quarta-feira, 31 de março de 2010

Duplamente

A arrogância dos olhares, a futilidade das conversas, as preocupações infundadas, a valorização das aparências, a crueldade das tarefas, a teimosia destrutível, o constrangimento inevitável, e o evitável, a precariedade das condições, as condições de convivência, o desdém das expressões, as explosões injustificadas, as revoltas sem explicação, as determinações impassíveis, imutáveis, a falta de comunicação, de compreensão, de justificativa, as acusações constrangedoras, o constrangimento acusativo, a má vontade das concessões, as confissões permissivas, o não ter onde ir, o não saber o que quer, o ficar sem escolha, o fazer sem querer, o desconfiar, o brigar, o chorar, o aguentar, o fingir.

Me perguntam se sinto saudade.

Sinto.


Dos olhares carinhosos, das conversas longas e profundas, da despreocupação com o mundo, da beleza insuperável, da simplicidade de tudo, das tardes preguiçosas, das divertidas, do descanso acompanhado, dos passeios estendidos, das aventudas inesperadas, das risadas sem motivo, das demonstrações de afeto, do afeto escondido, do sentimento que explode sem aviso, dos sonhos esperançosos e apaixonados, da recriação do mundo, dos mundos e fundos, do choro incontido, do gargalhar sem medida, do viver sem juízo, do querer saber, do ficar por querer e querer ficar pra sempre, do jurar até a morte, do saber com certeza, do tocar com paixão, do amar como quem não quer nada, e ter tudo.


Se quero voltar?


Talvez...

Mas por enquanto, eu fico.

domingo, 14 de março de 2010

Agente 9007

22:40 Caminho até o local. Roupa escolhida para a ocasião: saia e blusa. Livros. Aparentemente uma estudante inocente. O veículo chegará em 5 minutos. 
22:43 Chegada ao local. Várias pessoas com trajes informais. Não há necessidade de interação. 
22:48 Atraso não de todo imprevisto. Procuro demonstrar tranqüilidade e aguardo impassível. A paciência é uma qualidade fundamental para o sucesso dessa missão. 
22:49 Avisto o veículo se aproximando. Algumas pessoas percebem e começam a se mover. Procuro ser discreta e me afasto um pouco. Em vão. 
22:50 O veículo chega. Executo o sinal previamente combinado, que me identifica. Dois homens se aproximam barrando minha passagem. E preciso lutar para chegar até a porta. 
22:51 Passo rápido pela porta, que se fecha atrás de mim. Olho para o homem no volante, que arranca antes de que eu pudesse me acomodar. Pela velocidade, estamos sendo seguidos. É preciso muita destreza nesse momento. Mas já conheço o protocolo. Qualquer reclamação é inútil. 
22:52 Identifico o receptor e entrego o valor estipulado sem dizer uma palavra. O homem conta o dinheiro lentamente, sem se preocupar com as manobras do veículo, cada vez mais perigosas. Finalmente ele faz um sinal de aprovação e permite meu acesso. 
22:53 Informo secretamente meu objetivo. Ele apenas assente com a cabeça. É preciso confiar nele. 
22:54 Mais aliviada, observo os outros rostos no veículo. Há mais do que o esperado. Pessoas desconhecidas. Minha missão agora é passar despercebida por elas e me inflitrar até alcançar uma posição mais condizente com os meus méritos. 
22:57 Observo atentamente os rostos e movimentos, tentando descobrir os primeiros a serem eliminados. 

23:03 Identifico um rosto conhecido. Ele será o próximo. Eu sei. Ele sabe. Preciso tomar cuidado para não me denunciar. Aproximo-me do alvo sem levantar suspeitas. Observo seus movimentos pelo canto do olho. Ao menor sinal é preciso agir. Segundos podem fazer muita diferença. 
23:04 A troca de olhares. O movimento. A mulher ao meu lado percebe também. Mas eu sou mais ágil e tiro-a de combate. O sinal. Com o alvo eliminado, ocupo facilmente a posição desejada. E observo com meu novo status os rostos invejosos e resignados que se voltam para mim. 
23:19 Minha posição privilegiada não parece durar muito tempo. O receptor faz um sinal e percebo: eu serei a próxima. Um movimento me denuncia. Eu me torno o próximo alvo. Todos os meus movimentos são cuidadosamente observados. Sei que ninguém hesitará em tomar o meu lugar quando chegar a hora. 
23:20 Tentativa de escape. Faço um sinal ao homem no volante. É preciso agir rápido. Os outros fecham o cerco e atacam, impedindo minha passagem. 
23:21 Uso os livros como escudo e defendo com fúria meu caminho para a liberdade. Por um triz, consigo saltar quando o veículo pára no sinal. Escapei dessa vez. 
23:30 Chego em casa cansada, ainda com as marcas da missão bem sucedida. Minha mãe me vê e me abraça emocionada. E comunico uma decisão importante: Eu realmente preciso de um carro.


Em homenagem aos nossos queridos rodoviários que apesar de receberem o salário mais alto da categoria no Brasil (relação R$/hora) insistem em fazer greve e nos mostrar que por incrível que pareça ainda é possível piorar esse serviço.