domingo, 21 de outubro de 2012

Olhos vermelhos no escuro

O plano do intercâmbio era ficar uma semana em cada cidade, exceto na primeira, onde ficamos duas semanas. Quando soube disso fiquei feliz com a ideia de não ter de mudar de casa, mas não foi bem assim que aconteceu. Segundo a minha primeira família, havia umas dez famílias que queriam ter a honra de hospedar uma brasileira em suas casas. Como morar em dez famílias diferentes em um período tão curto não seria possível, eles resolveram me dividir ao meio dividir o tempo que eu ficaria em cada casa. Isso significava que a família com que eu estava tão acostumada e feliz depois de uma semana de convivência teria de ser abandonada e eu partiria para uma outra família, nada desconhecida. Desde o primeiro dia em que pisei na escola pela primeira vez, um menino sorridente e carinhoso me abordou e com a ajuda da professora, e com uma quantidade exagerada de gestos demonstrando toda a sua ânsia de falar inglês e principalmente de falar comigo, disse alguma coisa como:

-- Ahn... Carolina... ahn ahn... you... me.. ahn... together... ahn...

Achei que ele estava tentando me chamar pra sair ou algo do tipo e comecei a ficar preocupada. Mas ele parecia achar que eu deveria gostar do que estava tentando me falar, porque depois disso me olhava e sorria como se esperasse que eu o abraçasse e fôssemos felizes para sempre. E como eu não esboçava nenhuma reação, ele me abraçava, emitindo um ruído semelhante ao que alguns filhotes fazem quando querem atenção. Comecei a achar que ele era um pouco afeminado. Só andava com meninas, o que é muito incomum pra idade, e essa coisa de ficar abraçando o tempo todo não era exatamente algo que os meninos de doze anos fariam, ainda que estivessem apaixonados. Talvez tenha sido por isso que o Simon falou depois de ver o garoto me abraçando: 

-- Ela gosta mesmo de você.

Fiquei chocada. Esperei para ver a reação da professora, reprimindo Simon e falando para ele que era um garoto e não uma garota. Era compreensível que ele não visse a diferença, afinal, os chineses eram muito diferentes dos europeus e devia ser mais fácil para ele identificar chineses do que poloneses. Ainda assim, alguém devia falar com ele, o garoto podia ficar traumatizado antes do tempo. 

Mas nada aconteceu. Todos pareciam achar perfeitamente normal que o garoto fosse tratado por "ela". Foi nesse momento que eu percebi que ele usava um tênis com corações cor de rosa e uma calça mais apertada do que a que os garotos normalmente usam. É legal que a pessoa use a roupa que acha melhor e não tenho nada contra isso. Mas ainda assim havia alguma coisa errada. Foi só quando a professora de inglês tratou-o também por ela que eu tive certeza: o menino era menina. Literalmente.

O nome dela era Sandra, tinha 10 anos e era a pessoa mais apegada a mim naquela escola, a ponto de abraçar e não permitir que eu fosse embora. E o que ela estava tentando me dizer não era nenhuma declaração de amor platônico, como fui entender depois:

-- You now ahn... house her. Ahn... next week... you... my house.

Foi assim que fiquei sabendo, logo no início, qual seria minha próxima família.

Confesso que com todo o amor que ela demonstrava, fiquei um pouco receosa dessa segunda semana e segunda família. Se no intervalo das aulas ela já estava tentando me contar sobre toda a família e me abraçava a ponto de não permitir nenhum movimento, imaginei o que seria quando me mudasse para a casa dela. Até tentei  atrasar a minha mudança pra lá de alguma forma, mas o máximo que eu consegui foi atrasar por um dia. Mas nessa época eu não podia imaginar o que estava me esperando e que seria ao mesmo tempo melhor e pior do que o que eu imaginava. 

