quarta-feira, 31 de março de 2010

Duplamente

A arrogância dos olhares, a futilidade das conversas, as preocupações infundadas, a valorização das aparências, a crueldade das tarefas, a teimosia destrutível, o constrangimento inevitável, e o evitável, a precariedade das condições, as condições de convivência, o desdém das expressões, as explosões injustificadas, as revoltas sem explicação, as determinações impassíveis, imutáveis, a falta de comunicação, de compreensão, de justificativa, as acusações constrangedoras, o constrangimento acusativo, a má vontade das concessões, as confissões permissivas, o não ter onde ir, o não saber o que quer, o ficar sem escolha, o fazer sem querer, o desconfiar, o brigar, o chorar, o aguentar, o fingir.

Me perguntam se sinto saudade.

Sinto.


Dos olhares carinhosos, das conversas longas e profundas, da despreocupação com o mundo, da beleza insuperável, da simplicidade de tudo, das tardes preguiçosas, das divertidas, do descanso acompanhado, dos passeios estendidos, das aventudas inesperadas, das risadas sem motivo, das demonstrações de afeto, do afeto escondido, do sentimento que explode sem aviso, dos sonhos esperançosos e apaixonados, da recriação do mundo, dos mundos e fundos, do choro incontido, do gargalhar sem medida, do viver sem juízo, do querer saber, do ficar por querer e querer ficar pra sempre, do jurar até a morte, do saber com certeza, do tocar com paixão, do amar como quem não quer nada, e ter tudo.


Se quero voltar?


Talvez...

Mas por enquanto, eu fico.

domingo, 14 de março de 2010

Agente 9007

22:40 Caminho até o local. Roupa escolhida para a ocasião: saia e blusa. Livros. Aparentemente uma estudante inocente. O veículo chegará em 5 minutos. 
22:43 Chegada ao local. Várias pessoas com trajes informais. Não há necessidade de interação. 
22:48 Atraso não de todo imprevisto. Procuro demonstrar tranqüilidade e aguardo impassível. A paciência é uma qualidade fundamental para o sucesso dessa missão. 
22:49 Avisto o veículo se aproximando. Algumas pessoas percebem e começam a se mover. Procuro ser discreta e me afasto um pouco. Em vão. 
22:50 O veículo chega. Executo o sinal previamente combinado, que me identifica. Dois homens se aproximam barrando minha passagem. E preciso lutar para chegar até a porta. 
22:51 Passo rápido pela porta, que se fecha atrás de mim. Olho para o homem no volante, que arranca antes de que eu pudesse me acomodar. Pela velocidade, estamos sendo seguidos. É preciso muita destreza nesse momento. Mas já conheço o protocolo. Qualquer reclamação é inútil. 
22:52 Identifico o receptor e entrego o valor estipulado sem dizer uma palavra. O homem conta o dinheiro lentamente, sem se preocupar com as manobras do veículo, cada vez mais perigosas. Finalmente ele faz um sinal de aprovação e permite meu acesso. 
22:53 Informo secretamente meu objetivo. Ele apenas assente com a cabeça. É preciso confiar nele. 
22:54 Mais aliviada, observo os outros rostos no veículo. Há mais do que o esperado. Pessoas desconhecidas. Minha missão agora é passar despercebida por elas e me inflitrar até alcançar uma posição mais condizente com os meus méritos. 
22:57 Observo atentamente os rostos e movimentos, tentando descobrir os primeiros a serem eliminados. 

23:03 Identifico um rosto conhecido. Ele será o próximo. Eu sei. Ele sabe. Preciso tomar cuidado para não me denunciar. Aproximo-me do alvo sem levantar suspeitas. Observo seus movimentos pelo canto do olho. Ao menor sinal é preciso agir. Segundos podem fazer muita diferença. 
23:04 A troca de olhares. O movimento. A mulher ao meu lado percebe também. Mas eu sou mais ágil e tiro-a de combate. O sinal. Com o alvo eliminado, ocupo facilmente a posição desejada. E observo com meu novo status os rostos invejosos e resignados que se voltam para mim. 
23:19 Minha posição privilegiada não parece durar muito tempo. O receptor faz um sinal e percebo: eu serei a próxima. Um movimento me denuncia. Eu me torno o próximo alvo. Todos os meus movimentos são cuidadosamente observados. Sei que ninguém hesitará em tomar o meu lugar quando chegar a hora. 
23:20 Tentativa de escape. Faço um sinal ao homem no volante. É preciso agir rápido. Os outros fecham o cerco e atacam, impedindo minha passagem. 
23:21 Uso os livros como escudo e defendo com fúria meu caminho para a liberdade. Por um triz, consigo saltar quando o veículo pára no sinal. Escapei dessa vez. 
23:30 Chego em casa cansada, ainda com as marcas da missão bem sucedida. Minha mãe me vê e me abraça emocionada. E comunico uma decisão importante: Eu realmente preciso de um carro.


Em homenagem aos nossos queridos rodoviários que apesar de receberem o salário mais alto da categoria no Brasil (relação R$/hora) insistem em fazer greve e nos mostrar que por incrível que pareça ainda é possível piorar esse serviço.



domingo, 28 de fevereiro de 2010

Crise de abstinência

Mas o meu vôo não foi feito só de filmes. Acho que o que eu mais estava ansiando, desde que que pisei a bordo era a hora em que serviriam o jantar. Talvez tenha sido por isso que eu comecei o primeiro filme. Pra tentar disfarçar a fome que eu sentia depois de mais de 10 horas sem comer nada além de algumas balas de goma. Sem nenhum coração de chocolate para enganar o estômago durante a espera, tentava me concentrar no filme. E talvez seja por isso que não me lembre de praticamente nada dele além do fato de que eles adoravam frango frito. E acho que até uma asinha de frango - ou mesmo o frango inteiro - eu encararia no momento. 


De repente, vejo uma movimentação no corredor. Carrinhos pra cá, aeromoças pra lá. Não podia ser outra coisa. Desço a bandeja, contando os segundos para o tão esperado momento. 

- O que deseja beber senhora?

- O que você tem?

- Água, suco, refrigerante, vinho.

- Não tem uma vitamina? Um milk-shake? Qualquer coisa mais encorpada?

- Não senhora.

- Então me vê um de cada.

