sábado, 22 de agosto de 2009

Revirando lixo

Hoje eu fui fazer uma das coisas que eu menos gosto das minhas tarefas diárias - colocar o lixo pra fora. O lado bom de pôr o lixo pra fora na Alemanha é que aqui é tudo separadinho. Papéis e papeloes numa lata, restos orgânicos em outra, plásticos e embalagens em geral num saco, vidros no porao e todas os outros elementos que nao se encaixam nas categorias acima em outra lata. Tipicamente alemao. A minha família, apesar de ser alema, de vez em quando dá umas escorregadas e esquece que sacola de plástico nao é resto orgânico, que existe um "lixo" específico pra roupas e sapatos usados e que muitas coisas às vezes novas que eles jogam fora podem ter utilidade pra outras pessoas, como a pobre au-pair que mora na casa deles. Eu nao resisto quando vejo um objeto praticamente novo, que muitas vezes eu estava justamente precisando, abandonado no meio de embalagens e frascos plásticos. Eu preciso salvá-lo. E eu sei que nesse momento minha família se contorce de desgosto por descobrir que ao contrário do que eles pensavam, a Carolzinha nao foi pra Alemanha estudar, mas pra revirar latas de lixo. E acho que a imagem que todo mundo forma quando quem passou um tempo no exterior conta das coisas que achava no lixo nao é lá das melhores. Lembro de quando o Genim escrevia seus relatos da vida nos EUA e eu, ainda no Brasil, nao conseguia imaginar outra coisa diferente do que no Brasil a gente chama de lixo. E nao era muito agradável imaginá-lo encontrando seus tesouros - entre TVs e colchoes - em um ambiente tao... inóspito. Nao sei exatamente como é a situacao do lixo nos EUA, mas imagino que eles também reciclem e que uma lata delixo lá seja bem diferente das que a gente encontra no Brasil - quer dizer, ainda existe lata? Entao quando eu digo que achei algo no lixo, vocês nao precisam me imaginar revirando batatas e salsichas podres. Minha família erra a pontaria de vez em quando, mas as coisas mais interessantes que eles jogam fora costumam estar rodeadas apenas de papéis ou plásticos limpinhos. E entre os objetos desamparados que já encontrei estao bolsas, pochetes, porta-documentos de viagem, chaves, maquiagem, brinquedos, livros, agenda, cadernos, sapatos, roupas, copos, caixas de bombom fechadas, tudo em perfeitas condicoes de uso e sem nenhum motivo aparente pra serem jogados fora. Eu nao resisto. Como boa brasileira (e acredito que isso seja uma característica brasileira, mas me corrijam, caso vocês me achem louca) eu resgato tudo o que possa ser útil, mesmo que nao seja útil pra mim. Lembro depois da Páscoa, quando eles jogaram fora quase todo o chocolate que as criancas tinham ganhado, dizendo que a marca nao era boa, além de várias caixas de bombom e sacos de bala, no que parecia ser uma arrumacao do estoque de doces da casa. Eu nao sou exatamente fa de chocolate e no Brasil sigo fielmente a tradicao de manter meus ovos de páscoa até uns 6 meses depois de ter ganhado. Se eu como? Na verdade nao. Eles sobrevivem até que um dia enquanto arrumo meu quarto eu os encontre e acabe dando (os chocolates) pro meu irmao, que nao se importa muito de eles terem meio ano de idade. Antes que eles comecem a engatinhar pelo meu quarto. Apesar disso e consciente da minha condicao, acabei adotando mais de um quilo de chocolates órfaos cruelmente abandonados no lixo. Acabei cuidando deles tao bem que até hoje têm um lar aquecido, no armário da minha cozinha (para os leitores desavisados, o quarto em que moro é equipado com cozinha, além de um banheiro e varanda (sim, eu estou bem de vida)) e contavam até pouco tempo com a companhia de dois ovos de verdade, pintados, que foram presente de Páscoa junto com outros chocolates. Mas fui obrigada a me desfazer dos dois ovinhos, que depois de alguns meses nao estavam exatamente com o melhor cheiro do mundo. Eles nao virariam pintinhos de qualquer forma. Os chocolates ainda estao lá, assim como os brinquedos e roupas e sapatos que eu resgatei da condenacao eterna. É claro que eu nao penso em levar tudo de volta pro Brasil. As minhas no mínimo 3 malas gigantes já estarao cheias o bastante para abrigar restos de lixo. Talvez eu doe as coisas pra alguma instituicao ou monte um mercado de pulgas e venda cada peca por 1 €. Mas acho que o mais provável é que todas elas acabem aonde foram encontradas, a menos que meu irmao venha me visitar, no caso dos chocolates. E respondendo à pergunta que nao quer calar, nao, os chocolates que eu mandei pra vocês nao foram encontrados no lixo.