A mudança foi no meu aniversário, a meu pedido, no começo da segunda semana. Depois de uma pequena reunião de aniversário com pratos brasileiros, fui para a outra família, pronta para ser sufocada por abraços. Por conta da comemoração do meu aniversário, estávamos um pouco atrasados, o que ocasionou ligações incessantes de Sandra. O primeiro pai me levou até a segunda casa. Era um apartamento no centro da cidade, longe da escola por um lado, mas mais perto da civilização por outro. Sandra esperava na porta, andando nervosamente de um lado para o outro, como se não tivesse feito mais nada no dia inteiro. No último piso e sem elevador, fiquei realmente feliz por ter alguém para carregar a mala para mim. 

Em comparação com minha primeira  casa, era extremamente pequena, com um corredor e uma cozinha apertados, um quarto dividido em dois por estantes cheias de livros. O quarto da Sandra e da sua irmã de 15 anos, Ola, era mais ou menos dois terços do meu quarto anterior, com a diferença de que continha não só uma cama, mas duas, além de duas escrivaninhas e estantes também cheias de livros. O lugar onde eu dormiria porém era grande, na sala de jantar e televisão e minha cama era um sofá cama.

Logo que eu cheguei, fui recebida com presentes, um par de brincos e um pingente com a letra C, que pareciam ser de prata, além de um quadrinho com uma imagem da cidade. O plano era sair para comer pizza juntos quando eu chegasse na nova casa e Sandra já tinha perguntado pelo menos umas cinco vezes durante a semana se eu gostava de pizza e o que eu comia. Já tinha perguntado o sabor da pizza, e já sabia que eu não comia carne. Isso não seria um problema nessa família. O único problema é que ao chegar lá eu já tinha comido pão de queijo, brigadeiro e sorvete na outra família e comer pizza significaria um certo risco de explodir. Eles pareceram um pouco decepcionados por eu não jantar com eles no dia, mas adiaram para o dia seguinte e ficou tudo bem. Apesar de não termos ido comer a pizza, Sandra e sua irmã ficaram no meu quarto por algum tempo, conversando e contando histórias.

As histórias do dia foram sobre fantasmas, pessoas mortas e guerra, os temas perfeitos para dar as boas vindas a hóspedes recém chegados e cansados. As meninas contaram sobre a sua irmã que tinha morrido quando ainda era um bebê e que tinha a pintura de um retrato (pela aparência falado), pendurada na parede do que agora era o meu quarto. Na mesma parede, outras fotos penduradas, algumas de parentes já falecidos, outras parecendo ter sido tiradas na guerra ou antes dela, com pessoas que provavelmente já estavam mortas há muito tempo. A parede me lembrava uma coleção de fotos antigas, organizadas de forma a não deixar nenhum espaço entre si. As fotos continuavam em um parapeito logo abaixo dos quadros e acima da minha cama, de forma que ao olhar para cima tudo o que eu via eram retratos. Depois de apresentar a família nos retratos e todos os seus membros, mortos ou vivos, Ola perguntou:

-- Você acredita em fantasmas?

Eu não sei. Conheço várias histórias de pessoas que viram espíritos e tudo o mais, mas eu pessoalmente nunca vi um nem tive nenhuma comprovação concreta da sua existência, então prefiro afirmar que não sei se eles existem. Mas a Ola não só acreditava como tinha histórias de pessoas que já tinham visto fantasmas para acrescentar ao meu repertório:

-- A minha vó via fantasmas. Quando ela acordava, via dois olhos vermelhos olhando para ela e só depois que rezava um pai nosso e uma ave maria eles iam embora. 

Ela deixou um silêncio para ver o efeito da afirmação. Eu não tinha muito o que dizer além de me mostrar impressionada:

-- É mesmo? 

Ela continuou:

-- E o meu pai não acreditava nela, mas um dia, ele foi dormir e quando ele apagou a luz ouviu um barulho como se houvesse gente andando pelo quarto. Quando acendeu de novo, todos os sapatos estavam bagunçados e espalhados. Ele arrumou os sapatos e apagou a luz de novo. E novamente quando acendeu todos os sapatos estavam bagunçados. Então ele arrumou os sapatos novamente, mas amarrou-os com um barbante. Quando apagou a luz, ouviu um grito e um barulho e ao acender, o barbante estava cortado e todos os sapatos espalhados. Desde então ele acredita na minha vó.

