domingo, 11 de novembro de 2012

Quando viver é doloroso

No dia seguinte, depois de ter sido levada para a escola pelo diretor, que fazia as vezes também de motorista de van - acredito que para assegurar o número já reduzido de alunos que frequentavam a escola, fui buscada pelo pai da Sandra. Mas não para fomos casa. Ele me levou junto com a Sandra para a casa da filha dele, mais velha do que a Ola. A Elisa já era casada e tinha duas filhas no jardim de infância da escola. A Sandra já tinha tentado me falar sobre isso, mas de um jeito mais ou menos assim:

- My sister... Elisa. Mother children little, ahn ahn... kindergarten.


O que ela tinha tentado me dizer era que a irmã Elisa tinha duas filhas, a Ella e a Basia, que estavam no jardim de infância. Eu já conhecia as duas desde o primeiro dia, em que fomos soterrados por abraços. A Basia era a mais velha, com seis anos e era a única criança do jardim que sabia alguma coisa de inglês. Ela contava de um a dez no mínimo, sabia cantar o alfabeto, sabia cores e nomes de animais. E falava de cinco em cinco minutos no meu curto período de aulas no jardim: 


- Carolina, Carolina! I like you.

E me abraçava, não me deixando outra alternativa a não ser retribuir o abraço e responder pra ela "I like you too", além de tomar cuidado com as outras crianças, que podiam gostar também da ideia. E eu realmente gostava dela. 


A Basia tinha morado com a família na Inglaterra por algum tempo e no período chegou a frequentar a escola, e ainda lembrava das lições. Ao contrário da irmã mais velha, a Ella não se lembrava de nada e era mais do tipo das outras crianças do jardim, que pulavam de um lado para o outro e não tinha a intenção de ficar sentada por mais de cinco minutos. Mas também abraçava de vez em quando. 


A mãe das duas, aparentemente a única integrante da família desconhecida para mim até o momento, era totalmente diferente delas. Quando cheguei a sua casa acompanhada do pai e da Sandra, ela me pareceu um pouco desorganizada, nem abriu a porta direito e foi fazer alguma coisa na cozinha. A impressão que me deu é que ela nem sabia da visita ou não queria que ela acontecesse naquele momento. Fui pra sala acompanhada pela Sandra esperando pela anfitriã. Meu imã para crianças devia estar ligado no momento, porque nem bem me sentei e veio a Sandra e se sentou ao meu lado, grudando em meu braço direito. A Basia vendo isso deve ter ativado o seu abraço magnético e sentou do lado esquerdo. Pra completar, a Ella, vendo que eu não tinha mais braços disponíveis, veio correndo. Temi que ela fosse se jogar em cima de mim ou algo assim, mas ela só abraçou as minhas pernas. Teria sido lindo e cuti-cuti se eu não tivesse sido privada dos meus movimentos. Mas foi isso que aconteceu. E sem poder libertar um braço ou uma perna sem que eu jogasse uma criança pela janela ou, pior, fizesse com que elas se sentissem ofendidas e começassem a chorar, levantando todo o tipo de suspeitas de maus tratos infantil contra mim, fiquei lá, contando com o fato de que a demonstração de afeto por tempo prolongado seria tão entediante pra elas como era pra mim. Elas se mostraram incrivelmente resistentes nesse ponto. Mas depois de alguns minutos, em que tudo o que se ouvia eram barulhos vindos da cozinha e nenhum sinal da mãe, elas pareceram se cansar. A Ella foi a primeira. Largou minha perna e começou a pular de um lado para o outro, mais ou menos como ela fazia no jardim de infância depois de ficar muito tempo sentada. Depois a Basia disse mais uma vez "I like you" e se levantou, me olhou com uma cara de que iria aprontar alguma e saiu correndo da sala. Até fiquei um pouco preocupada, mas me lembrei de que não era mais au-pair e deixei pra lá. Só restava a Sandra. Olhei pra ela e ela me deu um sorriso que parecia dizer "me ame, por favor, me ame!". Mas era difícil amar uma pessoa quando o seu braço está dormente. Depois de admitir que a resistência dela era maior que a minha e antes de permitir que a Ella se cansasse dos pulos e agarrasse o outro braço, tive uma ideia para me libertar sem ferir os sentimentos dela e ao mesmo tempo me livrar da dormência do braço. Me levantei e fui até a janela. Olhei em direção à cozinha e a mãe não dava sinal de vida. A Sandra me olhava sem entender. Como pode uma pessoa preferir ficar em pé a se aconchegar no abraço tão carinhoso dela? Ou eu era muito cruel ou havia algo errado com ela. Antes de ela começar a chorar por qualquer um dos dois motivos, perguntei se ela sabia aquela brincadeira cabeça-ombro-joelho-pé. Eu tinha visto a professora de inglês fazendo isso com uma turma no dia e achei que podia ser uma boa desculpa para estar em pé e manteria ao mesmo tempo as mãos dela ocupadas. Ela me mostrou empolgada como era em inglês. Aí perguntei como era em polonês e ela mostrou, mais empolgada ainda. Treinamos um pouco e quando eu mostrei em português ela parecia querer sair pulando pela casa, imitando a sobrinha que agora estava desaparecida junto com as outras moradoras. 