Claro que era o delírio da fome... Peguei água e suco, como de costume e tentei me controlar, bebericando o suco enquanto o outro carrinho não chegava. E quando chegou e eu recebi as porções, não as vi como embalagens de marmita descartáveis, mas como a salvação da minha existência, minha única esperança de sobrevivência nas próximas horas. E vi que não há alegria que se compare a um estômago ao perceber que vai ser alimentado. Pelo menos era o que eu pensava antes de dar a primeira garfada. Mastigar meu tortelinni ao pesto era a felicidade completa. O meu cérebro se deliciava literalmente com uma comida que era naquele momento a melhor de todo o mundo. E no estado de êxtase que se encontrava, determinou uma nova lei ao meu corpo faminto: MAIS! MAIS! fazendo com que eu - sem que tivesse qualquer controle consciente dos meus atos (que fique claro) - atacasse com garfos e dentes e unhas e tudo o que estava disponível minha porção de massa, a salada, a sobremesa, o guardanapo e o braço do passageiro ao lado, se ele estivesse mais perto. E foi então, ao me dar conta de que papel não estava na lista de alimentos recomendados pelo Ministério da Saúde e que se eu terminasse de comê-lo não teria mais nada com que limpar a boca, que saí do transe em que me encontrava. A primeira coisa que eu percebi foram os olhares assustados de todas as pessoas em volta. Depois de assistirem à cena grotesca, deviam estar achando no mínimo que eu fazia parte de um projeto beneficiente, que dava abrigo aéreo a mulheres abandonadas. Pra não dizer perdidas ou carentes. Ou isso ou estavam com medo de eu roubar a sobremesa deles. Ou o prato principal, já que muitos não tinham nem tocado na comida. E se olhassem demais era capaz de eu fazer isso mesmo. Não posso dizer que as porções foram exatamente suficientes para saciar uma fome de um dia inteiro. Se você conhece a Carol com fome, sabe que todos os problemas do mundo se resumem à sua fome. Tudo fica mais difícil, mais mal-humorado, mais insuportável depois de poucas horas sem comer nada. Pois é. Se você não conhece, tem sorte. Nem eu suporto a Carol com fome. E conhecendo o meu histórico, eu sabia que aquelas porçõezinhas perderiam o seu efeito anestesiador em muito menos tempo do que desejável. 

Claro que ainda existia a possibilidade de dormir durante todo o vôo e acordar na hora do café da manhã. Mas você leitor fiel sabe que isso não foi uma possibilidade. E o que naturalmente aconteceu foi que durante os filmes eu já estava me revirando na poltrona, de fome. E quando vi o abençoado café da manhã, não pude evitar que a cena de algumas horas atrás se repetisse. embora eu tenha conseguido, dessa vez, salvar o guardanapo. Não era de se espantar que as pessoas se afastassem de mim na hora de desembarcar. Mas eu com minhas 200 peças de bagagem teria que esperar de qualquer forma para conseguir passar no corredor.
Depois de me perder como de costume pelo aeroporto de São Paulo, o que não é nada recomendável quando suas malas pesam mais do que você mesmo e quando você veste algo como 3 blusas de frio além de um casaco pra neve, finalmente encontrei o portão de embarque. E pensei que eu também tinha sido encontrada, quando ouvi uma voz atrás de mim chamando:

- Ô descabelada!


Com uma intimidade dessas tinha que ser alguma amigo ou parente que foi fazer uma surpresa pra mim. Pensei no meu irmão, que dias antes tinha embarcado no mesmo aeroporto para a Colômbia e já me virava emocionada quando me deparei assustada com um homenzinho ainda mais assustado ao perceber que eu não era a irmã dele. Éramos muito parecidas, disse ele. E pode bem ser verdade tendo em vista que eu também estava descabelada, como previsto e esperado. Abandonei o homenzinho procurando a irmã. Eu teria que esperar cerca de duas horas ainda antes de embarcar. E pra evitar a morte por inanição que quase aconteceu no último vôo, resolvi fazer um lanche. Como não tinha nenhum irmão pra olhar a bagagem enquanto eu comprava o lanche e boa brasileira que sou, tive que carregar as 250 malas e sacolas pra dentro da lanchonete. Tentando equilibrar tudo isso com a bandeja do lanche, era inevitável que algumas coisas escapassem das minhas habilidosas mãos malabaristas. E deixei o guardanapo, o canudo, os talheres, as luvas, a carteira, o passaporte seguidamente e repetidamente caírem no chão. Ao que sempre eram salvos pelos rapazes simpáticos que estavam atrás de mim na fila e que já deviam achar que eu só estava querendo chamar a atenção. 


Mas o que me chamava mesmo a atenção era se algum pão de queijo pequeno podia custar mais do que três reais em outro universo paralelo além do aeroporto de São Paulo. E eu já tinha experimentado o pão de queijo paulista na viagem de ida e jurei pra mim mesma que eu nunca mais trairia o pão de queijo mineiro por uma imitação barata - ou melhor, cara - daquelas se não fosse um caso de vida ou morte. E era realmente o caso. Mas por sorte eles tinham também pão de batata e pastel de palmito. Pedi o pastel e ao ver seu tamanho acrescentei logo o pão de batata ao pedido, que junto com o suco deu o total de 15 reais. Em um universo normal seria no máximo 5. Mas naquele lugar até a lei da gravidade funcionava de forma diferente, me fazendo mais uma vez deixar metade das minhas coisas caírem no chão. E ao resgatá-las pela última vez o salvador de guardanapos, muito observador disse:


- You have a bad day!


Eu juro que nem tinha percebido.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A casa é sua

Depois de deixar a Terra da Batata e de (re)começar minha vida aqui nessa terrinha que tem muito mais que samba, Pelé e café - além de batatas - nada melhor do que manter o contato, rever velhos conhecidos, amigos de longa data, conhecer gente nova... E recontruir a história em um ambiente espaçoso, arejado, com vista pro mar e extremamente confortáfel.


Você que acompanhou todas as minhas aventuras, desesperos e alegrias e leu cada história como se as vivesse. Você que lia de curiosidade, só para se certificar de que eu estava sendo bem tratada - ou não. Você que saboreia as palavras e encontrou nas minhas batatas um tempero melhor que Sazon e quase melhor que amor. Você que chegou agora que não leu nenhum texto, nem tem idéia do que eu estou falando. Sejam bem-vindos!


Aqui estão todos os textos publicados no antigo blog. Todos os comentários foram cuidadosamente guardados e continuarão aqui, me fazendo companhia. E eu espero que vocês também façam.

Aqui haverá novas aventuras, ainda que o cenário delas não tenha castelos nem rios limpos cortando a cidade.



