domingo, 21 de outubro de 2012

Olhos vermelhos no escuro

O plano do intercâmbio era ficar uma semana em cada cidade, exceto na primeira, onde ficamos duas semanas. Quando soube disso fiquei feliz com a ideia de não ter de mudar de casa, mas não foi bem assim que aconteceu. Segundo a minha primeira família, havia umas dez famílias que queriam ter a honra de hospedar uma brasileira em suas casas. Como morar em dez famílias diferentes em um período tão curto não seria possível, eles resolveram me dividir ao meio dividir o tempo que eu ficaria em cada casa. Isso significava que a família com que eu estava tão acostumada e feliz depois de uma semana de convivência teria de ser abandonada e eu partiria para uma outra família, nada desconhecida. Desde o primeiro dia em que pisei na escola pela primeira vez, um menino sorridente e carinhoso me abordou e com a ajuda da professora, e com uma quantidade exagerada de gestos demonstrando toda a sua ânsia de falar inglês e principalmente de falar comigo, disse alguma coisa como:

-- Ahn... Carolina... ahn ahn... you... me.. ahn... together... ahn...

Achei que ele estava tentando me chamar pra sair ou algo do tipo e comecei a ficar preocupada. Mas ele parecia achar que eu deveria gostar do que estava tentando me falar, porque depois disso me olhava e sorria como se esperasse que eu o abraçasse e fôssemos felizes para sempre. E como eu não esboçava nenhuma reação, ele me abraçava, emitindo um ruído semelhante ao que alguns filhotes fazem quando querem atenção. Comecei a achar que ele era um pouco afeminado. Só andava com meninas, o que é muito incomum pra idade, e essa coisa de ficar abraçando o tempo todo não era exatamente algo que os meninos de doze anos fariam, ainda que estivessem apaixonados. Talvez tenha sido por isso que o Simon falou depois de ver o garoto me abraçando: 

-- Ela gosta mesmo de você.

Fiquei chocada. Esperei para ver a reação da professora, reprimindo Simon e falando para ele que era um garoto e não uma garota. Era compreensível que ele não visse a diferença, afinal, os chineses eram muito diferentes dos europeus e devia ser mais fácil para ele identificar chineses do que poloneses. Ainda assim, alguém devia falar com ele, o garoto podia ficar traumatizado antes do tempo. 

Mas nada aconteceu. Todos pareciam achar perfeitamente normal que o garoto fosse tratado por "ela". Foi nesse momento que eu percebi que ele usava um tênis com corações cor de rosa e uma calça mais apertada do que a que os garotos normalmente usam. É legal que a pessoa use a roupa que acha melhor e não tenho nada contra isso. Mas ainda assim havia alguma coisa errada. Foi só quando a professora de inglês tratou-o também por ela que eu tive certeza: o menino era menina. Literalmente.

O nome dela era Sandra, tinha 10 anos e era a pessoa mais apegada a mim naquela escola, a ponto de abraçar e não permitir que eu fosse embora. E o que ela estava tentando me dizer não era nenhuma declaração de amor platônico, como fui entender depois:

-- You now ahn... house her. Ahn... next week... you... my house.

Foi assim que fiquei sabendo, logo no início, qual seria minha próxima família.

Confesso que com todo o amor que ela demonstrava, fiquei um pouco receosa dessa segunda semana e segunda família. Se no intervalo das aulas ela já estava tentando me contar sobre toda a família e me abraçava a ponto de não permitir nenhum movimento, imaginei o que seria quando me mudasse para a casa dela. Até tentei  atrasar a minha mudança pra lá de alguma forma, mas o máximo que eu consegui foi atrasar por um dia. Mas nessa época eu não podia imaginar o que estava me esperando e que seria ao mesmo tempo melhor e pior do que o que eu imaginava. 

A mudança foi no meu aniversário, a meu pedido, no começo da segunda semana. Depois de uma pequena reunião de aniversário com pratos brasileiros, fui para a outra família, pronta para ser sufocada por abraços. Por conta da comemoração do meu aniversário, estávamos um pouco atrasados, o que ocasionou ligações incessantes de Sandra. O primeiro pai me levou até a segunda casa. Era um apartamento no centro da cidade, longe da escola por um lado, mas mais perto da civilização por outro. Sandra esperava na porta, andando nervosamente de um lado para o outro, como se não tivesse feito mais nada no dia inteiro. No último piso e sem elevador, fiquei realmente feliz por ter alguém para carregar a mala para mim. 

