sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Avalanche de polonesinhos

A ideia do intercâmbio, para quem não sabe era trabalhar em escolas de ensino médio, mostrando a cultura do Brasil assim como valores de empreendedorismo, tolerância, amor cristão e diversidade. Trabalharia em um time com outros intercambistas de outras partes exóticas do mundo, que também mostrariam sua cultura e ajudariam a difundir os sacros valores aiesecos para os não tão pequenos assim poloneses. Além disso, ficaríamos apenas uma semana em cada escola, em cidades diferentes, o que permitiria um maior alcance dos nossos valiosos ensinamentos. Pelo menos era essa a nossa ideia geral em Wroclaw, ao assistirmos apresentações sobre como fazer apresentações. 

Foi só no último dia de conferências, quando já nos preparávamos para nos despedir dos organizadores que descobrimos de fato quais seriam as cidades em que ficaríamos e quem eram as pessoas do time com que trabalharíamos nas próximas semanas. Fomos divididos em dois grupos e o meu grupo ficou composto pela Viviana, da Romênia e Simon (ou Guo Wentao para os íntimos) da China. Depois disso fomos enviados em um ônibus que parecia resquício da segunda guerra mundial rumo a um destino até então desconhecido. 

Depois de cerca de uma hora e de eu ter contado toda a minha vida amorosa para a Viviana, ter tido uma crise de riso nervoso incontrolável e quase perdido o ponto em que deveríamos descer, chegamos. Quando descemos, encontramos três pessoas e meia nos esperando. O diretor e sua esposa, que foram nos receber pessoalmente, e um homem careca e sua filha de oito anos, que seriam a minha família alguns minutos mais tarde. 

Até esse momento, nós não sabíamos muita coisa sobre o que deveríamos fazer nas escolas ou onde iríamos ficar. Só sabíamos que ficaríamos hospedados provavelmente em dormitórios e que apresentaríamos workshops para adolescentes. Assim, a surpresa foi grande quando descemos em Olesnica e descobrimos que não só ficaríamos em famílias e não em dormitórios como pensávamos, mas que também os workshops não seriam para adolescentes, como o diretor informou com a maior naturalidade, depois de perguntarmos o que eles esperavam que fizéssemos na escola:

-- Ensinar inglês no jardim de infância.

Bem, não era uma piada, mas não conseguimos conter o riso e o olhar desesperado que trocamos nesse momento. Mas o real desespero fomos conhecer no dia seguinte. Como alguém tinha nos falado, no primeiro dia iríamos apenas conhecer a escola e conversar com os professores sobre o que faríamos no tempo que ficaríamos lá. E essa foi nossa expectativa. Fomos muito bem recebidos por quase todos os professores e pelas crianças, que olhavam para nós como se fôssemos celebridades. A escola era tanto escola primária como jardim de infância e todos pareciam achar que era o evento do ano receber pessoas tão exóticas. Fui abraçada e recebi declarações de amor logo nos primeiros momentos em que pisei na escola. Mas ao menor toque do sinal de início das aulas, fomos empurrados para uma sala repleta de crianças com metade do meu tamanho e que já tinham aprendido a falar... polonês. O material que tínhamos preparado, que envolvia aspectos de diversidade cultural, estereótipos, problemas sociais e ambientais, não seriam exatamente úteis para uma turma que passava a maior parte do tempo desenhando e que sabia no máximo contar de um a dez em inglês. Tentamos fazer uma atividade com eles, desenhando algumas figuras e falando o nome em inglês, enquanto eles contavam o nome em polonês e viravam cambalhotas desgovernadamente pela sala. Acho que eu não preciso contar que não deu certo. 

