sábado, 31 de outubro de 2009

Nas garras da Máfia - Parte II

Leia a Parte I aqui


Lá estava ele, no topo da montanha (ou no último andar do prédio, como preferirem). Uma mão na cintura, um braço apoiado no balcão e um charme digno de qualquer galã hollywoodiano. Sozinho, meu Deus, sozinho. Passaram várias coisas pela minha cabeça. Provavelmente eu não tinha resistido à escalada, ao peso e à fome reunidos e meu corpo inerte se encontrava em algum ponto da escada. Eu estava sonhando, estava em outra dimensão, estava no céu, mas aquele homem não tinha condições de pertencer à realidade. Uma voz sutil soprava na minha consciência qualquer coisa sobre um namorado no Brasil enquanto eu caminhava em direção ao balcão, meio abobada, meio flutuando, tentando disfarçar enquanto esperava ser atendida. Vi ele pegando a chave e até tentei ver o número (claro que só por curiosidade), mas não consegui. E a moça do balcão teve que me dar bom dia duas vezes (ou talvez até mais) pra eu perceber que tinha chegado minha vez.


Seguindo o esquema de "viagem flexível", eu tinha apenas olhado na internet se o hotel tinha vagas e o preço, para decidir depois se eu iria ficar mesmo lá. E só descobri a duras penas que é pura perda de tempo deixar para decidir depois se eu acabo invariavelmente escolhendo o mais barato, algumas vezes a altos custos. E pedi uma cama em um quarto para 4 pessoas.


- Custa 15.


- 15? Mas eu olhei na internet e o preco era 10...


- Ah, tudo bem, 10 então.


Achei estranha a rapidez com que o preço abaixou. Até pensei em pechinchar mais um pouco. Você faz por 5 então? Mas ela não parecia gostar muito de brincadeiras. E achei ainda mais estranho quando ela informou que o café da manhã seria servido naquele andar. Dez euros já era barato. Com café da manhã, era ridículo. Não devia ser verdade. Devia ser, no máximo um copo de café. Sem açúcar. Mas isso eu descobriria no outro dia. Resolvi perguntar então porque a recepção estava sendo feita no outro hotel.


- Ah, os dois hotéis são a mesma coisa...


Se eles fossem a mesma coisa, um não chamaria Residência e o outro Darcy. Se eles eram a mesma coisa e a recepção do hotel Residência, em que eu ficaria hospedada, era sempre feita no Darcy, era como se o Residência não existisse. Não estava cheirando muito bem. E não sei porque, a música tema do Poderoso Chefão não parava de tocar na minha cabeça. Mas eu não imaginava que as coisas só estavam começando.


Continua...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nas garras da Máfia - Parte I

Não fazia parte dos meus planos visitar Florença. Mas sempre que eu falava com quem quer que seja dos meus planos de viajar pra Itália, diziam na hora que eu nao podia deixar de ir pra lá. As amigas italianas, ao mesmo tempo que disseram que pra Viterbo eu deveria reservar nada mais que duas horas, quando eu perguntei quanto tempo eu deveria passar entao em Florença, a resposta imediata foi:


- Um ano!


E eu que estava querendo mais fazer uma espécie de escala lá, entre Roma e Veneza...


- Mas é melhor ter passado um dia em Florenca do que passar pela Itália sem conhecê-la.


Bom, se vocês colocam as coisas nesses termos... Entao vamos pra Florenca!


O chato de ir pra lá é que a cidade é considerada uma das mais caras da Itália. E como um dos princípios de ser au-pair é nao ter muito dinheiro (pra nao dizer nenhum), tinha que fazer alguns malabarismos pra economizar. Em Florença nao foi diferente. Assim, quando encontrei um hotel pela metade do preco dos outros, nao hesitei em ir pra lá. Tudo bem se a entrada do prédio era em uma rua no melhor estilo centro de Belo Horizonte. Tudo bem se eles nao tinham nem uma placa decente indicando o nome do hotel e eu tive que passar por ele cerca de 3 vezes até entender que era ali. O que importava era o preco. E carregando 50 kg nas costas, eu nao estava com a menor vontade de perambular pela cidade à procura de outros hotéis. Vai esse mesmo.