Em comparação com minha primeira  casa, era extremamente pequena, com um corredor e uma cozinha apertados, um quarto dividido em dois por estantes cheias de livros. O quarto da Sandra e da sua irmã de 15 anos, Ola, era mais ou menos dois terços do meu quarto anterior, com a diferença de que continha não só uma cama, mas duas, além de duas escrivaninhas e estantes também cheias de livros. O lugar onde eu dormiria porém era grande, na sala de jantar e televisão e minha cama era um sofá cama.

Logo que eu cheguei, fui recebida com presentes, um par de brincos e um pingente com a letra C, que pareciam ser de prata, além de um quadrinho com uma imagem da cidade. O plano era sair para comer pizza juntos quando eu chegasse na nova casa e Sandra já tinha perguntado pelo menos umas cinco vezes durante a semana se eu gostava de pizza e o que eu comia. Já tinha perguntado o sabor da pizza, e já sabia que eu não comia carne. Isso não seria um problema nessa família. O único problema é que ao chegar lá eu já tinha comido pão de queijo, brigadeiro e sorvete na outra família e comer pizza significaria um certo risco de explodir. Eles pareceram um pouco decepcionados por eu não jantar com eles no dia, mas adiaram para o dia seguinte e ficou tudo bem. Apesar de não termos ido comer a pizza, Sandra e sua irmã ficaram no meu quarto por algum tempo, conversando e contando histórias.

As histórias do dia foram sobre fantasmas, pessoas mortas e guerra, os temas perfeitos para dar as boas vindas a hóspedes recém chegados e cansados. As meninas contaram sobre a sua irmã que tinha morrido quando ainda era um bebê e que tinha a pintura de um retrato (pela aparência falado), pendurada na parede do que agora era o meu quarto. Na mesma parede, outras fotos penduradas, algumas de parentes já falecidos, outras parecendo ter sido tiradas na guerra ou antes dela, com pessoas que provavelmente já estavam mortas há muito tempo. A parede me lembrava uma coleção de fotos antigas, organizadas de forma a não deixar nenhum espaço entre si. As fotos continuavam em um parapeito logo abaixo dos quadros e acima da minha cama, de forma que ao olhar para cima tudo o que eu via eram retratos. Depois de apresentar a família nos retratos e todos os seus membros, mortos ou vivos, Ola perguntou:

-- Você acredita em fantasmas?

Eu não sei. Conheço várias histórias de pessoas que viram espíritos e tudo o mais, mas eu pessoalmente nunca vi um nem tive nenhuma comprovação concreta da sua existência, então prefiro afirmar que não sei se eles existem. Mas a Ola não só acreditava como tinha histórias de pessoas que já tinham visto fantasmas para acrescentar ao meu repertório:

-- A minha vó via fantasmas. Quando ela acordava, via dois olhos vermelhos olhando para ela e só depois que rezava um pai nosso e uma ave maria eles iam embora. 

Ela deixou um silêncio para ver o efeito da afirmação. Eu não tinha muito o que dizer além de me mostrar impressionada:

-- É mesmo? 

Ela continuou:

-- E o meu pai não acreditava nela, mas um dia, ele foi dormir e quando ele apagou a luz ouviu um barulho como se houvesse gente andando pelo quarto. Quando acendeu de novo, todos os sapatos estavam bagunçados e espalhados. Ele arrumou os sapatos e apagou a luz de novo. E novamente quando acendeu todos os sapatos estavam bagunçados. Então ele arrumou os sapatos novamente, mas amarrou-os com um barbante. Quando apagou a luz, ouviu um grito e um barulho e ao acender, o barbante estava cortado e todos os sapatos espalhados. Desde então ele acredita na minha vó.