Nós não estávamos sozinhos com eles, mas as três moças responsáveis pelas crianças falavam tanto inglês quanto elas, com a diferença de que alguns polonesinhos sabiam contar até dez. Estávamos quase desistindo quando as crianças descobriram uma nova atividade favorita: abraçar. Mas não era aquele abraço de criança em que você olha, coloca a cabeça de lado e diz: ownnnn. Não. Era um tipo de abraço mais selvagem, daqueles que você as vê  se aproximando ferozmente e grita: salve-se quem puder! antes de ser soterrado por dezenas de braços e pernas. Por incrível que pareça, não houve mortos ou feridos, apesar de minha orelha quase ter sido arrancada em um desses abraços ferozes. Saímos ilesos, com umas boas fotos e muitas risadas depois.

sábado, 22 de setembro de 2012

Wroclove à primeira vista


Depois de cerca de 17 horas de viagem de trem, com uma mala muito maior e mais pesada do que o bom senso deveria permitir, mais atrasos do que o esperado, com horas de insônia na madrugada e de sono em horas impróprias, finalmente cheguei em Wrocław. Já no trem podia perceber as diferenças. Assim que entramos em solo polonês, todos os avisos no alto falante do trem que até então tinham sido feitos na confortável lingua alemã, foram bruscamente abandonados. Tudo que eu ouvia eram chiados em um ritmo melódico, quase cantado em alguns pontos. Gostei do som da língua, mas não entendi bulhufas. De quando em quando surgia o nome de uma cidade que eu conseguia identificar, mas esses momentos eram raros. Principalmente porque, como eu fui descobrir algumas horas mais tarde, a pronúncia em polonês é muito diferente do que supõe a nossa vã filosofia. O nome da cidade para onde eu estava indo por exemplo, parecia na minha inocência ser pronunciado como vroclau. Não é muito bonito, mas é uma coisa ao alcance de simples mortais falantes de português. Ou pelo menos eu achei que fosse. A pronúncia real, como me contou um nativo com a maior naturalidade, é alguma coisa como vrotsuof, que se parece imensamente com o som que a gente faz quando tenta pronunciar uma palavra numa língua que não entende direito. Nesse ponto, talvez a pronúncia seja até mais fácil, você só tem que enrolar a língua e fingir que está falando russo. Ou polonês.

Mas mesmo com as dificuldades com a língua, deu tudo certo. Consegui identificar a estação em que eu tinha que descer e logo que eu desci o meu buddy já estava prontamente me esperando. O buddy é a pessoa da aiesec que te busca na estação e te ajuda nos primeiros dias a se locomover pela cidade. Acho que no meu caso a descrição de "menina com mala vermelha grande" foi boa o suficiente para me identificar. Não havia ninguém com uma mala tão grande ou tão vermelha como a minha. Depois de ter minha mala carregada sem que tivesse sido me dada a opção de ajudar nessa tarefa e eu ter fingido reclamar por alguns segundos, pegamos um taxi até o dormitório. Os taxis eram carros velhos de cores aleatórias, o que combinava com a minha primeira impressão da cidade: prédios antigos, mas não do tipo que a gente acha bonito, que pareciam com a parte feia do centro de Belo Horizonte. Quase me senti em casa. Mas mais tarde, depois de ido até o dormitório onde eu ficaria hospedada por alguns dias, quebrado a alça da mala e me arrependido trezentas vezes de ter trazido tanta coisa, ter conhecido uma colega de quarto que viraria minha amiga de infância em algumas horas e ter tentado em vão repetir obrigada em polonês, saí com o meu buddy para conhecer a cidade e pude mudar um pouco a minha primeira impressão. Na verdade eu estava cansada da viagem e adoraria ter tomado um banho naquele momento. Mas não me arrependi de ter ido com ele. 