Toquei a campainha e me atendeu um homem com cara de indiano e roupas de pedreiro, resmungando qualquer coisa em qualquer língua (e sendo indiano, as opcoes eram muitas), apontou uma portinha perto da escada e sumiu pelo prédio adentro. Analisei bem a portinha e achei que podia ser um armário de vassouras ou coisa do tipo. Mas uma plaquinha me indicou que era o elevador. Mas juro que depois de abrir a porta, comecei a pensar se nao seria mesmo um armário de vassouras. Mas era pequeno demais pra esse fim. E nao tinha vassouras. E pra usá-lo com o fim de elevador, eu teria que escolher se entrava eu ou minha mochila. Ou a mochila subia de elevador e eu subia de escada correndo pra evitar que alguém a encontrasse antes de mim, ou eu subia de elevador e deixava a mochila subir de escada sozinha. Mas alguma coisa me disse que nao ia dar certo e cansada demais para pensar em qualquer outra alternativa, optei pelo que me deixaria ainda mais cansada: subir de escada com a mochila.


A minha primeira surpresa foi que a recepcao nao era mais no 3° andar, como indicado na plaquinha do prédio, mas no 5°. Curiosamente, provavelmente porque plutao estava alinhado com saturno naquele dia, a recepcao seria feita em outro hotel, que ficava no mesmo prédio. A história estava mal contada. Mas nao é exatamente uma coisa muito fácil mudar os planos quando se carrega 100 kg nas costas (porque é claro que depois de 3 andares a mochila ficou muito mais pesada). Entao, sem alternativas, continuei a escalada.


Chegando no topo do prédio, pronta para no último fôlego fincar a bandeira na neve, avistei algo que me fez perder todo o fôlego, bandeira e qualquer outra coisa que eu tivesse e nao tivesse no momento.


Continua...

Fatos

O fato é que eu tenho algumas centenas de posts rabiscados em pedacos de papel, que eu sempre levo comigo pra quando eu tiver tempo no trabalho, mas nessa correria em que me encontro de acordar cedo, muito cedo, ir pra faculdade, voltar de bicicleta correndo, trabalhar até tarde, ir pro curso de tango, acordar cedo, muito cedo (nao, eu nao durmo mais), eu nao arranjo tempo pra digitar tudo (nem pra arrumar meu quarto, mas isso já é patológico). O fato é que eu nao contei nem da metade da viagem e agora já tenho outra pra contar, mas como a primeira já está ligeiramente escrita, vou dar preferência a ela. O fato é que vao surgindo outros assuntos e eu vou falando de tudo ao mesmo tempo e as datas vao ficando uma bagunca e vocês nem devem mais saber por onde estao andando as coisas. Mas eu prometo arrumar, assim que eu acabar de contar a primeira viagem. O fato é que  eu comeco a ficar com medo de esquecer do que é que eu ia falar ou o que tem de importante pra contar das coisas que já aconteceram há mais de dois meses. O fato é que eu já comeco a achar que o wordpress é uma droga e queria um blogger da vida pra poder brincar de verdade de mudar template. Mas isso já é outro assunto.


O fato é que vocês vao ter que esperar pra eu contar pra onde eu fui na última semana... Embora até lá talvez alguns já saibam. E espero que aproveitem a próxima saga em Florenca, que aconteceu no comeco de setembro e que entra no ar dentro de alguns instantes...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Volta às aulas

Sei que vocês estão querendo saber mais da minha viagem, que não chegou nem na metade ainda. E sinto informar que eu não vou conseguir atualizar os posts antes de viajar de novo. O que acontecerá dentro de algumas horas. Mas vou deixar sendo surpresa também. E antes que vocês comecem a pensar que vida de au-pair é só viajar, vamos para um tema mais concreto. As viagens? Sim, sim, prometo contar depois.


As férias acabaram. Depois de quatro meses na mesma rotina acordar tarde - trabalhar - ficar até tarde no computador - acordar tarde, resolvi viver para algo mais além de criancas e cama. E comecei a preencher meu tempo livre com toda a sorte de aulas que eu conseguisse freqüentar. Nao só de alemao, mas algumas mais ousadas como didática, psicologia e até inglês (que eu realmente preciso). E no comeco da semana, tendo acordado espantosamente às 7:30, sem direito à qualquer efeito soneca, fui pra minha primeira aula. Retórica da Fala ou qualquer coisa assim. Coisa de Letras. Chegando lá, o que mais me espantou na sala de aula foi que:


1- Eu era a única mulher;


2- Eu era a única estrangeira;


3- Eu era a única da área de Letras.


Num curso em que o perfil dos interessado deveria obrigatoriamente cumprir um dos requisitos acima, é no mínimo surpreendente que apenas uma pessoa se encaixasse em todos eles. Os outros quatro alunos se dividiam entre as áreas de sociologia, egiptologia, matemática e física. O que físicos e egiptólogos procuram num curso desses é realmente uma boa pergunta. Se fosse no Brasil, eu diria que o povo da exatas queria só melhorar a nota, freqüentando um curso em que nota abaixo de 80 já é considerada ruim. Mas na Alemanha nao é o caso. Perguntando pros da Exatas no intervalo, o por quê do interesse no curso:


- Sabe como é... Esse povo que faz Física fica o dia inteiro em casa no computador e acaba esquecendo como se fala. Daí a gente resolveu que tinha que fazer alguma coisa antes de comecar a grunhir coisas sem sentido pelos corredores. E as mulheres já aprenderam a falar direito, vocês nao precisam de curso.