Elas ainda estiveram desaparecidos por um bom tempo, o que me permitiu aprender várias partes do corpo em polonês, o que sei até hoje graças à Sandra. Quando a minha anfitriã finalmente chegou, parecia ter feito um dos trabalhos de Hércules pela sua expressão cansada. Mas o que trazia nas mãos era só uma bandeja com chá. Pelo tempo que ela tinha ficado na cozinha poderia no mínimo ter acrescentado alguns biscoitinhos. Ela teria tido tempo de comprar os ingredientes, preparar e assar os biscoitos, mas a preparação do chá parecia ter sido suficientemente penosa para ela. Pediu desculpas e se sentou. 


Elisa era magra, estatura média, cabelos pintados de vermelho e curtos, o que parecia acentuar ainda mais a sua palidez. Tinha uma expressão constantemente preocupada e a boca, resignada, nunca sorria. A voz era arrastada e baixa, como se o simples ato de falar representasse um esforço monstruoso. Ela perguntava sobre a minha experiência na Polônia quase com pesar, como se tivesse pena de mim por estar ali. Tentei contar da forma mais animada possível, contando um pouco mais da minha vida e inserindo alguns fatos que eu considerava engraçados ou interessantes.

-- Então eu fiquei por um ano na Alemanha como Au-pair, cuidando de crianças...


Ela me olhou com as sobrancelhas franzidas e balançou a cabeça vagarosamente para frente e para trás, como se eu tivesse acabado de contar que eu perdi minha família em um acidente:


- Imagino que deve ter sido muito difícil para você. As crianças alemãs... - fechou os olhos por alguns segundos e balançou novamente a cabeça, dessa vez de um lado para o outro. 


Longe de querer estimular a discórdia dos vizinhos, eu disse:


- Não, as crianças eram ótimas! Eu realmente gostava muito delas. 

- É mesmo?

- É claro que a educação era bastante diferente, né? As crianças tinham mais limites do que as crianças no Brasil pelo menos... - e vendo que ela ainda parecia à beira do choro, acrescentei - Mas tinha algumas diferenças engraçadas também. No banho por exemplo: as crianças de lá não tomam banho todos os dias! Olha só, não é engraçado?

Esperava que a reação dela fosse no mínimo de espanto. Mas ela me olhou da mesma forma, condolente, interpretando aquilo como uma confirmação de que os pais alemães maltratavam os filhos e que isso era muito difícil e por isso deveríamos todos chorar pelo resto de nossos dias.


Mas o meu diagnóstico final de um quadro grave de depressão veio ao ver como ela lidava com as crianças. Ella estava pulando como sempre fazia nas horas vagas. Era uma criança alegre com um nível altíssimo de energia. Pilha nova, minha tia diria. Ao ver que a menina pulava na sala com o risco de destruir todos os móveis presentes, Elisa disse algo em polonês, no mesmo tom arrastado em que me deu os pêsames por ter sido au-pair e que eu interpretei como algo assim:


- Ella, pára de pular sobre os móveis...