Aqui haverá velhas histórias, ainda que não sejam mais novidade, mas que pelo menos aqui não terminaram de ser contadas.


E haverá, como não podia deixar de ser textos bem ou mal escritos, mais ou menos sinceros sobre uma menina que às vezes não acredita, mas voltou pra esse Brasil e tem muita história pra contar. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Jornada para casa



Não tinha lugar na janela. Não era tão ruim assim, porque a viagem era à noite e não daria para ver paisagens de qualquer forma. O problema é que a janela sempre ajuda no meu sono. Mas ali, no meio do avião, com gente passando o tempo todo ao meu lado, não conseguiria dormir. E resolvi usar as opções disponíveis. Os filmes. Como na viagem de ida, tinha muitas opções. Metade deles eu já tinha visto, outros não eram do meu tipo, mas ainda sobravam uns quatro que eu poderia assistir. E eu assisti. Todos. Ou quase. Até tentei dormir no intervalo entre um e outro. Mas não era exatamente possível, sem o apoio reconfortante da janela. Os dois bancos ao lado estavam vazios e eu e o passageiro na outra ponta firmamos um acordo tácito, que dividia explicitamente os bancos desocupados entre os dois ocupantes: do braço da poltrona pra cá era o meu território e do braço pra lá, o dele.  Ele se enroscou como pôde já depois do primeiro filme. Pernas pra lá, cobertor, travesseiro e parecia satisfeito com o espaço inesperado. Eu tentei me esticar, me encolher, caber de alguma forma confortável nas duas poltronas. Mas ainda que eu tivesse mais espaço que de costume, estava longe de dormir a sono solto como o companheiro ao lado. Eu virava pra um lado e pro outro, tentava todas as posições possíveis nos centímetros de mobilidade que me restavam, tentava todas as técnicas conhecidas e inventadas, mas o máximo que eu conseguia era descansar um pouco os olhos para assistir o próximo filme. E assim foi até que acabaram os filmes. Eu já tinha assistido três. E como ainda não conseguia dormir, tive que apelar pra uma série de tv. Eu já conhecia The Big Bang Theory, mas até o momento só tinha assistido em inglês. E por mais que eu finja saber inglês, tenho que adimitir que quando a gente entende a piada fica muito mais engraçado. E foi nesse momento que me tornei fã incondicional dessa série. Mas era só um episódio e não resolvia o meu problema de insônia e de falta do que fazer nas próximas horas de vôo. E eu não queria jogar paciência ou ouvir música. Passei a lista de filmes novamente, tentando selecionar um mais assistível que os outros ou um bom o suficiente para ser assistido novamente. Foi quando um me chamou a atenção: Star Trek. Eu não conhecia. Era na verdade o tipo de coisa de que ele gostava e eu normalmente não chegava perto. Ou até chegava. Não posso também bancar a metida-que-acha-que-isso-é-coisa-de-homem-que-não-teve-infância, porque não é verdade. Na verdade seria algo como o que eu chamo de síndrome Star Wars. Nunca assisti, então falo que não gosto. Eu devo ser a única pessoa no mundo que nunca assistiu Star Wars. E sempre que as conversas nostálgicas que me fazem sentir com 50 anos de idade desviam dos costumeiros Caverna do Dragão e Cavaleiro do Zodíaco - que eu adoro - para temas mais complexos como Star Wars, Jornada nas Estrelas e uma porção de nomes parecidos que sempre me confundem, tenho que ir ao banheiro às pressas ou inventar uma desculpa qualquer antes de ser crucificada por nunca ter assistido o tal filme. Ou os filmes, o que torna a coisa toda ainda pior. Se eu for assistir vou ter que ficar uma semana inteira só por conta. Sem saber por onde começar, com essa confusão cronológica que nem os fãs entendem, acabo não assistindo (mas se você leitor se identificou com o que eu escrevi e topar uma maratona de Star Wars - ou ainda que seja um só filme - pode me chamar que eu animo). Além disso, como recém-fã de The Big Bang Theory, me identificava incrivelmente com a Penny quando não entendia uma das piadas do universo nerd, que incluem todos os Star-flimes, séries, histórias em quadrinhos e qualquer outra coisa que tenha relação direta ou indireta com esses mundos.

Isso tudo pra dizer que eu resolvi assistir Star Trek. O filme é realmente bom. Não é um filme de ação qualquer. Ele pertence a um universo próprio em que as coisas mais absurdas tornam-se possíveis. Tudo isso sem perder a carga de adrenalina inerente aos filmes de ação. E ainda pior. Nos filmes que meu irmão assiste, por exemplo, antes de você começar a assistir, já sabe que vai vencer o mocinho ou o bandido, caso ele seja o mocinho do filme, passando por muitas explosões, granadas, tiros e toda a tecnologia disponível da época. No Star Trek, é mais ou menos a mema coisa, com uma grande ênfase na tecnologia disponível. Mas a diferença é que você não tem muita certeza do que vai acontecer - ou pelo menos eu, que nunca tinha visto, não tinha. A trama se desenrola em uma linha de tempo alternativa que te leva a desejar não só saber o que vai acontecer, mas entender o que está acontecendo, o que aparentemente só é esclarecido no final, elevando as expectativas do filme a um expoente até então desconhecido pra mim. E foi em um desses momentos de adrenalina mais intensa que eu percebi que talvez não desse tempo de terminar o filme. E eu desejei muito que o vôo durasse algumas horas a mais, quando o James (e eu não consigo lembrar o sobrenome dele) se tornou capitão e eu tive que interromper o filme para assistir a uma programação obrigatória e inútil da Tam sobre os pontos turísticos de São Paulo. Comecei a ficar com raiva de ter assistido a série do Big Bang em vez de ter começado o filme antes. Mas refleti que se o Big Bang me ajudou a tomar a decisão de assistir Star Trek, não assistir à série geraria um paradoxo temporal, o que me levaria talvez  a não assistir Star Trek, criando um futuro desconhecido e alternativo que influenciaria inclusive o meu modo de vida agora, já que boa parte do meu tempo é dedicado à série. E achando que as últimas horas já tinham realidades alternativas suficientes pra uma vida inteira - ou mais, dependendo do ponto de vista-, resolvi só ficar com raiva da Tam mesmo.