Andamos até o centro da cidade e adorei o fato de que tinha muito verde e o que pareciam ser muitos rios. Pra acrescentar um pouco de cultura nesse blog, é bom informar aos leitores que na verdade não são vários rios, mas o mesmo rio que se bifurca loucamente pela cidade em todas as direções possíveis. Wrocław possui cerca de 120 pontes, umas 20 ilhas e um número indefinido de anões - mas isso é outra história. A cada metro que nos afastávamos do dormitório, pude perceber o tanto que a minha primeira impressão estava errada. A cidade é bastante moderna, possui vários shoppings e um sistema complexo de bondes e ônibus interligados por passagens subterrâneas. Por incrível que pareça, achei o sistema de transporte mais moderno do que o que eu conheço na Alemanha e fiquei impressionada com a possibilidade de comprar o bilhete com o cartão de crédito no bonde só aproximando o cartão (tipo o cartão bh bus para os belorizontinos, com a diferença de que é um cartão de crédito). Sou eu que sou da roça ou isso também é novidade pra vocês? 

Mas o tour do dia não se resumiu a passeios de bonde. Fomos ao centro histórico, à catedral, a uma das ilhas e por fim à maior fonte multimídia de ___ (Polônia? Europa? Mundo? Quem adivinhar ganha um brinde), que é um espetáculo que eu não conseguiria descrever sem que parecesse muito menos do que na verdade é, então coloquei uma foto aqui pra vocês terem uma ideia. De uma forma muito tosca, é uma piscina enorme que jorra água e solta luzes no ritmo de uma música que pode ser clássica ou pop. Eu assisti ballet, vi saltos, formações de grupos, contratempos e solos. E a visita à cidade já teria valido a pena só por causa disso. Mas foi mais do que isso. Como descubro a cada vez que ando pelas ruas dessa cidade, Wrocław é muito mais do que eu imaginava e conquista a cada dia também para mim o direito de usar seu apelido Wroclove, ainda que ele não tenha muito a ver com a pronúncia real do nome da cidade.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Polska? Tak!

Embora os meus amigos tenham gostado da ideia do intercâmbio na Polônia, esta foi a reação da minha família, do namorado e de quase todos os alemães com quem eu conversei: Polônia?? Porque que alguém vai pra Polônia? 

Confesso que eu não sabia o porque. Minha vontade era simplesmente ficar por algum tempo em um país diferente da Alemanha. Depois de morar na Alemanha por um ano, ter formado em alemão, ter arrumado um namorado alemão e continuar estudando a cultura alemã até hoje, posso dizer que já conheço um bocado desse país. E até diria que enjoei se não existisse google tradutor. Mas eu amo muito esse país pra falar uma coisa dessas. 

A ideia enfim era visitar um país diferente, que apesar de ser vizinho e ter pontos em comum com a Alemanha (como por exemplo compartilhar o título de terra da batata, como descobri mais tarde), possui muito mais diferenças do que eu era (e ainda sou) capaz de imaginar.

Não sei dizer exatamente o que eu esperava. Nem sei dizer se eu de fato esperava alguma coisa. Tudo o que eu tinha era uma ideia muito vaga do que eu encontraria aqui. Mas independente de quaisquer expectativas presentes ou posteriormente imaginadas, posso dizer que estou descobrindo e vivendo muito mais do que eu pensei que seria possível. Estou aprendendo com as diferenças e semelhanças e vivendo dias que parecem durar semanas inteiras, como eu espero contar nos próximos posts. Há dificuldades é claro, mas como qualquer livro barato de auto ajuda diria, isso faz parte da vida e só me ajuda a crescer como ser humano. E certamente é muito melhor quando as facilidades e felicidades (e estou achando extremamente poético o tanto que essas palavras são parecidas) superam tanto em número e grau os momentos não tão bons. 

Mesmo que eu ainda não saiba ao certo como serão as próximas semanas e não tenha ainda conseguido definir o que é a Polônia pra mim, hoje eu poderia responder à reação espantada de alguns não com a incerteza com que pisei pela primeira vez em solo polonês, mas com convicção e um certo orgulho de ter aprendido nesse tempo algumas palavras polonesas: Polônia?? tak, tak, tak.