Claro que a Ella não parou. E que não houve consequência nenhuma para o fato de ela não parar. Teria sido muito custoso. Mas Elisa fechou os olhos por um segundo, acentuou a expressão resignada da sua boca e me disse:


- Você vê? Ela nunca me escuta...
 

Eu sei que eu deveria ser mais paciente e compreensiva, principalmente com todo o meu conhecimento de psicologia e psiquiatria que me habilita a fazer um diagnóstico tão acurado nos primeiros minutos de contato. Mas a verdade é que eu preferia ser soterrada por crianças que limitavam meus movimentos do que manter aquela conversa. Achei que teria sido mais interessante até pelo fato de ela ter morado fora. Imaginei que teríamos experiências para trocar e tudo o mais. Mas tudo o que ela falava do tempo que passou na Inglaterra era como a língua era difícil e como criar as crianças era difícil e como a comida e o trabalho e o clima eram difíceis. E estava sendo difícil pra mim continuar sorrindo e tentando mostrar o lado positivo do que para ela era um eterno sofrimento. Assim fiquei feliz quando ela anunciou que ia preparar o almoço e me deixou sozinha com as crianças. Dessa vez eu desejei que ela demorasse mais tempo do que levou com o chá. E foi com uma vitalidade renovada que eu brinquei novamente de cabeça-ombro-joelho-e-pé-joelho-e-pé-cabeça-ombro-joelho-e-pé-joelho-e-pé-olhos-ouvidos-boca-e-nariz-cabeça-ombro-joelho-e-pé-joelho-e-pé ou głowa-ramiona-kolana-pięty-kolana-pięty-kolana-pięty-głowa-ramiona-kolana-pięty-oczy-uszy-usta-nos ou qualquer outro jogo que a Sandra soubesse. Assisti a apresentação de balé que a Basia tinha preparado para mim, vestida com uma fantasia de princesa por cima da outra roupa e vi a Ella pulando de um lado para o outro como de costume. Em um segundo que eu pisquei ela tinha derrubado o pote de açucar da mesa e pegava o açúcar com a mão e colocava na boca. Em algum momento depois disso a mãe chegou dizendo:
 

- É, ela é assim mesmo...
 

E fomos almoçar.
 

Depois de terminarmos de almoçar, irmos passear com as crianças e o cachorro e assistirmos as crianças brincando no parquinho enquanto a mãe me perguntava sobre os meus sofrimentos na vida e me contava sobre os sofrimentos dela e da família, fiquei feliz de chegar em casa. Tudo o que eu queria era alguns momentos sozinha ou no mínimo longe da irmã depressiva. Mas a Sandra queria assistir um filme junto comigo, a Ola queria conversar. Acabamos no meu quarto que era também o quarto de televisão e a Ola me perguntou sobre todos os assuntos possíveis, sobre a minha família, sobre o Brasil, sobre futebol, ela adorava futebol e contou que era fã do Brasil e do Barcelona e que queria assistir ao jogo entre Brasil e Japão que ia ser em Wroclaw. A Ola era completamente diferente das duas irmãs. Ela conseguia perguntar sem parecer que estava sofrendo por isso e se mostrava interessada e empolgada com cada resposta minha. Era carinhosa e atenciosa, mas não era sufocante como a irmã mais nova. Ela também já tinha feito um intercâmbio na França por pouco tempo e tinha um interesse enorme na cultura latino-americana, o que fazia com que sempre tivesse alguma pergunta ou algum outro assunto. Depois de algum tempo conversando e achando que eu já tinha falado para uma vida inteira, fomos à pizzaria. Como no dia da minha chegada não tínhamos ido, esse foi o dia escolhido. Fomos apenas eu, Ola e Sandra, porque segundo ela os pais não poderiam ir. Ela me falou para escolher, fez o pedido e não permitiu em hipótese alguma que eu contribuísse nem com um centavo sequer da conta. O que estava se tornando hábito em todas as famílias. Comemos a pizza enquanto conversávamos sobre música e filmes e fomos pra casa.
 

O dia não foi ruim, como eu posso ter feito parecer aqui, mas me deixou com muita vontade de ter mais tempo para mim, o que procurei fazer nos dias que se seguiram...

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