E você leitor que não entendeu lhufas deste post, não precisa se preocupar com minha sanidade mental. Essa foi só uma tentativa de ilustrar como eu estava quando cheguei ao aeroporto de São Paulo, sem dormir, sem terminar de ver o filme, despenteada e carregando todos os pacotes e bagagens de algumas horas atrás. Só não imaginava que minha situação poderia ficar ainda pior...




sábado, 13 de fevereiro de 2010

A Chave da Liberdade

Com fome, cansada e com os músculos doloridos de peso, de stress. Era assim que eu estava na fila do controle. Ele ainda estava lá, há alguns metros, como eu tinha pedido. Fiquei com medo de que acontecesse como na minha primeira viagem, em que fiquei sozinha e totalmente perdida, sem o saquinho para líquidos. Dessa vez, com os saquinhos, o problema era a mala. Dentre as recomendações para bagagem de mão, está que a mala de mão deve medir no máximo 56 x 45 x 35 cm, para que coubesse nas caixas em que a gente coloca a bagagem de mão no controle. Eu tinha comprado a minha mala há pouco tempo, justamente para essa viagem e ao medi-la, descobri que tinha exatamente 56 cm de altura, talvez ainda um pouquinho mais. Fiquei com medo de que o controle fosse rigoroso o suficiente para me mandar despachar a mala por causa de meio centímetro. Mas eu descobri que a alça da mala era retirável e que as dimensões da mala diminuiam um pouco quando retirada. O problema é que eu precisava de uma chave de fenda para isso. E eu não podia embarcar com uma chave de fenda. Por isso pedi que ele levasse uma chave de fenda e ficasse com ela a postos para o caso de eu precisar de seus serviços. Isso tudo observando de longe, já que só podia entrar quem tivesse passagem. Como (ainda) não era o caso, ele esperou pacientemente até que eu estivesse do outro lado do controle. O que nós não sabíamos é que isso demoraria tanto tempo!


Ainda na fila eu já percebi que a chave de fenda só ia servir pra virar história no blog. Muitas malas, até maiores que a minha às vezes nem entravam na tal caixa e eles deixavam passar do mesmo jeito. Chegando minha vez, coloquei minha mala, que não coube 100%, mas passou, o saquinho com os líquidos separados, a mochila do notebook, o notebook separado, a "bolsa pequena de mão" que devia pesar uns 15 kg, o casaco, o moleton por baixo do casaco, o cinto e quase achei que ia precisar tirar a calça também, mas não chegou a tanto. Passei e o aparelho apitou. Agora tinha que tirar o sapato também, que foi pro raio-x, além de ser revistada. Depois de concluirem que eu não corria o risco de explodir o avião ao pisar mais forte, me deixaram passar. E fui lá juntar minhas coisas que saíam do raio-x. Estava tudo lá, menos a mochila. Comecei a olhar pros lados, vendo se alguém tinha pego "por engano", mas não encontrei ninguém. Foi aí que uma mulher do controle me chamou. E disse que tinha encontrado uma irregularidade nela e que teríamos que abrir. Ela mostrou no raio-x a imagem de uma aparentemente inocente ferramenta de bicicleta, que poderia até ser confundida com uma régua escolar. Mas não foi. E não passou ilesa aos olhares peritos do pessoal do controle. Me perguntei por que diabos eu tinha colocado a tal ferramenta na bagagem de mão... E a resposta ficou clara quando abrimos a mochila. A bagunça só não era comparável à do meu quarto porque as dimensões da mochila não o permitiam. Mas era quase. A quantidade de coisas diferentes e absurdas que lá estavam deixavam claro que eu tinha terminado de "arrumar" as malas há algumas horas. E pela expressão da funcionária, ela também tinha percebido que encontrar a ferramenta perdida não seria tão fácil como ela supusera. Mas nem eu poderia imaginar que seria tão difícil. Depois de tatear e revirar todo o conteúdo da mochila, esbarrando em coisas como cadeados de bicicleta, lanternas, tomadas e roupas íntimas e causando ainda mais desordem em um sistema que já estava irremediavelmente perdido, a tal ferramenta não foi encontrada. Resolvemos mudar de método, a funcionária agora me ajudando a revirar o conteúdo e como ainda não desse resultado, começãmos a tirar coisas da mochila, tão descuidadosamente arrumada. Tiramos metade das coisas e tateamos novamente, incluindo bolsos externos, internos e compartimentos secretos e ainda não encontramos. Ela passou a mochila novamente pelo raio-x, para ver onde devíamos procurar a ferramenta assassina e vimos que ela ainda estava lá, a despeito da incessante procura. Nova tentativa, abrindo nécessaires, bolsas, estojos e tudo o que pudesse por ventura esconder o objeto do crime. Não encontramos.
Percebi pelos olhos da mulher, agora revelando todo seu desejo de desmascarar um terrorista de verdade, que encontrar a ferramenta perdida tornara-se uma questão de honra. E enquanto metade do meu ser preocupava-se em vigiar o resto da bagagem do outro lado e a outra metade se perguntava a que horas eles serviriam o jantar no avião, percebi que talvez até minhas esperanças no jantar poderiam ser frustradas. E ela, já com um quê de cão perdigueiro, só parou de farejar a mochila quando viu que eu já deveria ter embarcado há cerca de 40 minutos. E depois de considerar longamente as possibilidades de eu provocar um atentado terrorista usando uma chave de bicicleta, resolveu me liberar a contragosto. E eu parti, levando comigo a chave assassina e a permissão de liberdade. Pelo menos teoricamente.


Consegui embarcar a tempo, embora tenha sido uma das últimas pessoas a entrarem a bordo. Espremi a bagagem no compartimentoacima, no banco à frente, ao lado, no colo e onde mais foi possível. E depois de muitas horas de viagem, depois de chegar em casa e tirar toda a bagagem das malas, bolsas e mochilas, pude constatar, num misto de incredulidade e surpresa: A chave não estava lá.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ainda embarcando

Com o cartão de embarque nas mãos, fomos aproveitar os minutos que ainda nos restavam e tentar transformas os 50.000 pacotes da bagagem de mão em no máximo três. Teoricamente, eu só poderia embarcar com um de no máximo 5 kg. Mas eu sabia que o pessoal da tam - e de qualquer companhia aérea - não controla a bagagem de mão. O item mais leve devia estar pesando uns 15 kg... Mas não pensem que eu sou assim de todo inconsequente. Eu já tinha ligado pra tam uns dias antes para verificar algumas questões da maior importância na arrumação das malas.

-- Esse item de bagagem de mão... É só um item mesmo?

-- A senhora pode embarcar com um item e um notebook.

-- Ah, entendi... E tem problema se o notebook estiver em uma mochila?

-- Não senhora.

-- Nem se a mochila for um pouco grande?

-- Não senhora.