Achei que ela fosse dizer "Desde então ele não arruma mais os sapatos". Talvez fosse um aviso para que eu acreditasse nela, ou teria meus sapatos bagunçados na calada da noite. Na verdade, eu achava que um fantasma deveria ter mais o que fazer do que bagunçar os sapatos dos outros, mas quem sou eu para discutir? Ninguém também poderia discutir com o pai caso os sapatos estivessem bagunçados. Mas eu não falei isso. Ela parecia gostar de histórias de terror e estava fazendo um esforço para me impressionar, então apenas concordei novamente, esperando um assunto mais amigável. Mas ela não tinha terminado. 

-- Depois que minha vó morreu, também costumava me visitar quando eu era pequena, quando morávamos na outra casa, mas agora não visita mais. 

Bom, pelo menos parecia que naquela casa eu estaria segura. Esperava não receber nenhuma visita de parentes falecidos. Já bastava o quadro mórbido da irmã com que eu tinha de conviver. Mas acho que comemorei cedo demais. Depois de falar dos entes falecidos da família, ela resolveu me mostrar o restante do quarto. Além das fotos acima da minha cama, havia outras em preto e branco em outra parede. Ela contou que era o seu bisavô, que tinha morrido na segunda guerra, pelos alemães. Também falou que achava que na sua família havia judeus no passado que provavelmente também tinham morrido na guerra. Ela queria descobrir esses antepassados judeus e por isso colecionava algumas estatuetas judias, que estavam no mesmo quarto em que eu dormia. Mas as estatuetas não eram a única coleção presente no quarto. Também havia armas, colecionadas pelo pai, e bonecas de porcelana, colecionadas pela mãe. Todas as paredes estavam cobertas de objetos que pareciam estar lá há pelo menos um século. É como se não houvesse espaço para respirar. E esse seria o único problema do quarto se ela não tivesse se lembrado de acrescentar:

-- Eu sempre tenho medo de dormir nesse quarto por causa das bonecas. Você sabe aquele filme do Chuck? 

O único filme que eu tinha visto dessa série era mais engraçado do que de terror. Mas mesmo como comédia, não era uma boa lembrança para deixar para os hóspedes que dormiriam sozinhos no quarto... Até cheguei a pensar que toda sessão terror poderia ser uma estratégia para me persuadir a dormir no quarto delas. Mas considerando o risco de sufocamento amoroso por parte da mais nova, preferi ficar com as bonecas. 

As meninas pareciam muito assustadas por causa das bonecas e imaginei se não haveria nenhuma história de bonecas acordando à meia noite, bagunçando os sapatos alheios. Mas parecia ser o fim das histórias de terror. Como já estava tarde, a Ola perguntou se eu já queria tomar banho e fez questão de preparar a banheira para mim. Depois de tomar banho e de ser perguntada pelo menos cinco vezes se eu não queria realmente comer alguma coisa, pude ir dormir. Ou tentar.

Depois de apagar a luz e me deitar, tudo o que vi foram dois pontos vermelhos flutuando no escuro. Mas antes de me aterrorizar e mudar de quarto, quando estava quase partindo para a estratégia da avó e rezando um pai nosso para que eles desaparecessem, percebi que era só a luz de standby da tv e do dvd. Eles não desapareceram, mas pude dormir tranquila, sem chucks, fantasmas judeus ou poltergeists. Mas preciso confessar que meus sapatos nunca estiveram muito arrumados enquanto estive nessa casa...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Tolerância e amor cristão

Não sei se vocês sabem, mas a Polônia é um país extremamente católico. Eu não tinha ideia disso antes de chegar aqui, mas com alguns dias já pude perceber o quando isso é forte no país. O último papa, que era polonês, está estampado frequentemente em vários lugares, não só em lugares óbvios como igrejas, que têm até estátuas dele, como também em casas ou em escolas, como era o caso da escola em Olesnica. O curioso é que até agora eu só vi fotos do antigo papa, mas nenhuma do novo. Talvez por ele ser alemão. 