Eu, que estava lá mais por motivos cronológicos do que qualquer outra coisa - esquema pegue-qualquer-matéria-da-área-que-encaixe-no-seu-horário e que nao consegui inventar nenhum motivo mais bonito para frequentar aquela matéria, como os outros fizeram quando perguntados, também nao consegui muitos resultados com a escolha de um tema. Explico: A aula consiste basicamente em uma conversa em grupo, com todos os alunos, cuidadosamente observada pela professora. Depois da discussao, fazemos uma outra discussao, dessa vez sobre a própria discussao, analisando como ela transcorreu. Mas para discutir tanto, precisamos de um tema. E por isso cada aluno deveria pensar em um tema que seria discutido nao próxima aula. Ela comecou no outro lado da sala, entao eu seria a última a falar. E fui observando os temas que surgiam: Percepcao seletiva em diferentes mídias, A influência de novas tecnologias no desempenho escolar, A reacao do público em relacao ao prêmio Nobel para Obama... e por aí vai. Enquanto isso, o único tema concreto que martelava na minha cabeca era primeiro encontro. E fui ficando cada vez mais tímida para falar meu tema, depois dos títulos que surgiram. E chegando minha vez, até tentei ensaiar qualquer coisa no sentido de propaganda, influência de propagandas ou algo assim, mas nao ia prestar. E falei:


- Como os casais se comportam no primeiro encontro.


A professora disse que era um bom tema. Mas eu nao imaginava como seria na votacao. Cada um deveria votar em 3 temas . E enquanto os outros tinham dois, tres votos no máximo, quando chegou a vez do meu, olhei pro lado e vi todas as maos para cima. E o meu tema, por mais simplório que possa parecer foi o escolhido.


Parece que apesar da pose toda, de todos os temas pomposos e rebuscados, os alemaes também querem saber é desses assuntos de mulher...

sábado, 17 de outubro de 2009

Mudaram as Estações












[caption id="attachment_562" align="alignleft" width="300" caption="Outono em Heidelberg"]Outono em Heidelberg[/caption]


Ontem eu remarquei minha passagem. Como nao era possível marcar um vôo com antecedência maior que 10 meses quando eu comprei a passagem no Brasil, tive que marcar a volta pra novembro. E agora, em outubro, depois de ter certeza de que eu nao vou mesmo mudar de família de novo, achei que já era hora de remarcar. Pra fevereiro, como planejado. E me veio, pela primeira vez, a sensacao de que eu vou embora. Agora, quando faltam mais de três meses pra isso acontecer. Mesmo que isso sempre tenha sido planejado, nunca tinha percebido tao claramente que um dia eu ia voltar. Agora que as árvores se tingem desse alaranjado que eu sempre achava tao bonito nos filmes e que anuncia a chegada do inverno. Agora que eu nao posso mais usar saias e vestidos e preciso de cachecol e luvas e protetor de orelha pra andar de bicicleta. Agora que as lojas já se enchem de guirlandas e renas e velas de canela e que as criancas aguardam ansiosas pela primeira neve. Para mim, que cheguei aqui no inverno, isso tem um significado muito maior. E sempre que eu esqueco minhas luvas em casa me vem a lembranca nítida de todo o frio que passei nas minhas primeiras pedaladas antes de comprar um par de luvas decentes. E eu nao posso deixar de sentir (literalmente) na pele que o fim está chegando. Nao posso deixar de pensar que mais cedo ou mais tarde eu vou largar a família, a bicicleta, a cidade e todos os amigos e hábitos que eu conquistei durante esses meses. E que vou voltar pra família, pra bicicleta, pra cidade, pros amigos e hábitos que eu deixei no Brasil.


O chato é que eu ainda nao descobri até agora se isso é bom ou ruim.


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Carol em Viterbo - Adendo




[caption id="" align="alignright" width="140" caption="Brasao da cidade"]Brasao da cidade[/caption]

Leia também Carol em Viterbo

As minhas buscas genealógicas nao foram muito além das pesquisas nas pracas e museus. Alguns parentes vao perguntar se eu nao perguntei a nenhum nativo sobre o sobrenome... E antes que os leitores mais sensatos também perguntem, vamos esclarecer alguns pontos:


1 - Eu nao falo italiano além do suficiente pra comprar sorvete, embora ainda tropecando em nomes como Straciatella.