-- Ah, que bom. E se além da mala de mão e da mochila eu levar uma bolsa pequena, tem problema?

-- Se for pequena não tem problema não.

-- E se não for tão pequena assim?

-- Então é melhor você conversar com o atendente do check-in.

-- É porque além da mala, do notebook e da bolsa eu preciso levar uma pasta, entende?

-- Sim, senhora. Conversa com o atendente do check-in no dia do embarque.

Resolvi nem perguntar dos dois casacos e da outra sacola. O homem já tava ficando nervoso. Mas eu sabia também que não adiantaria nada perguntar pro pessoal do check-in, ainda mais quando eles tinham lá uma placa dizendo que era proibido levar mais de um item como bagagem de mão. E eu sabia que o pessoal do controle estava mais preocupado em encontrar líquidos e explosivos do que em contar o número de itens ou pesar a bagagem. Mas depois de alguns passos com todas as minhas bugigangas, eu descobri que não era nada prático carregar tantos itens. E fui desmembrando as sacolas, colocando a pasta dentro da bolsa, enfiando chocolates onde era possível. No fim das contas acabei deixando um dos casacos pra trás.

Olhei no relógio e vi que nossa esperança de fazer um lanche antes do vôo já tinha entrado na lista de coisas que não foram feitas. Eu não tinha preparado nada pra essa despedida. Deixei tanta coisa com ele que nem deu tempo de pensar em um presente. Nem cartinha nem álbum de fotos nem nada que ele pudesse guardar de lembrança. Não sei se era necessário. Eu já estava deixando grande parte do que foi minha vida na Alemanha. ainda que ele achasse que tudo era lixo. Talvez eu não precisasse de nenhuma despedida tão pomposa. Porque afinal não seria pra sempre. Não seria o último beijo ou o último abraço. Se tudo desse certo, essa viagem seria apenas um breve período que passaríamos separados. Juntos, mas separados, apesar de todos os argumentos racionais e lógicos que diziam exatamente o contrário.

Eu não tinha nenhum discurso bonito nem nada que eu pudesse inventar na hora e fazer com que nos sentíssemos melhor. E meu estado de nervosismo era tão grande que acho que foi melhor não ter nem tentado. Nós já sabíamos tudo o que sentíamos. Já tínhamos feito tantas e tão intensas declarações que qualquer palavra fazia-se inútil e desnecessária e quase que podia estragar tudo. Havia coisas mais importantes para se preocupar. O peso da mochila nas minhas costas, o horário de embarque e a fome que não me deixava pensar em mais nada. Demos um abraço engasgado, um beijo desengonçado com um gosto de choro que não vem, mas que fica ali. Fui pra fila do controle. E por mais que o momento exigisse romantismo, o mais próximo disso que eu conseguia chegar era ao pensar nos corações de chocolate que tinham ficado no bolso do outro casaco....

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Embarcando

Se o mundo fosse um lugar perfeito, aconteceria o seguinte: Eu chegaria no aeroporto, iria para a loja da Tam pegar o bilhete com a nova data, fazia o check-in, tinha tempo de tomar um lanche ou qualquer coisa antes de embarcar, eu que não tinha comido quase nada o dia todo.

Mas como nem tudo sai como a gente quer, pra começar os problemas, as filas não estavam nada convidativas. Eu tinha que ainda pegar o meu novo ticket, porque eu remarquei a passagem, o que acrescentaria uma fila além da do check-in. Fui lá, paguei a taxa e entrei na outra fila. Ele podia ter ajudado, ficando na fila do check-in pra mim, mas não quis. E depois de uns bons minutos em pé, peguei o ticket e fui fazer o check-in. Eu, que tinha pesado as malas antes em casa, sabia que estava passando uns dois quilos em cada mala do peso permitido. Mas, como já tinha ouvido muitas histórias de que às vezes eles não falam nada, resolvi arriscar. A dica era sempre: mulher faz check-in com homem, homem faz check-in com mulher. E parece funcionar. Mas como as filas nem sempre seguem padrões estabelecidos pelos desejos humanos, respeitando leis universais e astrológicas próprias e como o Sol estava em oposição a Mercúrio e brigado com o deus protetor das au-pairs desamparadas, fui atendida por uma mulher. Não é tão ruim assim, pensei, me esforçando para fazer o olhar mais simpático e amigável que eu consegui.

Mas antes mesmo que eu pudesse colocar as malas na balança, comecei a ter problemas com o ticket. Ela olhou o papel e disse: você ainda tem que pagar a taxa de remarcação. E não adiantou eu falar que tinha acabado de fazer isso. Teria que voltar lá na outra fila e só depois fazer o check-in. Eu achei, que ela estaria se referindo a uma outra taxa que alguém da Tam me falou em uma das vezes que eu liguei e que nunca mais tinha sido mencionada. Além da taxa de remarcação eu teria que pagar uma outra taxa de reemissão do bilhete. Mas como há alguns meses eles inventaram uma história de que eu nem podia remarcar a passagem para fevereiro, o que mudava sempre que eu ligava novamente, era de se desconfiar. E lá na outra fila, perguntei sobre a tal taxa. A mulher olhou o bilhete e percebeu que em vez de ter colocado "taxa de remarcação", colocou "excesso de bagagem". O que ela fez? Riscou o "excesso de bagagem", é, de caneta mesmo, e escreveu o certo por cima. E voltei lá no check-in com o bilhete rasurado. Nunca imaginei que fosse tão complicado trocar a data de uma passagem. A coitada da atendente precisou da ajuda de toda a equipe de atendentes e de todos os supervisores e gerentes para conseguir fazer o meu check-in. E depois de mais de uma hora nessas idas e vindas, quando eu finalmente pude colocar as malas na esteira, o que ela me diz?

-- Está com excesso de peso. Tem que tirar.

Na verdade não precisava tirar. Eu poderia também pagar uma taxa de excesso de bagagem e ir feliz com todos os meus quilos a mais. Mas ela não me deu essa opção. Talvez tenha olhado pra minha cara de farofeira com a quantidade de sacolas e bolsas de bagagem de mão e chegado à conclusão de que eu não teria dinheiro para pagar a taxa. E não tinha mesmo. E mesmo se tivesse não pagaria. E fui lá pro canto da fila desempacotar minha mala. O bom foi que pensando nessa possibilidade, eu já tinha empacotado mais ou menos de um jeito em que ficava fácil tirar as coisas mais pesadas. Eu disse mais ou menos. Isso porque depois de ter tirado o que eu sabia que era o que estava passando do peso, ele veio, com sua mente matemática e precisa: isso aqui não tem nem 900 gramas. E dizia que eu tinha que tirar mais e mais coisas e que era mais fácil colocar depois do que ter que tirar de novo. Eu que já tinha deixado pra trás ou jogado fora mais de dois terços das minhas coisas, quase entrei em desespero. Algumas coisas não podiam ser tiradas.

