam a 3 é muita coisa. Como eu nao conheco quase nada ainda, quero conhecer tudo o que me for possível. Mas tudo é muita coisa. E a Europa na verdade é muito pouco pro tanto que eu quero conhecer. Comecei a pensar, no meu primeiro plano de viagem, que conhecer essas cidades mais famosas era bobagem e que eu podia muito bem ir pra Atenas, por exemplo em vez de ir pra Paris ou Istambul, em vez de ir pra Barcelona. Mas nao é tao simples assim. Nesse plano de viagem eu gastaria 5 dias inteiros só viajando de trem, barco ou ônibus pra chegar nos meus destinos. Agora que resolvi abandonar o leste europeu e ficar com Paris e Barcelona, aproveitei os cinco dias que estavam me sobrando e coloquei mais cidades no roteiro. Só que foi um pouquinho demais. E tenho que considerar tanta coisa antes de cortar/incluir uma cidade que nao sei o que que eu estou fazendo aqui enquanto devia estar organizando isso. Mas vamos com fé que vai dar certo. Mas nao sei muito bem quando vou escrever de novo. Queria prometer escrever pelo menos uma vez antes da viagem, mas nao vou fazer isso, porque nao tenho idéia se vou conseguir. Depois, claro, relato quase completo e com muitas fotos. Mas durante a viagem vocês nao precisam me esperar... vou ter padarias demais pra visitar.



domingo, 2 de agosto de 2009

De personagens e rabos quentes

Depois de um período consideravelmente longo, estou de volta. Nao sei por quanto tempo, mas pelo menos hoje vocês vao poder me ver por aqui. Agradeco todos os comentários que recebi dos leitores preocupados e acho que foi somente por causa de vocês que resolvi afinal de contas, voltar. Vocês merecem. Mas ao contrário do que poderiam pensar, nao há nenhum motivo para preocupacao. Continuo aqui na mesma família, com mais ou menos a mesma rotina, que vira e mexe se altera um pouco. Tenho sim, muita coisa pra contar, muita coisa pra escrever, mas nem sempre isso é possível. Nao sinto tanta liberdade para falar a respeito aqui. Sendo um diário de viagem, supoe-se que tudo que eu conto aqui atém-se ao que realmente acontece na minha vida. Pode ter um ou outro exagero, mas eu tento ser sincera e mesmo que eu escreva a mentira mais deslavada (ou lavada?) que eu seria capaz de conceber, vocês tenderiam a achar que é verdade e deixariam de confiar em mim se soubessem que foi tudo invencao. Mas nao, nao estou querendo contar nenhuma mentira. Pelo contrário. A questao é que todas as novidades que eu tenho no momento, todas as coisas novas que estou vivenciando nao sao assunto para falar em um blog-diário-de-viagem. Nao que vocês nao merecam saber. O problema é se tornar tao público. E tao sincero. Se algum dia o sonho de publicar um livro sair da minha cabeca e for realmente parar no papel, seria diferente. Em um livro eu poderia contar todas as verdades mais secretas, nos seus mínimos detalhes e chamar de ficcao. Aí fica mais fácil, mesmo que seja ainda mais público. Eu seria minha personagem. E poderia jurar de pés juntos que nada do que está escrito aconteceu. Ou seria apenas misteriosa e responderia com um vago "quem sabe?" quando me perguntassem... De qualquer forma, nao é hora de vocês saberem. E quando chegar a hora nem eu mesma vou saber se aquilo foi realmente só imaginacao.


(...)


Fiquei feliz ao ver uma personagem minha tomando vida e aparecendo efetivamente na minha história. Aí vocês podem ter certeza de que algumas coisas realmente acontecem... Já era tempo, Mayara! Gostei de ler os comentários, mesmo que em todos eles eu tenha sido descreditada. Mas é claro que os leitores sabem que eu nao queria dizer aquilo mesmo. Quer dizer, querer eu queria, senao nao teria escrito, mas só por eu ter escrito nao significa realmente que é minha opiniao mais sincera, mas sim que o efeito literário fica muito melhor com do que sem exageros. É lógico que eu nao achei que ela pegaria minhas pulseiras ou que estava tao bêbada a ponto de nao perceber o que estava acontecendo à sua volta (embora eu tenha CERTEZA que ela nao percebeu que eu nao tomei o licor). E é claro que ela nao disse nada sobre fazer mumu com o rabo quente, o que deve ser realmente difícil, mas nao impossível. Tá bom, a frase ficou estranha mesmo em gauchês, por isso vou tentar me redimir e contextualizá-la...




O gaúcho entra no quarto da chinóca com o cacetinho na mao e diz:


- Ba, guria, tu sabe fazer mumu com o rabo quente?


- Capaz! Nunca fiz nao, tchê!


- Agora eu to embretado! Tava comendo o negrinho na cozinha e a dona Ana chegou e ainda me viu com o cacetinho na mao. Como eu acabei com o negrinho, ela disse que eu tenho que fazer mumu com o rabo quente se eu quiser comer negrinho de novo.


- Ba, achei que tu fosse colhudo! Só por causa desse cacetinho? Ainda se fosse maior... Tu nao vai bater a canastra por isso...


- A la pucha! Eu tô é gastando pólvora em chimango aqui! Cala a boca e abre cancha se nao quiser que eu te passe o relho.


- Mas tu é duro de boca! Como é que quer fazer mumu com o rabo quente, em cima do laco e com o estribo frouxo? Passa esse cacetinho pra cá e eu me viro com o rabo quente. Daí tu come esse negrinho que tá aí no bidê enquanto eu faco mumu.


Mais tarde, a chinóca escreve no seu diário, terminando de contar a história: "Peguei o cacetinho e fiz mumu com o rabo quente enquanto ele comia o negrinho"



Seria ou nao seria possível??? O grande problema é que minha pesquisa sobre gauchês tomou muito mais tempo do que eu esperava e o post vai ter que ficar por aqui. Tá achando que é fácil assim falar gauchês?? Num é nao, sô!! No próximo talvez eu poste umas fotos pra compensar. Mas sim, sim, vai ficar sem traducao de novo. Acho que é sempre mais interessante ver aonde que a imaginacao pode levar quando o que foi escrito nao é explicado... Deixa cada um interpretar o que quiser. Significados sempre pode ter muitos.