Mas saindo da briga de vizinhos e voltando à religiosidade, esse é um tema realmente impressionante na Polônia. Se você vai numa sala de aula no Brasil e pergunta qual a religião dos alunos, talvez a maioria vai responder católica, uma parte considerável evangélica, alguns espíritas e em casos mais raros um sem religião ou de religião não cristã. Aqui na Polônia, todos seriam católicos. Até agora somente duas pessoas com quem eu conversei não eram católicas: um universitário, que disse ser ateu e uma menina de ensino médio em uma das escolas que visitei que declarou em frente a toda a turma que não tinha religião. Ela não foi apedrejada, mas alguns coleguinhas olharam para ela como se ela fosse ainda mais exótica do que a brasileira que estava na frente deles. Só mudaram de ideia quando eu falei que também não tinha religião. Mas não, eles não me apedrejaram. 

Esse não era o caso da primeira escola. Sendo uma escola católica, era natural que todas as crianças fossem católicas, assim como as respectivas famílias, que iam à igreja no mínimo uma vez por semana, quando não eram muito religiosas. Porque as pessoas religiosas na Polônia vão à igreja todos os dias, o que nem a minha vó, que é o meu modelo supremo de religiosidade, faz. 

No nosso primeiro dia, depois de ter sido soterrados e pisoteados por polonesinhos extremamente adoráveis e cristãos, fomos chamados em uma sala no intervalo. Os alunos formaram um círculo, ocupando todos os cantos da sala, acompanhados por alguns professores. Nós fomos colocados no centro da sala. Com a experiência anterior, fiquei com medo de eles estarem planejando um abraço coletivo ou algo do tipo. Os mini poloneses não estavam presentes na sala, mas os alunos da escola primária poderiam ser um problema muito maior e mais pesado e mais católico do que o que tínhamos vivido alguns minutos atrás. 

Mas não parecia ser esse o previsto. Eles começaram a falar coisas em uma língua exótica chamada polonês e eu, que na época só sabia falar dzien dobry e umas outras palavrinhas para não morrer de fome, naturalmente não entendi nada. E claro que hoje eu também não entederia. Eles acenderam uma vela e colocaram na nossa frente e começaram a recitar novamente em polonês. Até temi que fosse algum ritual de conversão e que eles iam nos batizar à força ou algo do tipo. Mas daí lembrei que eu já tinha sido batizada em um passado remoto e parei de me preocupar. Em algum momento, depois de perceber que eles estavam apenas rezando, eles começaram a falar na língua estranha e a fazer referências às pessoas que estavam no centro do círculo. Em algumas religiões isso poderia significar algum tipo de oferenda, mas antes que eu voltasse a me preocupar, vi que algumas crianças traziam um cartaz nas mãos, onde davam as boas vindas aos mais novos e exóticos convidados. Tivemos que nos apresentar e dizer o quanto estávamos felizes com todo o calor humano que eles tinham nos oferecido até o momento, tentando ao mesmo tempo manter uma certa distância emocional para que eles não mudassem de ideia e fizessem sim um abraço coletivo. Acho que deu certo.

Depois de sermos formalmente apresentados à escola e às divindades presentes, voltamos ao trabalho. Mas dessa vez não fomos jogados numa sala infestada de poloneses perigosos. Fomos apresentados à professora de inglês que tinha acabado de ser contratada e estava tão apreensiva quanto nós por trabalhar com poloneses tão pequenos. Mas essa não seria na verdade, nossa tarefa principal. A maioria das aulas que damos foi para os alunos da escola primária. As aulas de inglês eram basicamente uma mistura de jogos aleatória que os alunos de alguma forma gostavam. E em algumas aulas apenas ficávamos sentados, assistindo a aula de inglês ou participando das atividades. Mas não era bom contar com um período de folga. Algumas vezes a professora, achando que estávamos aborrecidos de ficar apenas sentados ouvindo ou quando ela estava cansada de dar aulas, falava de repente, sem aviso prévio ou indenização: agora os nossos convidados estrangeiros vão continuar a aula. E éramos jogados no meio da sala, tendo apenas alguns segundos para pensar no que fazer. Perdi a conta de quantas vezes jogamos forca. Mas algumas vezes os alunos queriam apenas conversar. E faziam perguntas. 