E foi no meio de uma dessas discussões se iríamos ou não tirar mais coisas que apareceu uma mulher, provavelmente parente da moça do check-in pela simpatia, mandando a gente sair dali, que não era lugar para arrumar malas. Mas depois de explicada a situação, ela até mostrou umas balanças onde podíamos pesar as malas e evitar um bocado de trabalho. E fiquei feliz de ver que a mente matemática dele não era tão perfeita assim, ao perceber que tínhamos tirado das malas muito mais do que o necessário. Que alegria poder empacotar de novo coisas que eu já até tinha me conformado em abandonar. Não tudo, mas pelo menos uma parte delas. E fui feliz pro check-in, fazendo uma anotação mental para comprar cosméticos assim que chegasse ao Brasil.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Despedida

O que eu menos queria era uma briga com minha família minutos antes de ir embora. E me surpreendi com minha Gast abrindo as gavetas, apontando o que era meu, o que eu deveria devolver ou jogar fora. Ela ficou nervosa por eu não ter aproveitado o tempo que ela me dera para arrumar as malas e o quarto e ter em vez disso passado todo o tempo com ele, tentando fazer o máximo possível das coisas da lista de coisas a serem feitas antes de voltar pro Brasil. Ainda faltam muitas... Mas como eu já disse pra ele, se a gente fizesse tudo de uma vez, eu não precisaria voltar. Estava com medo de que minha Gast desistisse de me levar ao aeroporto. Ou desistisse de me dar o dinheiro prometido. Se é que ela ainda se lembrava. Mas com uma hora de atraso, ela já estava mais calma. Achei até bom, no fim das contas. Pude ver as crianças de novo, me despedir delas. Ganhei até um beijinho do bebê. As crianças não foram para o aeroporto. Ela achava que não seria tão interessante pra elas ficar duas horas sentadas no carro. E não seria exatamente a coisa mais divertida do mundo despedir da au-pair no aeroporto. Talvez melhor assim. Passamos na casa dele e deixamos metade da bagagem que estava no carro. Aproveitamos a viagem para conversar um pouco de tudo. Perguntei algumas coisas que sempre quis perguntar. Era a última chance. Eu não estava triste. Já tinha chorado demais há algumas semanas e chegara a um ponto de aceitação. Afinal, não seria tão ruim assim voltar pro Brasil. Chegando ao aeroporto, ela me entregou o dinheiro apressada, como se não quisesse que ele visse. Até mais do que o prometido. Eu estava salva. Desembarcamos as malas, alojamos no carrinho. Ele ficaria até a hora do vôo. Ela já voltaria para casa. E chegou a hora da despedida. Apesar de todas as controvérsias ao longo desse ano que vivi com eles e das tantas vezes em que ela foi injusta comigo, sempre gostei muito dela. Não como patroa. Mas como amiga. Gostava de conversar com ela, contar dasos, pedir conselhos. E acho que ela também gostava desses momentos. Mas por várias razões, sempre mantive um certo distanciamento emocional. E não estava preparada para o que aconteceu. Ela me abraçou, me disse que sempre queria que eu ficasse com eles por mais tempo, que sempre teve esperanças de que eu prolongasse o meu visto e desatou a chorar. Acho que foi a primeira vez que eu a vi chorando. Sempre foi tão controlada, tão decidida. Mas não conseguiu resistir à despedida. Eu não chorei. Mas me senti incrivelmente grata por aquelas lágrimas. E sabia tabém que a despedida mais difícil ainda estava por vir.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Malas e tralhas

Nunca imaginei que em um ano pudesse-se acumular tanta coisa. Depois de decidir não pagar uma mala extra, o primeiro passo para arrumar as malas foi me livrar de tudo que estava estragado ou não servia mais de alguma forma. Depois de jogar fora um terço das coisas que eu tinha no meu quarto e metade das coisas que eu já tinha salvado do lixo e ver que ainda estava longe de caber nas duas malas despachadas e na bagagem de mão, tive que me livrar de todas as coisas que eu ainda poderia usar, mas que não eram lá tão bonitas. Depois de jogar fora muitas outras roupas e sapatos e bolsas e mochilas e meias e calcinhas, percebi que não tinha sentido trazer casacos de inverno pro Brasil quando se mora em uma cidade em que 15ºC é frio, mas que também não tinha sentido jogar fora coisas que ainda estavam em perfeito estado de uso, ainda que sejam, sob certo ponto de vista, inúteis. Depois de perguntar com jeitinho se eu poderia deixar algumas coisas na casa dele e de separar cuidadosamente o que seria deixado pra trás, o que talvez poderia ser enviado depois e o que era totalmente inútil, mas que eu não conseguia jogar fora por razões emocionais absolutamente incompreensíveis, descobri que a montanha de coisas a serem deixadas já estava ficando maior que a de coisas a serem levadas e que por mais que ele gostasse de mim o coração (ou o quarto) dele não era grande o suficiente para abrigar tanta tralha. Depois de vencer barreiras emocionais incompreensíveis para a mente alemã e me desfazer de coisas que em outra situação seria inconcebível e perceber que ainda assim não era suficiente, comecei a entrar em desespero. Olhava para as roupas espremidas na mala, cada uma comprada em uma promoção diferente e sabia que tinha que me desfazer delas. Mudei meus critérios. Só entravam na mala coisas absolutamente indispensáveis, impecáveis e imprescindíveis ou que representassem uma ligação emocional forte demais para que fossem deixadas para trás. E depois de pesar as malas descobri que teria que deixar até a ligação emocional de lado. A sensação era de jogar fora uma vida inteira construída nesse ano.