2 - Eu nao falo inglês sem que a cada dez palavras doze saiam em alemao.


3 - Os italianos nao falam inglês e mesmo que falem, nao falam alemao para entender a língua híbrida que surge quando eu tento falar.


4 - Eu nao aprendi línguagem de sinais suficiente para me comunicar sem que me achem louca.


Só nesses quatro itens podemos perceber sérios problemas de comunicacao. E se tais problemas se manifestam na simples compra de um sorvete, imagine em assuntos mais complexos como pesquisar a genealogia da minha família? E o que eu deveria perguntar? Se a pessoa conhece alguém que supostamente morava em Viterbo e que há dezenas, talvez centenas de anos se mudou ganhando o nome da cidade como sobrenome e acabou se procriando no Brasil, gerando entre vários descendentes uma menina curiosa que estava agora fazendo perguntas sem cabimento sobre sua ascendência? E mesmo que eu conseguisse expressar isso em alguma língua que a pessoa entendesse, o que vocês acham que ela iria responder? Que conhece? Outra coisa, pra quem eu deveria perguntar isso? Um assunto de tamanha importância deveria ser tratado no mínimo com o prefeito, que certamente tem o registro de cada pessoa que um dia morou na cidade, para onde se mudou, qual o sobrenome adquirido e todos os descendentes por ela fabricados, com os respectivos dados dos descendentes até a minha geracao. Claro. Mas como o prefeito devia estar ocupado demais com a festa da cidade que ocorreria em dois dias e todos os preparativos e pré-preparativos que isso implica, talvez nao fosse uma idéia tao boa. Entao, deveria abordar alguém na rua? Se o prefeito tem um livro com o registro genealógico de todos os habitantes da cidade, é claro que todos os cidadaos de Viterbo têm a obrigacao moral de sabê-lo de cor. Entao nao custa tentar...


Carol: Oi! [longa pausa para se lembrar como se diz boa tarde em italiano]Buona sera!


[Considerando a hipótese de que a pessoa abordada ache que vale a pena falar com alguém que diz boa noite quando o sol ainda está tao forte que a pessoa tem vontade de voltar para a sesta]


Pessoa abordada: Oi.


[Considerando a hipótese de que eu decorei o manual de conversacao de italiano nos segundos entre o Buona sera e o oi da pessoa abordada]


Carol: Eu me chamo Carol de Viterbo


Pessoa abordada: Valentina Rossi. Muito prazer.


Fim do diálogo.


[Considerando agora a hipótese de que a pessoa abordada considere no mínimo curioso o fato de o meu sobrenome ser o mesmo nome da cidade que ela mora]


Pessoa abordada: Seu sobrenome é Viterbo? Que interessante! Você sabe porque?


Carol: Nao.


Fim do diálogo


[Considerando agora a hipótese de que eu falo italiano fluentemente]


Carol: Boa tarde! Eu estou fazendo uma viagem em busca dos meus ancestrais e gostaria de saber mais sobre a origem do sobrenome Viterbo, que por acaso é o meu sobrenome. Eu tenho a teoria de que esse sobrenome pode ter tido origem quando um morador de Viterbo se mudou da cidade e passou por isso a ser conhecido pelo sobrenome "de Viterbo". Isso pode ter acontecido há algumas dezenas, talvez centenas de anos. Você sabe de alguma família que se mudou da cidade nessa época e provavelmente depois para o Brasil, onde teve vários descendentes, entre eles eu?


Pessoa abordada: Nao.


Fim do diálogo.


[Considerando a hipótese de que a cidade de Viterbo é realmente mágica e que se abra um portal de luz no momento em que eu piso na cidade, fazendo com que todas as minhas vontades se realizem]


Pessoa abordada: Você se chama Viterbo? Mas era exatamente quem eu estava procurando! Eu sou pesquisador e passo o meu tempo livre tracando a árvore genealógica das famílias mais antigas da cidade e acabei descobrindo um antigo morador que se mudou daqui há muito muito tempo e passou a ser conhecido pelo sobrenome de Viterbo. Ele se mudou para a cidade de Sabará, no Brasil, na época da corrida do ouro em Minas Gerais e conseguiu uma boa fortuna, além de muitos filhos. Anos mais tarde ele largou a família, pegou todo o ouro que tinha conseguido e voltou para Viterbo, o que fez com que a família no Brasil nunca mais mencionasse qualquer ascendência italiana, apesar do sobrenome que foi mantido. Em Viterbo ele construiu uma casa, mas nao gerou mais descendentes. No fim da vida, amargurado com sua solidao, ele escreveu um testamento deixando toda sua fortuna enterrada na casa para o primeiro descendente com esse sobrenome que visitasse a sua cidade. E eu passei toda a minha vida esperando que alguém com essa descricao aparecesse na cidade. Finalmente posso me livrar de todo o ouro que foi mantido sob minha responsabilidade! E nao é só isso! Por você ser descendente de um italiano em 53° geracao, recebe ainda o título de cidada italiana, além da chave da cidade!