Nunca vi alunos tão interessados quanto eles. Mas não perguntavam sobre o nosso país ou a situação econômica, como era de se esperar. Perguntavam qual a nossa cor favorita, o que a gente gostava de fazer, se tinhamos irmãos e irmãs ou bichos de estimação. E ficavam olhando com aquela carinha deslumbrada, como se nunca tivessem visto nada tão bonito ou tão interessante em toda a vida. E acenavam e diziam oi emocionados, como se estivessem frente a frente com seu ator favorito. Eles abraçavam também, mas os abraços não eram tão selvagens quanto no jardim de infância. Mas eram suficientes para nos manter ocupados em cada intervalo e impedir de comer o sanduíche que eu tinha trazido de casa. E isso durou toda a semana que estivemos lá. Fizemos algumas apresentações sobre nossos países, mas como o inglês deles não era exatamente bom, não acho que entenderam muita coisa. Mas ainda assim olhavam deslumbrados e sorriam e acenavam e diziam "I like you" e davam presentes. Ganhei pinturas, desenhos, origamis, chocolates, mas o mais importante nessa escola definitivamente foi o carinho dos alunos, ainda que algumas vezes fosse difícil respirar com tanto amor. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pão, cama e água

A primeira família morava numa cidade chamada Olesnica, com uns 35000 habitantes, num lugar que poderia à primeira vista ser classificado como "no meio do nada". Era a primeira casa depois que você atravessava a cidade, passava por algumas casas ainda em construção, alguns lotes onde nada ainda tinha sido construído, alguns campos com plantações indefinidas e ruas que pareciam trilhas para bicicleta. Mas era uma casa bonita e grande, tinha um trampolim no jardim e era perto da escola. 
Eles me buscaram na estação de ônibus e foram muito gentis o tempo todo. Mas ao chegar em casa, pareciam estar tão apreensivos como eu. Não sabia o que eles esperavam e como eu deveria me comportar. Antes de começar o intercâmbio de fato, meu contato com os poloneses se resumia a algumas festas e uma conferência da aiesec. Então a imagem que eu tinha eles era de que bebiam muito. Mesmo que essa imagem tenha se confirmado depois em outros contatos e mesmo em dados estatísticos, tipo quantos litros de álcool eles bebem por ano (o que aparentemente todo polonês sabe de cor), não era muito para saber como me comportar, o que dizer ou não fazer. 
A família também parecia não saber bem como agir. Pareciam procurar palavras, o que aparentemente não era um problema apenas linguístico. Todos pareciam extremamente sem jeito e eu não era exceção a isso. Mas tentavam a seu modo agradar, mesmo que o meu desejo parecesse às vezes um desafio.
Logo quando cheguei por exemplo eles perguntaram se eu queria beber alguma coisa. 
- Você quer suco? chá?
Geralmente, tudo que eu quero ao chegar em casa é um bom copo d'água. E como água é algo geralmente fácil de encontrar em toda casa, barato e sem contra indicações médicas, além de ser um dos itens que a bíblia diz que você jamais deve negar a alguém segundo minha avó, é o que eu geralmente peço. Mais tarde fiz uma anotação mental de só pedir o que estiver na lista de bebidas oferecidas. Mas nesse dia meu manual de boas maneiras não estava tão desenvolvido.
- Somente água, por favor.
A expressão do pai, que era quem melhor falava inglês na família e quem foi me receber na estação, de repente mudou de amigável e solícito para preocupado e incrédulo.
- Ahn... só água? Não prefere chá, suco, café, vodka?
Já sabia que eles bebiam muito, mas não tanto a ponto de substituir água por vodka. E como meu manual como eu disse ainda precisava de algumas páginas, insisti, achando que era só um jeito de dizer que eu podia pedir uma bebida mais cara se eu quisesse. 