Quando comecei a arrumar as malas, há algumas semanas, decidi que não repetiria o erro da vinda, em que nos últimos minutos eu ainda estava arremessando coisas pra dentro da mala. Por isso quis planejar tudo direitinho, decidir exatamente o que seria levado e tudo o mais. Claro que não deu certo. A minha gast foi compreensiva e me deu os dois dias antes da viagem de folga pra que desse tempo de organizar tudo. E como eu sou eu, é claro que em vez disso eu fui passear, andar de trenó, despedir dos amigos e deixei pra terminar de arrumar as malas e o quarto duas horas antes da viagem. Achei que seria fácil. No fim das contas eu já estava jogando as coisas de qualquer jeito nas malas, jogando coisas fora sem pensar um segundo em relação emocional ou impacto ambiental ou terremoto no Haiti. O plano era sair às 15 horas e quando minha Gast percebeu que eu não cumpriria o prazo, começou a ficar nervosa. Entrou no quarto abrindo gavetas e portas de armários e dizendo onde ainda havia coisas minhas. Eu tinha pensado que talvez poderia deixar algumas coisas pra eles, pras crianças, pra futura au-pair, sei lá. Mas depois que ela disse que queria que eu deixasse tudo vazio, não me importei mais. Foi tudo embora. Coisas que há alguns meses eu certamente resgataria do lixo. coisas que eu de fato resgatara. Coisas que poderiam realmente ser úteis para eles, para mim, para o mundo. Tudo ensacado e empilhado na garagem. Ou encaixotado para ser levado para a casa dele. O quarto que nos últimos meses eu quase não habitara, revelou abrigar mais coisas do que eu um dia sonhei em encontrar nele. Saí de lá levando apenas estritamente a bagagem permitida, aproveitando a brecha no controle da bagagem de mão. Malas despachadas eram duas. Na mão só poderia levar teoricamente uma. Acabei levando três, sem contar o casaco e torcendo para que eles realmente não fizessem o controle.

No fim das contas minha gast se acalmou e resolveu interpretar o atraso de uma hora não como desleixo, mas como uma tentativa inconsciente de prolongar minha despedida. Eu, que achava que estava mais pra desleixo, só estava preocupada se ela se lembraria de me dar o dinheiro que havia prometido - ou eu nem conseguiria voltar pra casa. Mas isso é assunto pra outro post.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sem surpresas

Minha maior referência em intercâmbios, desde que eu comecei a pensar em me aventurar por essas terras incertas, sempre foi a Nat. Pra quem não sabe, a Nat, além de uma grande amiga e fiel leitora, foi a primeira amiga e acho que a primeira da nossa turma a morar fora do país. Acredito que essa onda de intercâmbio seja um pouco mais recente... Hoje da nossa turma uns já foram pra Inglaterra, pros EUA, uns pra Alemanha, um ainda está no Japão e tem uns e outros querendo ir pro Canadá... Isso hoje. Na época, a viagem da Nat foi a notícia do ano. Um ano no México, que precisou de alguns preparativos, entre cartas, abraços, surpresas, lágrimas, presentes e muitas, muitas comemorações. Intercâmbio pra mim sempre esteve intimamente ligado a festas. De preferência surpresa. Tinha que ter a festa de despedida, organizada secretamente pela família, com uma lista em ordem alfabética dos amigos convidados, com direito a presentes e surpresas cuidadosamente preparadas pelos mesmos. Tinha que ter o maior número possível de amigos, parentes, vizinhos e bichos de estimação acompanhando até o aeroporto - de preferência com mais presentes e surpresas... A Nat teve a sorte de ter uma mãe com uma mente altamente capacitada para a organização de festas surpresa. O método: saber o nome do melhor amigo e o telefone dele. Distribuir tarefas. Dar alguns telefonemas. Pronto. Simples e eficiente. Já a minha mãe, coitada, na única vez que ela tentou organizar uma festa surpresa pra mim - depois de eu durante anos quase implorar por isso - chamou meu namorado num canto - o que já é de se desconfiar - e disse em alto e bom tom: "Mês que vem é aniversário da Carol. O que a gente vai fazer?". Eu até tentei ajudar, chegando a fazer lista de convidados, decidindo o lugar e a decoração... Mas a festa, que só era surpresa pros organizadores dela teve além da família - leia-se: pessoas que moram comigo, tirando um ou dois que nem estavam presentes - um único amigo e o tal namorado. Não sei nem se pode ser considerada. Mas valeu a intenção. Considerando o histórico familiar, eu não estava exatamente contando com uma festa surpresa antes da minha viagem para cá. Acabei organizando pessoalmente a festa, as despedidas e tudo mais. Foi bom, no fim das contas. Mas hoje, às vésperas de voltar para o Brasil, ainda não consigo deixar de pensar nas festas da Nat como referência... Lembro da recepção no aeroporto... Metade das pessoas no saguão devia ser parentes da Nat. A outra metade, amigos. E a outra metade (sim, tem mais de duas), vizinhos. E a quarta metade repórteres e curiosos atraídos pela multidão. A mente de agente secreto da mãe da Nat fez com que ela pudesse organizar tudo mesmo tendo ido buscar a filha no México. A organização incluía, além da festa, já devidamente preparada, com DJ, buffet e uma lista de convidados condizente com o nome "festa", um ônibus para transporte dos convidados, presentes e buquês gigantescos, que faziam o nosso vasinho de crisântemos ficar até com vergonha. Pelo menos é o que eu me lembro. Claro que algumas coisinhas contribuíram para isso: a gente estar de férias (estava, não estava?) e a chegada ser no aeroporto da Pampulha contribuíram bastante pro número de pessoas que compareceu. Ou no mínimo é esse o meu consolo quando eu penso que a minha partida foi acompanhada de três ou quatro pessoas, assim como a volta provavelmente vai ser. Hoje, faltando três dias para minha chegada, não me dou ao luxo de esperar nem metade do que esperou pela Nat. Também seria bastante improvável que em uma quarta-feira de manhã as pessoas - ainda que sejam amigos tão queridos - saiam do conforto de suas camas e viajem até os confins de um lugar distante para esperar uma menina descabelada e cansada da viagem de 16 horas que traz como única riqueza um saco de moedas - de chocolate... Mas é claro que eu não posso deixar de ficar feliz ao descobrir que um e outro amigo vão estar lá para abraçar a amiga descabelada. E mesmo não podendo deixar de sentir uma pontinha de inveja da Nat, mesmo sabendo que minha recepção não será nem metade do que a dela foi, não posso deixar de esperar que seja pelo menos um quinto. E mal posso esperar pelos abraços, mesmo poucos, mas sinceros, que estão me esperando.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sempre que eu pensava em fazer um intercâmbio, desde a época em que esse pensamento comecou a engatinhar na minha mente, me vinha à cabeca a idéia mais próxima que eu tinha: a Nat. Para quem nao sabe, a Nat, sim, essa mesma que de vez em quando deixa um comentário aqui e que até já me visitou na Terra da Batata, entao, a Nat morou um ano no México, quando a gente ainda fazia ensino médio. Claro que foi a notícia do ano, com todos os seus preparativos e expectativas e comemoracoes. E isso incluiu entre outras coisas,  festas surpresa. Teve a festa de despedida, a despedida no aeroporto, a recepcao no aeroporto e a festa de boas vindas. Isso sem contar as surpresas do meio do caminho, como um caderno cheio de mensagens bonitinhas que os colegas escreveram, incluindo eu, claro. E todas essas surpresas e comemoracoes sempre fizeram parte do meu imaginário de intercambio. A festa de despedida tinha que ser surpresa, com uma lista completa de amigos

