quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Tolerância e amor cristão

Não sei se vocês sabem, mas a Polônia é um país extremamente católico. Eu não tinha ideia disso antes de chegar aqui, mas com alguns dias já pude perceber o quando isso é forte no país. O último papa, que era polonês, está estampado frequentemente em vários lugares, não só em lugares óbvios como igrejas, que têm até estátuas dele, como também em casas ou em escolas, como era o caso da escola em Olesnica. O curioso é que até agora eu só vi fotos do antigo papa, mas nenhuma do novo. Talvez por ele ser alemão. 

Mas saindo da briga de vizinhos e voltando à religiosidade, esse é um tema realmente impressionante na Polônia. Se você vai numa sala de aula no Brasil e pergunta qual a religião dos alunos, talvez a maioria vai responder católica, uma parte considerável evangélica, alguns espíritas e em casos mais raros um sem religião ou de religião não cristã. Aqui na Polônia, todos seriam católicos. Até agora somente duas pessoas com quem eu conversei não eram católicas: um universitário, que disse ser ateu e uma menina de ensino médio em uma das escolas que visitei que declarou em frente a toda a turma que não tinha religião. Ela não foi apedrejada, mas alguns coleguinhas olharam para ela como se ela fosse ainda mais exótica do que a brasileira que estava na frente deles. Só mudaram de ideia quando eu falei que também não tinha religião. Mas não, eles não me apedrejaram. 

Esse não era o caso da primeira escola. Sendo uma escola católica, era natural que todas as crianças fossem católicas, assim como as respectivas famílias, que iam à igreja no mínimo uma vez por semana, quando não eram muito religiosas. Porque as pessoas religiosas na Polônia vão à igreja todos os dias, o que nem a minha vó, que é o meu modelo supremo de religiosidade, faz. 

No nosso primeiro dia, depois de ter sido soterrados e pisoteados por polonesinhos extremamente adoráveis e cristãos, fomos chamados em uma sala no intervalo. Os alunos formaram um círculo, ocupando todos os cantos da sala, acompanhados por alguns professores. Nós fomos colocados no centro da sala. Com a experiência anterior, fiquei com medo de eles estarem planejando um abraço coletivo ou algo do tipo. Os mini poloneses não estavam presentes na sala, mas os alunos da escola primária poderiam ser um problema muito maior e mais pesado e mais católico do que o que tínhamos vivido alguns minutos atrás. 

Mas não parecia ser esse o previsto. Eles começaram a falar coisas em uma língua exótica chamada polonês e eu, que na época só sabia falar dzien dobry e umas outras palavrinhas para não morrer de fome, naturalmente não entendi nada. E claro que hoje eu também não entederia. Eles acenderam uma vela e colocaram na nossa frente e começaram a recitar novamente em polonês. Até temi que fosse algum ritual de conversão e que eles iam nos batizar à força ou algo do tipo. Mas daí lembrei que eu já tinha sido batizada em um passado remoto e parei de me preocupar. Em algum momento, depois de perceber que eles estavam apenas rezando, eles começaram a falar na língua estranha e a fazer referências às pessoas que estavam no centro do círculo. Em algumas religiões isso poderia significar algum tipo de oferenda, mas antes que eu voltasse a me preocupar, vi que algumas crianças traziam um cartaz nas mãos, onde davam as boas vindas aos mais novos e exóticos convidados. Tivemos que nos apresentar e dizer o quanto estávamos felizes com todo o calor humano que eles tinham nos oferecido até o momento, tentando ao mesmo tempo manter uma certa distância emocional para que eles não mudassem de ideia e fizessem sim um abraço coletivo. Acho que deu certo.

Depois de sermos formalmente apresentados à escola e às divindades presentes, voltamos ao trabalho. Mas dessa vez não fomos jogados numa sala infestada de poloneses perigosos. Fomos apresentados à professora de inglês que tinha acabado de ser contratada e estava tão apreensiva quanto nós por trabalhar com poloneses tão pequenos. Mas essa não seria na verdade, nossa tarefa principal. A maioria das aulas que damos foi para os alunos da escola primária. As aulas de inglês eram basicamente uma mistura de jogos aleatória que os alunos de alguma forma gostavam. E em algumas aulas apenas ficávamos sentados, assistindo a aula de inglês ou participando das atividades. Mas não era bom contar com um período de folga. Algumas vezes a professora, achando que estávamos aborrecidos de ficar apenas sentados ouvindo ou quando ela estava cansada de dar aulas, falava de repente, sem aviso prévio ou indenização: agora os nossos convidados estrangeiros vão continuar a aula. E éramos jogados no meio da sala, tendo apenas alguns segundos para pensar no que fazer. Perdi a conta de quantas vezes jogamos forca. Mas algumas vezes os alunos queriam apenas conversar. E faziam perguntas. 


Nunca vi alunos tão interessados quanto eles. Mas não perguntavam sobre o nosso país ou a situação econômica, como era de se esperar. Perguntavam qual a nossa cor favorita, o que a gente gostava de fazer, se tinhamos irmãos e irmãs ou bichos de estimação. E ficavam olhando com aquela carinha deslumbrada, como se nunca tivessem visto nada tão bonito ou tão interessante em toda a vida. E acenavam e diziam oi emocionados, como se estivessem frente a frente com seu ator favorito. Eles abraçavam também, mas os abraços não eram tão selvagens quanto no jardim de infância. Mas eram suficientes para nos manter ocupados em cada intervalo e impedir de comer o sanduíche que eu tinha trazido de casa. E isso durou toda a semana que estivemos lá. Fizemos algumas apresentações sobre nossos países, mas como o inglês deles não era exatamente bom, não acho que entenderam muita coisa. Mas ainda assim olhavam deslumbrados e sorriam e acenavam e diziam "I like you" e davam presentes. Ganhei pinturas, desenhos, origamis, chocolates, mas o mais importante nessa escola definitivamente foi o carinho dos alunos, ainda que algumas vezes fosse difícil respirar com tanto amor. 

2 falando de mim:

Raquel disse...

AAiiiwww *.*

Como nao amar?!


eu querooooo!!!

Adorei a foto! :)

Carol disse...

fofos demais né? <3

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