Fim do sonho.


Mas, voltando pra realidade e considerando a hipótese de que o portal de luz nao foi aberto e de que eu nao conseguiria passar do buona sera com meu italiano, que acabaria tentando em inglês e alemao, com resultados ainda mais desastrosos, que faria até mímicas para me fazer entender, pegando por fim meu passaporte e apontando o meu nome, o mais provável de acontecer, caso a pessoa nao fugisse com medo de mim antes de entender, seria o seguinte.


Pessoa abordada: Ah, sim, seu sobrenome é Viterbo. Meus parabéns.


Fim do diálogo.


Portanto, considerando que ninguém precisa enfiar o dedo na tomada pra saber que dá choque e que focinho de porco nao é tomada, me recuso a enfiar o dedo em qualquer nariz de porco pra ter certeza da meleca que seria caso eu tentasse.


Fim do post.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Carol em Viterbo

[caption id="attachment_555" align="alignleft" width="150" caption="Vista do palácio do Papa"]Vista do palácio do Papa[/caption]

Leia também Carol de Viterbo


Quando avistei os portoes da cidade de Viterbo, percebi que já tinha valido a pena ir até lá. Andar pelas ruas da cidade já davam a sensacao de estar em uma espécie de sonho. Talvez por eu realmente estar realizando um sonho, ou talvez por as casas tao antigas transmitirem uma sensacao de viver uma cena de filme. Medieval. Dava pra imaginar os cavaleiros e damas e clérigos andando pelas pracas da cidade. Ou os feirantes que certamente existiam em algumas ruas estreitas. A cidade parecia ainda carregar sua história e sua magia em cada uma das pedras que compunham suas calcadas e casas. E cada passo parecia me transportar a um mundo diferente, em que eu podia ser o que eu quisesse, vivenciar o que eu sonhasse. Era isso ou o sol estava realmente muito forte.


Àquela hora, a cidade parecia nao ser habitada por mais ninguém além das damas e cavaleiros da minha imaginacao. Todas as portas fechadas, nao se ouvia nada nem ninguém nas ruas, cujos contornos pareciam se dissolver na tarde. Igrejas fechadas, portoes trancados e as sorveterias que eu jurava ver pelo caminho e desapareciam quando eu olhava mais atentamente, nao podiam ser nada além de miragens. Os italianos, que conhecem o próprio sol, faziam exatamente o contrário dos turistas insensatos que resolviam viajar nas horas mais impróprias. As lojas traziam afixado na porta o horário de atendimento: 8:00-12:00/16:00-20:00. E esse é um horário que os italianos realmente respeitam. A cidade dormia sob o ar tépido da tarde. Nenhum mosquito ou banca de jornal se arriscava a permanecer acordado. O único ser vivo que se aventurava pelas ruas de Viterbo era a turista de mesmo nome, em sua busca incessante por estátuas e cartoes postais. E à medida que eu andava, que o sol andava, que o tempo andava, foi-se notando aqui e ali um movimento, até que as casas se espreguicaram, as portas se levantaram e em um bocejo toda a cidade se abriu, como se o sol acabasse de nascer.


Nao tinha tanto tempo na cidade... Nao daria de qualquer forma para descobrir meus antepassados. Mas era de certo modo divertido imaginar onde que eles teriam vivido - se é que realmente viveram lá. E comecei a procurar nos nomes de estátuas e retratos alguma referência ao sobrenome Viterbo. Porque claro que se é parente meu, tem que ser famoso. No mínimo tem que ter uma estátua na praca da cidade. Acabei descobrindo que todas as referências a Viterbo - que nao eram tao difícieis assim de se encontrar, uma vez a cidade tem esse nome - pertenciam a santos e clérigos. Porém, considerando que eram santos e clérigos, acho pouco provável que tenham tido descendentes, a menos que nao fossem tao santos assim. Mas mesmo com essa hipótese, acho que dificilmente os supostos filhos bastardos conservariam os supostos sobrenomes, ainda mais se supostamente morassem em Viterbo. Acho que eu podia entao parar de procurar nas igrejas. E encontrei em uma praca a única estátua fora das igrejas com uma que se assemelhava a um sobrenome: A Mazzini Viterbo ou qualquer coisa assim. Mas a probabilidade de esse nome ser meramente uma referência à cidade era tao grande que resolvi pesquisar no Google antes de ficar empolgada e contar pra vocês. E se o Google nao conhece ninguém com esse nome, é porque nao existe mesmo.