Mas embora eu tenha ajudado na preparacao de muitas surpresas, o número de surpresas que eu já recebi é

domingo, 24 de janeiro de 2010

teste

teste

Famílias

O que dizer? Sei que está ficando repetitivo eu contar que estou arrumando as malas e tal. Mas não tem muito mais o que dizer. Os últimos dias passaram tão depressa que me assustei ao descobrir que em menos de duas semanas eu chegarei no Brasil. E me assustei mais ainda ao abrir a carteira e descobrir que au-pairs realmente não conseguem ficar ricas. Pelo contrário. E mesmo tendo algumas outras novidades, fica difícil pensar em outra coisa que não seja essa viagem. A sensação, o frio na barriga, é mais ou menos o mesmo que eu senti antes de vir pra cá. A sensação de descobrir um mundo novo, de não saber ao certo como vai ser o meu futuro e minha vida nesse outro mundo. Planejar, é claro que eu planejo. Da mesma forma que planejei antes de vir. Mas vocês como bons leitores sabem que as coisas não saíram exatamente do jeito que eu havia previsto. Melhor, talvez, mas diferente. Imprevisível. E nada impede que aconteça exatamente o mesmo. Depois de tanto tempo aqui, algumas coisas ainda me surpreendem. Como a gente pode se apegar a algumas pessoas a ponto de quase não querer mais ir embora. Como que algumas podem ser tão simpáticas e agradáveis apenas sendo exatamente como elas são. E como outras, ao contrário, podem ser antipáticas a ponto de não cumprimentarem alguém que praticamente mora na mesma casa. Como os valores podem ser diferentes. Como pessoas que recebem por dia mais do que eu em um mês inteiro podem negar um valor que não representa mais do que um par de horas para alguém que dedicou tantas e tantas horas a eles. Muitas vezes de graça. E como pessoas que precisam trabalhar dias, semanas para conseguir esse mesmo valor, o entregam sem pedir nada em troca. É nessas horas que percebo o quanto que valem a amizade e o carinho sinceros. Gostar de alguém sem saber explicar o porquê. Estar com alguém porque quer, não por ser obrigado a fazê-lo. Presentear com gosto, de coração. E é nessas horas que percebo que por mais que eu goste deles e que eles digam que gostem de mim, nunca, nunca cheguei nem perto de fazer parte da família deles. E nem eles da minha. Pra isso eles teriam que comer muito arroz com feijão!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Arrumando as malas

... E de repente eu começo a arrumar as malas. A separar o que vai, o que fica, o que vai pro lixo. A sensação de contagem regressiva é cada vez mais forte. E está tão perto que nada mais parece valer a pena. Mas como vale! De repente faço tudo como se fosse a última vez. E já nem reclamo do frio, da neve, de ter que acordar cedo, de trabalhar muito. Porque eu sei o quanto vou sentir falta disso tudo. Passei a relevar muita coisa. E minha família nem reclama mais quando me vêem assim com um ar meio perdido. Ou até pensam em falar alguma coisa, mas se lembram e suspiram. E de repente ninguém tem nada mais a dizer porque nada do que for dito poderá mudar o que já é. Eles queriam que eu ficasse. Ele queria que eu ficasse. E eu... Ah! Eu queria poder ser duas e não precisar escolher. Mas a vida é feita de escolhas. E essa foi uma decisão tomada há muito tempo.  Não, eu não vou voltar atrás. Ou melhor, vou. Vou voltar, como prometido. Ainda que seja apenas por um tempo suficiente para atar os fios soltos. Mas fiquem tranquilos que com o emaranhado de linhas que deixei no Brasil, vocês vão ter Carol o bastante para matar a saudade, se cansar e mandar de volta. Ou não.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Contagem regressiva

Quando eu penso no ano que se passou, não consigo conceber que tudo o que eu vivi aconteceu em apenas um ano.


Em um ano vivi em quatro famílias diferentes, em um país e uma cultura muito mais estranhos do que eu imaginava. Aprendi a gostar de criança, desisti de ter filhos tão cedo e descobri coisas sobre mim mesma que de nenhuma outra forma eu descobriria. Conheci muita gente, amigos que vieram e se foram, pessoas que me marcaram para uma vida toda, pessoas que duraram apenas uma dança. E uma que me faz querer ficar aqui pra sempre. Entre aventuras, coincidências, eventos imprevisíveis, bolos de cenoura, viagens inusitadas e histórias indizíveis, apesar de todos os pesares, apesar de todas as dificuldades que eu tive no começo e de todas as pedras no caminho, posso dizer que 2009 foi um dos melhores anos da minha vida. E mesmo que alguns fatores me façam quase desistir de ir embora, existe também a saudade, existem os amigos e a família e um milhão de coisas para serem resolvidas no Brasil. Existe a promessa de que eu voltaria. E eu vou voltar. Mas eu preciso dizer que esse inverno, esse final de ano foi marcado pelo sentimento de que o tempo está acabando. O Reveillon foi regado a tango, fogos de artifício, beijos e lágrimas sinceras, por sentir que eu estou abandonando muito mais do que a Alemanha. Estou deixando uma parte da minha vida aqui.


A partir de hoje, começa a contagem regressiva. Dentro de exatamente um mês eu vou estar chegando naquele mesmo aeroporto de onde saí um ano atrás, entre abraços e olhares tristes. O meu olhar hoje talvez não esteja tão feliz como eu há alguns meses imaginei que estaria. Mas é um olhar certamente diferente do que eu tinha, com muito mais vivências, muito mais emoções. De certa forma, era isso o que eu queria. Aprender a ver o mundo com outros olhos. E só o fato de ter conseguido isso, faz com que eu possa dizer, apesar de toda e qualquer consequência: Valeu a pena!


Desejo a todos vocês um ano repleto de experiências novas e enriquecedoras. Que 2010 possa ser ainda melhor do que o ano que passou.