Achei que ela fosse dizer "Desde então ele não arruma mais os sapatos". Talvez fosse um aviso para que eu acreditasse nela, ou teria meus sapatos bagunçados na calada da noite. Na verdade, eu achava que um fantasma deveria ter mais o que fazer do que bagunçar os sapatos dos outros, mas quem sou eu para discutir? Ninguém também poderia discutir com o pai caso os sapatos estivessem bagunçados. Mas eu não falei isso. Ela parecia gostar de histórias de terror e estava fazendo um esforço para me impressionar, então apenas concordei novamente, esperando um assunto mais amigável. Mas ela não tinha terminado. 

-- Depois que minha vó morreu, também costumava me visitar quando eu era pequena, quando morávamos na outra casa, mas agora não visita mais. 

Bom, pelo menos parecia que naquela casa eu estaria segura. Esperava não receber nenhuma visita de parentes falecidos. Já bastava o quadro mórbido da irmã com que eu tinha de conviver. Mas acho que comemorei cedo demais. Depois de falar dos entes falecidos da família, ela resolveu me mostrar o restante do quarto. Além das fotos acima da minha cama, havia outras em preto e branco em outra parede. Ela contou que era o seu bisavô, que tinha morrido na segunda guerra, pelos alemães. Também falou que achava que na sua família havia judeus no passado que provavelmente também tinham morrido na guerra. Ela queria descobrir esses antepassados judeus e por isso colecionava algumas estatuetas judias, que estavam no mesmo quarto em que eu dormia. Mas as estatuetas não eram a única coleção presente no quarto. Também havia armas, colecionadas pelo pai, e bonecas de porcelana, colecionadas pela mãe. Todas as paredes estavam cobertas de objetos que pareciam estar lá há pelo menos um século. É como se não houvesse espaço para respirar. E esse seria o único problema do quarto se ela não tivesse se lembrado de acrescentar:

-- Eu sempre tenho medo de dormir nesse quarto por causa das bonecas. Você sabe aquele filme do Chuck? 

O único filme que eu tinha visto dessa série era mais engraçado do que de terror. Mas mesmo como comédia, não era uma boa lembrança para deixar para os hóspedes que dormiriam sozinhos no quarto... Até cheguei a pensar que toda sessão terror poderia ser uma estratégia para me persuadir a dormir no quarto delas. Mas considerando o risco de sufocamento amoroso por parte da mais nova, preferi ficar com as bonecas. 

As meninas pareciam muito assustadas por causa das bonecas e imaginei se não haveria nenhuma história de bonecas acordando à meia noite, bagunçando os sapatos alheios. Mas parecia ser o fim das histórias de terror. Como já estava tarde, a Ola perguntou se eu já queria tomar banho e fez questão de preparar a banheira para mim. Depois de tomar banho e de ser perguntada pelo menos cinco vezes se eu não queria realmente comer alguma coisa, pude ir dormir. Ou tentar.

Depois de apagar a luz e me deitar, tudo o que vi foram dois pontos vermelhos flutuando no escuro. Mas antes de me aterrorizar e mudar de quarto, quando estava quase partindo para a estratégia da avó e rezando um pai nosso para que eles desaparecessem, percebi que era só a luz de standby da tv e do dvd. Eles não desapareceram, mas pude dormir tranquila, sem chucks, fantasmas judeus ou poltergeists. Mas preciso confessar que meus sapatos nunca estiveram muito arrumados enquanto estive nessa casa...

3 falando de mim:

Raquel disse...

HAHAHAHAAHAHAHAHAHA!!!!!

Ai, Carol... seus textos sao muito bons!

(PS: eu adorei a parede dos entes mortos.. Me lembra muito os casaroes antigos que visitei no interior uma vez...)

Beijo!

Pedro, o Nogueira disse...

SENSACIONAL DEMAIS =D que bom que tinha os LEDs pra te fazer companhia no quarto cheio de fantasmas =D Beijo e saudades!

Raissa Guedes disse...

Oi Carol, eu esbarrei com o seu outro blog por acaso e agora vim conhecer esse daqui.
Fiquei surpresa e feliz ao ver coisas sobre a Polônia, pois estou num clima Cracóvia, relembrando as minhas duas férias por lá. Faz menos de um mês eu tava neste país lindo. Povo muito carinhoso mesmo e que, até pra nós brasileiros, o carinho e atenção às vezes "sufoca". Mas o que a gente leva depois disso tudo são sempre boas lembranças, de um povo bom, caloroso. Aproveite!!!

Beijinhos!

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