Seguindo a recomendacao da Quel, fui ao museu da cidade e lá descobri que o nome da cidade vem de Vetus Urbs, que significa Cidade Antiga. O que leva a pensar que, se quando foi batizada a cidade já era velha, a possibilidade de encontrar meus antepassados era ainda mais remota. E fiquei feliz pela mudanca de nome. Chamar Carol da Cidade Velha nao seria lá tao interessante. Mas sinceramente a cidade é muito mais do que um campo de pesquisas genealógicas. E acho que foi muito mais interessante passear por ela sem me preocupar tanto com o fato de ela ter o mesmo nome que eu. E aproveitando o fato de que o sorvete em Viterbo era incomparavelmente mais barato do que em Roma, pude apreciar as paisagens da cidade, todos os prédios históricos, todas as ruas que nos trazem a sensacao de estar viajando no tempo. Por alguns momentos eu nao era mais apenas uma turista curiosa com a origem do nome. Eu era o meu próprio nome e tinha encontrado nao a minha origem, mas a mim mesma.


Mas isso já está filosófico demais. O fato é que eu fiquei feliz de ter perdido o penúltimo trem que saía da cidade e de poder desfrutar mais algum tempo, ainda que fossem duas horas, dessa atmosfera um tanto quanto mágica. Fiquei apenas um pouco triste por nao ter ido às fontes termais, pelas quais a cidade é conhecida. Mas ainda há tempo pra isso. Nao acredito que essa tenha sido minha única visita à cidade. Afinal de contas, ao contrário de tudo que possa ser dito, um dia é decididamente muito pouco para conhecer uma cidade que se chama Viterbo.


Continua...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Receita para fazer um bolo de cenoura na Terra da Batata

Ingredientes:

2 amigos alemaes com fome interessados na culinária brasileira
Uma república com cozinha
Uma família alema responsável pela sua alimentacao
Vontade de cozinhar