- Eu prefiro água. 
E, vendo que a expressão dele mudava de preocupado para aflito,  talvez exatamente por causa da recomendação bíblica, acrescentei depressa:
- Mas pode ser suco se não tiver.
O pai respirou aliviado, pegou o suco e explicou:
- Eu tenho que preparar a água, mas para amanhã já vai estar pronta. 
Nunca imaginei que a preparação de água desse tanto mais trabalho do que abrir uma torneira ou apertar um botão. E não poderia conceber que com uma cidade com tantos rios e pontes por perto como Wroclaw, Olesnica tivesse algum tipo de escassez de água. Fiquei imaginando se eles realmente teriam água encanada, se estavam cavando um novo poço ou algo do tipo e fiquei até preocupada de não ter água suficiente também para tomar banho. Já que não dava nem prum copo dágua...
Mas não era o caso. Como eu fui descobrir depois, a água na Polônia não era assim tão pura quanto eu estava acostumada na Alemanha ou no Brasil. E a maioria dos poloneses ou pelo menos todas as famílias que conheci até agora fervem a água antes de beber ou compram água mineral. No caso dessa família, eles simplesmente não bebem água. Tiveram que ferver água especialmente para mim e no dia seguinte compraram umas seis garrafas de 1,5l de água mineral. Normalmente eu beberia essa quantidade em dois dias, mas como eles pareciam pensar que deveria durar a semana inteira, não falei nada e tentei economizar na medida do possível. Nunca pensei que água pudesse ser um artigo de luxo. 
Eles pareciam achar muito exótico o fato de eu querer beber água. Mas mais exótica ainda eles certamente me acharam quando me perguntaram:
- O que você come?
Já estava esperando por esse momento. Mas fiquei feliz de eles não terem preparado nenhum prato antes de me perguntar. A chance de ser alguma coisa com carne era muito alta. E quando eu respondi:
- Eu como quase tudo, mas não como carne nem peixe - o que para não vegetarianos é a afirmação mais contraditória do mundo. O pai parecia concordar e me olhou como se eu tivesse vindo de outro planeta:
- Mas então, o que você come? 
Pensei até em responder com as respostas decoradas da época do Yôga e dizer que eu como "pratos de forno e fogão tais como empadões, suflés, pizzas, massas em geral, panachés, rissolis, gratinados, dorés, empanados, milanesas, strogonoffs, fondues, farofas, molhos de tomate, acebolados, golf, rosé, maioneses e as 15.000 variedades de legumes, cereais, hortaliças, frutos, raízes, ovos, leite, queijos, iogurtes… mais toda aquela gama maravilhosa de especiarias tais como orégano, cominho, coentro, noz-moscada, tomilho, açafrão, gengibre, cardamomo, páprica, louro, salsa, cravo, canela, manjericão, manjerona, chili, curry, masala e uma infinidade de outros". Mas como eu já não sei isso de cor há muito tempo e precisei tirar daqui para postar, lembrei apenas alguns itens que eu já tinha visto no cardápio ds poloneses e que eu achava que seria fácil de encontrar em toda casa:
- Ahn.. legumes, massas, batata...
Mas isso também parecia difícil:
- Ok. Ahn... Nós temos alguns legumes no jardim e eu posso comprar batatas. 
Com medo de passar o resto dos meus dias naquela casa comendo salada, acrescentei:
- Mas não precisa se preocupar tanto, eu como a mesma coisa que você, mas sem carne. Alguma coisa típica da Polônia talvez...
- Mas nós comemos carne! Os pratos típicos da Polônia todos têm carne!
Comecei a ficar preocupada também, vendo que ele estava ficando aflito novamente. Eu tinha comido coisas polonesas sem carne na verdade, mas achei melhor não discutir. Mais tarde, depois de passado o choque de ter um ser tão exótico em casa, ele foi se lembrando de outras coisas que eu também comia como pão ou queijo. E eles até me serviram uma torta feita com frutas do jardim, além do suco. E eu não passei fome afinal. 