Um outro tipo de lixo que eles tem aqui e que pelo jeito é recolhido uma ou duas vezes por ano é o que eles chamam de algo como "lixo grande" e sao os móveis, eletrodomésticos, e toda a sorte de bugigangas que habita a garagem dos alemaes sem qualquer outra finalidade além de ocupar o espaco em que deveria estar o carro deles, que normalmente fica na rua. No dia que esse lixo vai ser recolhido, as pessoas à noite colocam as coisas pra fora de casa e no dia seguinte passa um caminhao - ou vários caminhoes, considerando a quantidade - recolhendo tudo. Eu nao sabia disso. Fiquei sabendo no dia em que estava voltando da festa de despedida da Mayara, uns meses atrás. Depois de uns 20 minutos pedalando, em uma hora em que todos os alemaes sensatos deveriam estar dormindo, alguns ainda se aventuravam pra fora de casa, aparentemente entretidos em empilhar o maior número de móveis velhos na porta da rua. Pensei que podia ser alguma gincana ou qualquer tradicao bizarra que de vez em quando eles inventam. E perguntei pra um dos mocinhos que enfilerava algumas cadeiras. E ele me explicou o que eu contei pra vocês. O que eu fiz? Fui pra casa tranquilamente, tomei um banho, vesti uma roupa confortável, peguei apenas minha chave e saí, às 2 da madrugada catar lixo na rua. Até os alemaes mais insensatos já estavam dormindo nessa hora e eu nao precisava ficar com vergonha de eles me virem mexendo no lixo deles. Alguns outros alemaes, muito mais sensatos estavam ainda acordados com carros e vans na rua carregando o que podiam. Eu faria isso, se pudesse. Mas nao dava pra carregar muita coisa. Acabei pegando uma mesinha que uso como mesa de cabeceira, duas almofadas, uma cesta e umas outras coisinhas, que nao me lembro mais. Mas teria levado uma escrivaninha e um sofá antigo lindo lindo que encontrei... Fiquei pensando se nao valeria a pena pegar algumas dessas coisas e mandar de navio pro Brasil, junto com as malas extras que vou precisar pagar. Quem sabe na próxima?


Mas hoje, quando eu coloquei o lixo pra fora nao encontrei nenhum tesouro escondido além de duas lesmas gigantes e provavelmente psicopatas que resolveram morar na tampa da lata de lixo, tornando minha tarefa muito mais asquerosa. Fechei a tampa, enojada, e me virei, pra voltar pra casa. E minha surpresa ao me virar foi muito melhor que qualquer lesma ou qualquer chocolate. às sete e meia da noite o sol nao estava ainda se pondo, mas com uma luz mais tênue, assim, de quase entardecer. E pairando no horizonte, acima de qualquer reflexao banal sobre o lixo na Alemanha, cerca de quinze baloes de ar quente, desses que transportam pessoas, nao os de festa. Nunca tinha visto tantos baloes desses ao mesmo tempo. Fiquei pensando porque é que tinha tantos naquela hora, mas nao faco idéia. Só sei que foi uma cena tao bonita que até apagou na hora a lembranca das lesmas na lata de lixo. E é engracado como que as fotos nunca conseguem capturar a real beleza desses momentos. E é por isso que nao vou postar aqui a foto que tirei. E na imaginacao de vocês a cena vai ser muito mais bonita do que se vocês a vissem. Deixe que cada um faca sua própria viagem. E da minha viagem também nao falo muito. O primeiro pouso é em Roma, na próxima quinta-feira. Mas nao vou contar muito a sequência pra nao criar expectativas e decepcoes caso eu altere meus planos. O que é bastante provável, uma vez que nao tem nada muito definido. Mas quando eu voltar, aguardem sim, muitas fotos.



4 falando de mim:

edna viterbo disse...

Acho q vc herdou essa coisa da sua vó Aurea. Ela sempre acha q dá pra aproveitar algo, brigamos sempre por isso.
Tô esperando ansiosa seu tour pela Europa. Aproveite o máximo e dê notícias. Saudades e muitos beijos.

Renata disse...

Ah, vc vai amar a Cidade Eterna!
Bom passeio!
Beijos

Genim disse...

Hehehe
Carol, fiquei muito feliz com a referência no texto. Realmente, apenas quem conhece e vê com os próprios olhos o "lixo" dos EUA, Europa e & sabe que o abandono de objetos é um problema sério de "saúde pública" e também quanto a preservação do nosso planeta.
E o pior é que no início você pensa: "ah, isso dá para usar ainda e por muito tempo... tá super novo.. e vai ser muito útil"... Mas depois vira uma compulsão de recolher tudo que seja útil! hehehe
Você acredita que um dia fomos a um bairro de rico em Austin apenas para ver como era o lixo??? Pena que parece que a coleta do bairro deles era diferente, então não encontramos nada.... Apenas uma escuridão, medo, sustos... E risos também, afinal tudo vira festa!

bjs e curte muito o tour pela Europa
Saudades de ti...

Acredita que eu sonhei com você: era o seguinte eu simplesmente não sabia exatamente o caminho até minha faculdade, parece que mudou e ninguém me avisou. Fiquei meio perdido e de repente, encontrei você, a Quel e as Nat's. Elas estavam aguardando sua chegada. Você estava bastante feliz! E eu fiquei muito surpreso também, apesar de ninguém ter me informado.

tissalu disse...

eta história porreta, eu desde menino sempre fui muito atraido pelos lixos que tavam um bom dinheirinho;certas vezes no meio de latinhas, cobres,achava-se brinquedos até dinheiro já pintou nestas catanças.as pessoas compram coisas demais os capitalistas do imperio doido querem é lucro a qualquer custo e enchem o lindo planeta de coisas superfulas e ai não sabem o que fazer com elas. o bom da catança é a hora do encontro com;um pote de moedas de ouro,uma mala cheia de dolares ou de euros,libras,jóias ou sacolinhas com diamantes etc. e tal... se por acaso achar uns destes itens acima favor ligar para os primitivos do lado de cá... abraços do tissaluuuuuuuuuu.

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