Modo de preparo:
Vá à despensa da sua família enquanto eles nao estiverem em casa e se muna de todos os ingredientes de que eles nao vao sentir falta e que um dia podem ser necessários para sua alimentacao quando você resolver se aventurar por outros territórios. Junte os ingredientes e deixe-os descansarem no armário de sua cozinha até que você sinta vontade de usá-los. Quando chegar a fome vontade, perceba que sua família está em casa e que você nao tem todos os equipamentos necessários para cozinhar naquele momento. Leve em consideracao que é o seu único dia de folga na semana e que se você falar com sua família que vai cozinhar, vai ter que cozinhar para todos eles. Constate que fazendo isso você estará trabalhando e nao terá tido portanto nenhum dia de folga na semana. Abandone a idéia. Pegue o telefone e ligue para alguns amigos alemaes. Pergunte se eles têm uma cozinha que você possa usar estao com vontade de cozinhar. Escute eles respondendo que nao. Diga que eles nao precisam cozinhar, que você cozinha e eles lavam as vasilhas nao precisam fazer mais nada. Junte os ingredientes na sua mochila e pedale até a república onde um deles mora. Suba cinco andares de escada carregando cinquenta quilos nas costas. Tire os sapatos. Tire a mochila. Vá até a cozinha. Volte pra pegar a mochila. Tire os ingredientes da mesma. Volte com a mochila para o hall de entrada. Volte para a cozinha. Coloque a farinha, o acucar, o leite sobre a mesa. Peca para os amigos mostrarem os ingredientes que têm disponível. Observe eles colocando ovos, 4 maçãs e 50 cenouras sobre a mesa. Decida fazer uma torta de maçã. Lembre-se de que você também trouxe canela. Volte para o hall de entrada, abra a mochila, procure a canela. Nao encontre. Volte para a cozinha. Decida que torta de maçã precisa ter canela. Decida ir ao supermercado para comprar canela. Calce os sapatos. Coloque a mochila. Desça as escadas do prédio e ao chegar no térreo, lembre-se de que é domingo. Constate que domingo na Alemanha nao tem nem padaria aberta. Amaldiçoe a vida. Suba novamente os cinco andares de escada. Tire os sapatos. Tire a mochila. Encontre a canela no chao do hall de entrada. Amaldicoe novamente a vida. Entre na cozinha e descubra que seus amigos comeram duas das maçãs disponíveis. Amaldiçoe seus amigos. Resolva que as duas maçãs restantes nao sao suficientes para fazer uma torta. Lembre de que está com fome. Coma uma maçã. Observe os ingredientes restantes. Decida fazer um bolo de cenoura. Lembre-se de que você nao tem a receita. Decida improvisar. Mande um dos amigos descascar as cenouras. Escute ele reclamando que você tinha dito que ele não precisaria fazer nada. Diga que a culpa é dele, por ter comido as maçãs. Pegue uma vasilha de plástico e coloque a farinha dentro dela. Adicione açúcar e ovos. Lembre-se de que a receita tinha que ter óleo. Pergunte ao amigo que nao está fazendo nada se eles têm óleo em casa. Explique pra ele que azeite de oliva nao combina exatamente com um bolo de cenoura e que você precisava de um óleo sem sabor. Escute-o falando que azeite nao tem gosto e discorde. Tem gosto de azeite. Ignore o comentário dele de que o único óleo disponível além daquele é óleo de banho. Decida que manteiga deve produzir o mesmo efeito e materialize a manteiga na geladeira deles. Lembre-se de que a receita original era feita no liquidificador e pergunte a eles onde fica aquele objeto grande com lâminas que giram em um copo para triturar alimentos e que você não sabe como se chama. Escute um deles respondendo "helicóptero?". Reúna os restos mortais de sua paciência e explique novamente. Balance a cabeca enquanto eles mostram a batedeira, o mixer, um espremedor de laranjas e um ralador giratório que nem eles sabem como se usa. Constate que nao tem liquidificador.  Lembre-se que sua família alema também nao tem liquidificador. Reflita por alguns momentos como as pessoas conseguem sobreviver sem um objeto de tanto valor nas nossas vidas. Amaldicoe os alemaes. Leve em consideracao que cozinheira que é cozinheira consegue fazer um bolo até se faltar farinha ou o forno. Nem que seja de areia.  Pegue o mixer e observe-o com atencao. Uma laminazinha mixuruca pensada inicialmente apenas para misturar líquidos. Ignore o grupo de neurônios que grita "nao vai dar certo! nao vai dar certo!". Lembre-se de que você já triturou legumes com um mixer na casa da sua família. Ignore o fato de que eles estavam cozidos e cortados em cubos pequenos. Pegue as cenouras. Decida que o mixer nao é tao fraco assim e corte as cenouras em pedacos grandes. Mande seus neurônios calarem a boca. Pegue o mixer e comece a misturar os ingredientes. Observe a nuvem de farinha de trigo que se forma em volta da sua cabeca e pousa na sua roupa que ocasionalmente é preta. Desligue o mixer. Amaldicoe mais uma vez a vida. Ignore os neurônios que agora riem da sua cara. Lembre-se de que se sua mae visse isso, sairia balancando a cabeca e falando "só podia ser a Carol na cozinha". Nao comente isso com seus amigos. Continue misturando os ingredientes tomando mais cuidado com a farinha de trigo. Resolva encarar o primeiro pedaco de cenoura. Veja que ele te encara também e que o mixer comeca a tremer na sua mao. De medo.  