Mas o maior choque nessa família foi ao ver o quarto em que eu estava hospedada. Eles me mostraram a casa e falaram:
- Esse é o quarto da Zusia, e é onde você vai ficar. 
A menina foi correndo e pulou na cama. A minha conclusão lógica foi que ela dormia ali. Não via muito problema em dividir o quarto com ela, além do fato de que ela devia dormir muito mais cedo do que eu. Depois que eles me deixaram sozinha para tomar banho e organizar as coisas, procurei pelo quarto: nem sinal de outro colchão. Olhando mais atentamente, vi um colchão fininho, tipo colchonete atrás da cama. Será que eles não se deram conta de que seria um pouco desconfortável dormir ali? E porque nem se deram ao trabalho de tirar o bendito de trás da cama? Ou arrumá-lo decentemente para eu dormir? Será que me acharam com cara de faquir? Além de não ter água nem comida teria que dormir no chão?
Mas mais assustada eu fiquei quando olhei para a cama e vi dois travesseiros colocados lado a lado. Choque. Eu tinha visto a menina correndo e pulando na cama e até o momento não tinha visto nenhuma outra superfície decente em que qualquer uma das duas poderia dormir. Eles queriam mesmo que a gente fosse tão próximas assim?
Um pouco preocupada e sem saber o que fazer, resolvi cuidar primeiro das necessidades básicas de todo ser humano. Entrei no facebook, chequei o e-mail, conversei com o namorado. E depois, quando achei que já tinha ficado tempo demais sozinha no quarto, desci para ficar mais tempo com a família e aproveitar para esclarecer onde eu ia dormir. Imaginei que eles estariam se perguntando porque eu estava sozinha no quarto e que esperavam passar mais tempo comigo. Mas quando cheguei na sala, o que eu vi não mostrava muito desejo de socialização. 
Ao me ver descer as escadas, eles interromperam imediatamente a conversa - na verdade nem era necessário porque eu não ia entender nada mesmo. Todos olharam para mim como se eu estivesse a fazer alguma revelação muito mais exótica ao meu respeito, do tipo "na verdade eu só como carne humana" (embora eu ainda ache que eles não achariam esse fato tão estranho quanto o de eu não comer carne alguma). E a cena que eu vi também não despertava em mim nenhum desejo de socializaçã. O pai estava seminu, esfregando um creme nas costas e nos braços, a filha mais velha estava olhando para ele e parecia ter tido uma conversa amigável até então. Mas no momento todos olhavam estupefatos esperando qualquer reação minha. Imediatamente abandonei meus planos de socializar e perguntei a que horas deveríamos sair para a escola no dia seguinte. E, quando eu já estava indo embora, vi a cena que poria fim aos meus dias de faquir: 
A menina Zusia, dormindo no sofá. Fiquei tão aliviada de que eu não precisaria dormir no chão ou dividir a cama com ninguém que comecei a socializar com a família e só parei quando vi que eles continuavam olhando para mim como se esperassem que eu fizesse mais algum pedido exótico.
Mas apesar desse começo catastrófico (e dentro da minha licença poética, exagerado em alguns pontos), os dias que se seguiram foram muito melhores. Eu dei presentes do Brasil para eles e eles cozinharam coisas polonesas para mim. Todos tentavam agradar o máximo possível. Saí com a filha mais velha e os amigos dela para conhecer a cidade, jogamos xbox todos juntos, brincamos com a Lena, o bebê da família. No meu aniversário, que foi no mesmo dia que eu fui embora, ganhei presentes da Zusia e da família, fiz pão de queijo e brigadeiro para eles e já nem queria mudar de família quando chegou a hora.