Lembre-se que sua fama de cozinheira está em jogo e decida ir em frente com a receita. Distraia-o e quando ele menos esperar, atire-o em cima da cenoura. Prepare-se para ver os resultados do massacre e perceba que a cenoura, além dos neurônios rebeldes, ainda está rindo da sua cara. Nao desista e persista com os ataques. Depois de 10 minutos, observe os resultados e constate que, se continuar nesse ritmo você nao vai comer bolo de cenoura antes de voltar pro Brasil. Ataque as cenouras agora com mais ferocidade. Olhe o resultado. Comece a chorar. Amaldicoe a vida, os alemaes, os seus amigos que te largaram sozinha na cozinha. Jogue o mixer dentro da vasilha e observe partes da massa grudando nas paredes, chao e teto. Pense em se jogar pela janela. Vá até a parede e bata a cabeca nela até os neurônios pararem de rir da sua cara. Seja surpreendido pelos seus amigos que entram na cozinha nesse instante. Diga a eles que você estava praticando uma técnica milenar chinesa para evitar o suicídio. Olhe para as expressoes assustadas deles enquanto examinam a cozinha e perguntam "você tem certeza que nao usou um helicóptero para fazer isso?". Mande-o à merda. Observe o outro se aproximar da vasilha e dizer "Putz! Que pessoa normal tentaria triturar cenouras desse tamanho com um mixer?". Atire a colher nele e diga que os normais entao que se quiserem continuem a fazer o bolo. Saia da cozinha e comece a arrumar suas coisas pra ir embora. Espere. Perceba que eles nao vao atrás de você. Mude de idéia. Ouca os barulhos da cozinha e veja que eles, ao contrário de todas as expectativas, resolveram aceitar o desafio e atacam as cenouras armados com o mixer e uma faca. Espere mais um pouco. Quando os ruídos do combate indicarem a vitória dos humanos sobre as cenouras, pense que talvez sua fama como cozinheira ainda nao esteja totalmente derrotada e entre na cozinha. Assista aos últimos momentos da batalha, em que o mixer à beira da exaustao tritura um pedaco de cenoura que tenta fugir pedindo piedade. Nao consiga disfarcar o sorriso no rosto depois de ver as cenouras derrotadas. Finja que nao aconteceu nada e, sem esperar muito tempo, reassuma o comando. Prove a massa e veja que falta acucar. Vire a metade do pacote de acucar. Misture mais um pouco. Coloque mais farinha e misture novamente. Repita o processo cerca de dezenove vezes. Prove mais uma vez e coloque mais acucar. Misture novamente e prove. Pegue o pacote de acucar e escute os alemaes protestando. Vire o resto do pacote e diga que eles nao entendem nada de bolo. Ignore os risinhos de deboche deles. Tente lembrar o que pode estar faltando. Continue misturando. Ligue o forno a 180°C. Continue misturando e tente combater a sensacao de que está faltando alguma coisa. Unte a forma e por via das dúvidas, enfarinhe. Já deu coisa errada demais até agora. Vire a massa na forma untada e enfarinhada e depois de colocá-la no forno, fechar a porta e dar gracas a Deus por nao ter acontecido mais nada, escute um grupo de neurônios gritando das profundezas do seu cérebro: "o fermento!!!". Bata a mao na testa com toda a forca que conseguir reunir. Comece a chorar. Vá até a parede e bata a cabeca nela até que seus neurônios aprendam a nao esquecer das coisas desse jeito. Tire o bolo do forno. Pergunte pelo fermento. Escute eles dizendo que nao tem. Nao acredite e procure você mesma. Constate que realmente nao tem. Sente-se com as pernas cruzadas, feche os olhos, respire fundo e mentalize que um pacote de fermento está aparecendo nas suas maos. Veja as cores dele. Sinta a textura dele. Abra os olhos. Veja que nao funcionou. Chegue a conclusao de que com manteiga é mais fácil. Considere a possibilidade de fazer um bolo sem fermento. Descarte a possibilidade. Nao se dê por vencida e pense que ao menos uma pessoa nesse prédio vai ter um pacote de fermento. Desca as escadas até o andar mais próximo, bata a campainha, faca a melhor cara de cachorro sem dono que você conseguir e pergunte "moça, voce tem um pacote de fermento pra me arrumar?". Veja-a balancando a cabeca e batendo a porta na sua cara. Repita o processo cerca de três vezes. Antes de desistir de tudo e resolver fazer em vez disso a torta de maçã, chegue no primeiro andar do prédio quase sem esperancas e pergunte pelo fermento. Prepare-se para ir embora e fique surpresa ao ver que ainda nao bateram a sua cara na porta a porta na sua cara. "Tenho sim", escute a mocinha respondendo. Pegue o pacote de fermento, prometa um pedaco de bolo pra ela e volte para o quinto andar. Pergunte-se porque é que a única pessoa no prédio que tinha um pacote de fermento morava justamente no primeiro andar. Amaldicoe quem inventou as escadas antes de existir o elevador. Volte pra cozinha. Tire a massa da forma, outrora cuidadosamente untada. Mande um dos amigos lavar a forma. Mande o outro untá-la. Misture o fermento à massa. Vire a massa novamente na forma. Coloque a forma no forno e reze para no fim de tudo ainda nao acabar o gás. Enquanto aguarda, prepare a cobertura de chocolate, aguentando mais uma dose de protestos "chega de acúcar!". Sinta o cheiro de bolo pronto e retire-o do forno. Usando uma luva, peloamordedeus, já chega de acidentes. Desenforme, cubra com a calda de chocolate e chame os amigos para ver que afinal de contas deu alguma coisa que preste comer. Perceba que você colocou farinha demais, mas que no fim das contas acabou faltando acucar. Nao admita que eles falem nada. Receba os elogios e veja que sua fama nao está tao abalada assim. Ouca a sugestao de um dos amigos de que devia ter pedacos maiores de cenoura e vire o bolo na cabeca dele. Mas separe alguns pedacos antes disso. Coma tudo, para mostrar pros seus neurônios que você pôde tirar alguma coisa boa disso tudo. Fique com dor de barriga.

Cozinha depois de conhecer a Carol

Repita todos os passos uma vez por semana até chegar à conclusao de que:

1 - Nem tudo na sua vida dá tao certo como uns e outros pensam;

2 - Mesmo nao dando certo, acaba dando certo;

3 - Nao existe bolo tao ruim que nao acabe em pizza.